A agressividade, os conflitos, as intolerâncias devem fazer-nos pensar que a violência já não pode ser simplesmente violência disto ou daquilo, já é não somente no feminino, no masculino ou no seio familiar. Há uma violência humana. Impõem-se uma reflexão

Enquanto pessoas, vamos construindo a nossa identidade ao longo da vida, num extenso processo onde o contexto tem, obviamente, uma grande importância. Para a contextualização dessa mesma construção contribuem a raça, a dimensão relacional e a classe social, mas também o género como um dos elementos de análise mais significativos.

 As categorias de feminino e de masculino são actualmente meras e simples abstracções quando queremos abordar as questões ligadas à violência, ainda mais quando este assunto se contextualiza em dimensão familiar, com a intercorrência de factores que contribuem de forma decisiva para a gerar e aumentar sob a forma de “bola de neve”. É sabido que a violência no feminino tem adquirido – ao longo do tempo – uma maior expressão em relação à violência no masculino. No entanto, a violência familiar é aquela que, misturando as duas vertentes, malgradamente de forma equilibrada, mostra equidade percentual quando analisada no seu todo. 

Quando me refiro à família, não me refiro a esta entidade social de uma forma simplista, considerada tradicionalmente composta por pai, mãe e filhos. Refiro-me aos vários tipos de família, isto é, às formas ou mutações que esta foi sofrendo, à mudança conceptual, à qual se foi adaptando ao longo do tempo, resultante de novas contextualizações.

A construção familiar e a sua dinâmica são de importância crucial na transformação bio-psico-social individual, familiar e comunitária.

Destas modificações do status resultaram atitudes e comportamentos que condicionaram vivências desequilibradas, quando confrontadas com as conhecidas, as quais trouxeram novas formas de violência, já não no feminino, já não no masculino, mas de envolvência familiar.

A violência recíproca no casal e a violência no idoso e na criança passaram a ser vertentes igualmente importantes de um problema social. A violência, que junta e/ou cruza as formas anteriores com estas novas formas e também com todos os factores de risco que contribuem para a gerar, contextualizando-a de uma forma bastante mais abrangente, de uma forma global.   

Os factores de risco que se constituem como factores de desequilíbrio ou factores de disfuncionalidade podem, em si mesmos, ser marcos de vida; como a doença (somática, psíquica ou psicossomática) em contexto de comorbilidade, como os factores sociais diversos, como as transições de vida (“ninho vazio”, aposentação, entre outros), como os factores familiares relacionados com formas de violência (p.ex. doença grave de familiar, comportamentos desviantes, etc.), como a família disfuncional – disfuncionalidade gerada de múltiplas formas, como o divórcio no idoso, como os maus tratos quer físicos quer psicológicos de filhos para pais, de pais para filhos, de cônjuge para cônjuge ou outros maus tratos internos ou externos ao núcleo ou círculo familiar. 

Também os factores externos enquanto elementos geradores de disfuncionalidade potenciam atitudes e comportamentos relacionados com formas de violência (comportamentos sociais, individuais ou de grupo, desajustados, em relação às expectativas imaginárias concebidas acerca do mundo real actual, uma mistura de verdade com ficção) como o vandalismo, o assalto ou o roubo e a devassidão que isso constitui se acaso está em jogo o próprio “ninho”. 

O peso da vida familiar

A Violência também é francamente influenciadora do nosso estado de saúde. A agressividade do meio ambiente, a agressividade dos mais jovens para com os mais idosos, dos mais idosos para com os mais jovens e o desmoronar do conceito de respeito, as intolerâncias dos mais novos em relação aos mais velhos e as dos mais velhos em relação aos mais novos e as consequentes conturbação e conflito, bem como os desvios sexuais de origem endógena ou exógena aos próprios indivíduos, o assédio e a violação, entre muitos outros, constituem igualmente factores de risco incluídos numa extensa lista de problemas marcantes ao longo de todo o Ciclo de Vida, subjacentes à disfuncionalidade e ao potencial de violência nela contida. Tudo isto potenciador de transtornos mentais comuns como os transtornos neurodegenerativos, a depressão, a insónia e a falta de autoestima.

O peso da vida familiar ainda constrange desproporcionalmente a vida, a liberdade e a criatividade. 

Torna-se indispensável estabelecer indicadores de precocidade de diagnóstico de disfunção familiar e de criar instrumentos de avaliação da qualidade de vida e do status funcional, para além dos métodos de avaliação familiar já existentes, sobre a funcionalidade e disfuncionalidade, que permitam uma recolha de dados e a necessária e consequente reflexão sobre os conteúdos dessa base de dados formada, com o intuito de, através da intervenção de equipas multidisciplinares, num trabalho profundamente interligado e muito bem articulado entre todos os membros da equipa, percepcionarem o contexto familiar na sua globalidade e operacionalizarem a detecção precoce do potencial de violência e a aplicação de programas de prestação de apoio continuado e personalizado. Este é um trabalho que deve ser centrado na família, no seu “todo”, num modelo sistémico que se pretende, que não seja meramente bio-psico-social, mas bio-psico-sócio-educativo, transformativo.  

Podemos inferir desta breve abordagem que a violência já não pode ser chamada, simplesmente, violência disto ou daquilo, mas sim, à escala superior, violência humana. As descrições que se seguem pretendem ser ilustrativas, não exaustivas, de alguns cenários reais de formas de violência familiar, em família reconvertida, em família monoparental, em família nuclear e em família nuclear alargada.  

      1 – Indivíduo do sexo masculino, 78 anos de idade, doente com comorbilidade da qual sobressai uma postura predominantemente deprimida, viúvo desde há três anos, vive sozinho, executando todas as tarefas de casa incluindo a confecção da sua própria alimentação. Não frequenta, por opção, qualquer instituição de apoio social e recusa, igualmente por opção, o concurso de qualquer ajuda protagonizada por qualquer equipa de apoio domiciliário. Contundido, assaltado e roubado por duas vezes, na rua. Recentemente, por duas vezes viu a sua casa assaltada e roubada, uma na sua ausência, a outra, com a sua presença.  

      2 – Família na qual predomina o problema grave de saúde do filho mais novo, bebé de 26 meses, que o colocou já em perigo de vida algumas vezes e, que persiste, constituiu a razão principal pela qual a família foi abandonada pelo pai e marido. Vivem apoiados, alternativamente, por alguns dos familiares exteriores ao agregado familiar os quais se constituem como substitutos do elemento ausente. 

      3 – Família constituída por esposa e marido, vivendo desde há muito tempo uma relação conflituosa. Esta conflituosidade é meramente assente numa competitividade constante entre os dois, permanentemente avaliada, discutida, valorizada ou desvalorizada, construída sobre a lista de problemas que oferece maior dominância e assente no que mais e mais graves problemas próprios de saúde tem, mas também no que mais vitimizado é com o sofrimento do outro, numa constante e mútua desconstrução da personalidade e das competências. 

      4 – Família nuclear alargada, pela presença do pai do elemento masculino do casal, sofrendo de comorbilidade, acamado, sem perda da lucidez, utilizado sistematicamente para a obtenção oportunista de benefícios sociais e de “estatuto” para apenas alguns dos restantes membros do agregado familiar, situação que causa dissonâncias, mal-estar e fracturas familiares que se sucedem em cascata, numa conflitualidade latente, por vezes em ebulição, de características verdadeiramente “fellinianas”, magnificamente descrito e mostrado por Ettore Scola em “Feios, Porcos e Maus”.

Numa lógica de formação para aprender a ensinar, a escolha do conceito de violência familiar centra-se numa abordagem global de todos os atores do sistema familiar, com o intuito de perspectivar uma abordagem diagnóstica, terapêutica e preventiva dos fenómenos de violência muitas vezes e quase exclusivamente focalizados no “indivíduo” sob a capa da caracterização do género, inerente aos papéis e representações sociais de homens e mulheres.

Um novo domínio de reflexão

Para atingir este objectivo torna-se forçoso pensar em constituir equipas multidisciplinares, executando um trabalho verdadeiramente articulado, imbuídas de espírito colectivo, para desenvolver programas de apoio personalizado e contínuo, em direcção a uma intervenção global, mais eficaz no que respeita à actividade, às funções e responsabilidades de cada membro destas equipas, que devem ao mesmo tempo ser capazes de construir uma nova abordagem na prevenção, diagnóstico e tratamento dos problemas. 

 Impera a necessidade de alertar para este novo domínio de reflexão, através da discussão de novos contributos, experiências e conceitos, constituindo este o grande desafio de uma abordagem inovadora, com as pessoas e para as pessoas, integrando uma dimensão comunitária, de âmbito global e sistémico, numa intervenção multidisciplinar tão desejável como necessária e urgente.

É absolutamente necessária a observação e a compreensão do indivíduo no seu todo, porque cada Indivíduo constitui um todo indissociável; indissociável de todos os seus círculos e enquadramentos naturais, inatos e adquiridos e inserido na comunidade da qual faz parte integrante. Assim construímos o processo de construção do saber, a nossa aprendizagem das mudanças conceptuais, resultantes de novas contextualizações sociais e da análise reflexiva de fenómenos, tais como a multiculturalidade, a co-morbilidade e a orientação comunitária, entre outros.

Assim, desenvolvemos uma interacção eficaz da equipa multidisciplinar entre si e com a comunidade, nos domínios da Educação para a Saúde, da Promoção da Saúde e da Prevenção da Doença com um Plano Educativo, primeiramente de avaliação das necessidades educativas, das bases de conhecimentos já existentes e os recursos individuais e coletivos. Este seria o caminho ideal para chegarmos a um desfecho com um final feliz, mas muitas histórias de vida começam e acabam nas disfunções, sem caminhos, sem sinais de trânsito, mas cheios de pedras e precipícios.

Alberto Carlos Ferreira de Carvalho  
(Medicina Geral e Familiar; OM n.º 19624)                                                                                              

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