Várias pessoas nos têm perguntado se pode ser arriscado para quem faz terapia com fármacos, ter uma alimentação (supostamente) saudável com produtos naturais (como frutas, vegetais, legumes, cereais, chás de ervas como, cidreira, lúcia lima, etc) e se será mais seguro optar por uma alimentação à base de produtos industrializados.

Começo por clarificar que “fármacos” são todos os produtos, naturais ou não, que usamos para tratar e que vulgarmente chamamos medicamentos (onde se enquadram, por isso mesmo, as plantas medicinais e os medicamentos à base de plantas, tradicionais ou não). Assim, tanto se designa por fármaco a casca do salgueiro (planta medicinal) como o ácido salicílico que de lá extraímos, ou o pró-fármaco ácido acetilsalicílico que é obtido por hemi-síntese, e que liberta o anterior após hidrólise no organismo. A bioatividade de todos é similar. As interações com eles também.

Assim, seja qual for o fármaco que utilize no seu tratamento deve sempre avaliar as potenciais interacções, pois elas ocorrem independentemente de tomar um fármaco que corresponde a uma planta medicinal, por exemplo Hipericum perforatum, ou um de síntese como a fluoxetina. O mesmo se deve avaliar quanto aos efeitos secundários que neste caso até têm vários em comum.

As infusões e chás de biológicos, são tudo uma mesma coisa, ou seja, os fármacos que aqui usamos e que facilmente identificamos como plantas medicinais, são exatamente isso: concentrados de substâncias químicas que exercem uma bioatividade no nosso organismo, por isso devem ser usados com ponderação e em especial quando precisamos desse efeito.

As frutas e os legumes são essenciais à saúde e de consumo diário (ao contrário dos anteriores), no entanto, dependente do fármaco que esteja a tomar, devem ser evitados certo tipo de produtos em quantidades que possam interferir com a sua biodisponibilidade.

Exemplos: o consumo de fibras em simultâneo com fármacos reduz a sua absorção, pelo que a dose diminuída pode não atingir a dose terapêutica e por isso o tratamento será ineficaz.

Sumos de frutas e/ou de legumes são concentrados de substâncias químicas com elevado impacto no nosso organismo em especial se forem de ingestão crónica, ou seja sempre dentro do mesmo tipo de compostos e todos os dias, Diferente situação será o consumo de frutas variadas ao longo do dia e até mesmo da semana, o mesmo para os legumes.

Este consumo crónico pode levar a que determinadas enzimas do nosso organismo sejam inibidas de funcionar ou noutros casos funcionem demais. No primeiro caso, se elas corresponderem a fármacos se precisam delas para serem eliminados, uma vez que não estão a funcionar como deve ser, o fármaco vai ficar mais tempo no organismo. Por exemplo, em cirurgia usam-se vários fármacos que são obtidos a partir de matrizes de origem natural e dada a sua elevada atividade estas alterações são muito problemáticas. O caso inverso também é importante. Se o fármaco precisar de enzimas que estão a trabalhar demais, isto é que foram induzidas, então o medicamento é excretado do organismo mais rapidamente e não chega a fazer efeito. Em tratamentos de quimioterapia, em que cerca de 70% dos fármacos são de origem natural (devidamente produzidos e avaliados em ensaios clínicos quanto a dose, toxicidade, etc) qualquer destas situações pode ser fatal para o doente. A margem terapêutica destes fármacos é muito estreita e por isso no primeiro caso pode levar a efeitos tóxicos rapidamente e, no segundo, a ineficácia do tratamento.

Muitos mais exemplos poderiam ser dados, mas só para terminar vou acrescentar mais um que diz respeito a substâncias que induzam um mesmo efeito no organismo, por exemplo, o alho, o ácido acetilsalicílico, o gingko, a angelica e a camomila reduzem fatores de coagulação, uns porque inibem a agregação plaquetári, outros porque reduzem a vitamina K, se tomados em conjunto podem induzir um processo hemorrágico fatal em dose única (toxicidade aguda), ou se for ao longo do tempo, em toxicidade crónica. Isto é exactamente o que acontece quando se bebem pequenas doses (shots) de bebidas alcoólicas em se apanha uma bebedeira, não porque se bebeu uma garrafa inteira, mas vários copos de bebidas diferentes numa mesma altura (dose tóxica aguda), mas se o consumo for continuado temos então alcoolismo crónico.

Espero que agora esteja claro que o consumo de qualquer tipo de fármaco deve ser feito com muita ponderação, só mesmo quando necessário, e que devemos respeitar todos os fatores que impliquem a sua boa aplicação para que sejam eficazes, caso contrário comprometemos a saúde e gastamos recursos humanos e económicos sem benefício para a saúde.

 

Maria da Graça Campos

(Professora na Faculdade de Farmácia da UC)

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