É entre as 11 e as 15 semanas que tudo isto começa, quando os pais dos neurónios e um grupo de células progenitoras decidem partir à aventura daquilo que é o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central. Há casos em que tudo corre bem e outros em que ocorre um erro e alguns neurónios ficam perdidos em circuitos anómalos. A epilepsia surge assim e a história pode ser contada pela ressonância magnética

Esta é uma história que envolve precisão e planeamento… ou a falta dele, essencial para o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central. Existe um período crítico no desenvolvimento cerebral que consiste na diferenciação de células pluripotenciais, ou seja de células progenitoras nos principais grupos celulares que constituem o Sistema Nervoso Central: neurónios, astrócitos e oligodendrócitos!

Estas células progenitoras acumulam-se numa espécie de maternidade, chamada matriz germinal em volta do sistema ventricular primitivo. Entre outras, dão origem aos neuroblastos, que são os pais dos neurónios… e a aventura começa. Os neurónios abandonam a maternidade para formarem a camada superficial do cérebro: o córtex, fonte de todos os pensamentos…

Algumas das células progenitoras dão origem a células especializadas chamadas células de glia radial que se estendem desde a maternidade, ou seja, desde a matriz germinal até à superfície cerebral: é sobre estas células que os neurónios vão migrar para formarem as diferentes camadas do córtex cerebral.

A migração neuronal ocorre principalmente entre as 11-15 semanas de desenvolvimento do feto. Obedece a um determinismo genético e a sinais bioquímicos específicos que vão dar origem a um verdadeiro milagre, que consiste na organização das 6 camadas do neocortex. A migração faz-se de uma forma ordenada e organizada. As primeiras células a migrar formam a última camada do manto cortical.

Cada onda de migração subsequente passa pelos neurónios depositados e forma as restantes camadas, desde a mais profunda até à mais superficial, com exceção da primeira camada. Uma vez chegados ao seu lugar, predeterminado, os neurónios depositam-se em camadas horizontais e desenvolvem conexões com os seus vizinhos e à distância, organizando redes neuronais. Esta migração e organização cortical são muito precisas e podem ficar comprometidas por um erro genético ou por condições patológicas durante este período crítico do desenvolvimento fetal.

É impressionante como na maioria dos casos a migração neuronal ocorre sem erros. Nos casos em que os erros ocorrem, os neurónios podem ficar perdidos em diferentes fases do percurso: no início do trajeto, formando coleções de células nervosas junto dos ventrículos, ou na parte final do seu percurso, antes de chegarem ao destino predeterminado. Ambos os casos podem ter como consequência circuitos neuronais anómalos que se manifestam clinicamente sob a forma de epilepsia.

A Ressonância Magnética é uma técnica de eleição para este diagnóstico, uma vez que permite diferenciar a substância cinzenta, que contém os corpos neuronais, dos feixes condutores de substância branca. As coleções de neurónios que ficam perdidas pelo caminho assemelham-se a ilhotas cinzentas perdidas num mar de substância branca. O diagnóstico de epilepsia deixa de ser uma hipótese, para passar a ser uma certeza. A vida continua, claro, mas agora adaptada a este novo conhecimento, revelado pela ressonância magnética.

Egídio Machado

(médico neurorradiologista)

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