Não, o mau humor não nasce connosco! Todavia se existir predisposição genética, poderemos vir a manifestar doenças, como a depressão, ou traços de personalidade como o neuroticismo

Conhece muitas pessoas que vivem de mal com a vida, na maior parte do tempo queixam-se de tudo, permanecem de “cara fechada” e raramente as vê sorrir? Apesar desse comportamento, estas pessoas negam ter algum problema ou mudança na sua vida.

Descritas como amargas, pessimistas, rabugentas, são de difícil trato e a irritação é uma constante no seu dia-a-dia. Nestes casos, o mau humor faz parte da personalidade, e apesar de ser comum a diferentes traços de personalidade, os especialistas relatam que está mais frequentemente associado ao traço de neuroticismo. Pelo contrário, quando o mau humor aparece de forma súbita, acompanhado de outros sintomas, como a tristeza, a baixa autoestima, a desesperança, a perda ou aumento do apetite, alterações do sono (com insónia ou hipersónia), com efeitos prejudicais no trabalho e o afastamento dos que nos rodeiam, é a depressão que explica este mau humor.

Quais os subtipos de depressão?

Há vários subtipos de depressão: a perturbação depressiva major, a distimia e a fase depressiva na doença bipolar. Na perturbação depressiva major, os sintomas depressivos começam de forma aguda num período de 2 semanas. Algumas pessoas mantêm a sua rotina normal mas, por detrás da habitual “cara alegre”, sentem um cansaço constante, dores de cabeça, sentimentos de desesperança, falta de foco e perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas.

A distimia é uma depressão crónica, em que os sintomas depressivos são menos intensos e têm uma duração superior a 2 anos. As pessoas mostram-se sombrias, irritáveis, não entusiastas e incapazes de se divertir, apresentando uma tendência para se queixar de forma persistente. Por outro lado, a doença bipolar caracteriza-se por oscilações entre fases de mania e de depressão, sendo características desta última a desesperança, cansaço, sonolência, pensamentos de suicídio constantes e a completa falta de interesse nas atividades diárias.

Quais as causas para a depressão?

Estão identificadas várias causas para a depressão e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), ela resulta de uma conjugação de fatores: psicológicos (como a forma pessoal de “ver a vida” e os pensamentos habituais, que dependem da educação e das experiências na infância); externos (como o desemprego, o divórcio, uma doença crónica ou problemas económicos) e biológicos (que incluem a redução de neurotransmissores, como a serotonina e a noradrenalina, e a influência genética, verificando-se que familiares de pessoas com depressão têm 3x maior probabilidade de sofrer da doença).

O mau humor pode ser personalidade?

O mau humor pode manifestar-se em diferentes traços de personalidade, contudo está mais frequentemente associado ao neuroticismo. O neuroticismo é um traço de personalidade em que o próprio experiencia sentimentos de ansiedade, frustração, culpa, solidão e tristeza. Estas pessoas respondem pior a fatores de stress, sendo mais propensas a interpretar situações do quotidiano como ameaçadoras e pequenas frustrações como irremediavelmente difíceis. Pessoas com elevado neuroticismo têm maior probabilidade de desenvolver outras doenças psiquiátricas, como a hipocondria, perturbações de ansiedade e perturbações do comportamento alimentar. Várias teorias tentam explicar as causas para o neuroticismo, estando descritos em 80 % os fatores genéticos (como a presença da variante do gene da serotonina 5-HTTLPR, e uma maior atividade da amígdala no reconhecimento de faces de tristeza e medo) e em 20% os fatores ambientais (como experiências de negligência na infância e de abuso sexual).

O mau humor tem vantagens?

Pessoas que tenham uma personalidade com um elevado neuroticismo mostram maior reatividade a resultados negativos o que, numa perspetiva de psicologia evolutiva, poderá ter um efeito benéfico na sobrevivência, encontrando-se, por exemplo, um efeito positivo entre o neuroticismo e o sucesso universitário. Também a depressão poderá ter uma função adaptativa, porque numa situação inicial leva o indivíduo a reduzir o gasto energético, sinaliza a necessidade de ajuda (através do choro e do recolhimento) e promove a solidificação dos vínculos sociais.

E tratamento?

Segundo a OMS, em 2030, a depressão será a principal causa de incapacidade por doença no mundo. O tratamento da depressão deve começar com uma avaliação médica especializada, que inclui uma intervenção psicológica estruturada e, por vezes, a toma de psicofármacos durante cerca de 8 meses. Desta forma, o tratamento evita que a doença se torne crónica, melhora o prognóstico de outras doenças comórbidas – como a doença cardiovascular – e diminui a probabilidade do aparecimento de outras doenças psiquiátricas, como o abuso de álcool.

Na perturbação de personalidade, o tratamento inclui também uma intervenção psicológica, que deve ser adaptada às características do indivíduo, e durante um maior período de tempo, em comparação com a depressão.


Sofia Morais (Médica, Psiquiatra)

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