A anatomia, função e ritmo cardíaco podem ser avaliados num ecocardiograma fetal. Antecipam-se diagnósticos e tratamentos antes do nascimento do bebé

Se há suspeitas de que algo não corre bem com o coração do feto, o ecocardiograma fetal é o exame de eleição para esclarecer as dúvidas. Com a vantagem de ser um exame não invasivo e sem qualquer tipo de contraindicação para a mãe e para o feto, este método de imagem permite uma avaliação detalhada da anatomia, função e ritmo cardíaco fetal, com uma precisão superior a uma normal ecografia obstétrica.

Na vertente estrutural, o exame avalia se o coração está corretamente formado. Observam-se as quatro cavidades cardíacas — duas aurículas e dois ventrículos — verificando se têm o tamanho adequado e se estão bem organizadas. Analisa-se também a integridade das paredes que separam estas cavidades, para excluir a presença de comunicações anómalas. São igualmente avaliadas as válvulas cardíacas, que funcionam como portas que orientam o sangue no sentido correto, confirmando-se se estão presentes, se têm dimensões adequadas e se abrem e fecham normalmente.

O exame inclui ainda a observação dos grandes vasos sanguíneos, como a aorta e a artéria pulmonar, verificando se nascem das cavidades corretas, se apresentam o calibre adequado e se seguem o trajeto habitual. Confirma-se ainda se o coração está posicionado do lado esquerdo do tórax, como é esperado e se os órgãos abdominais estão distribuídos com a correta lateralidade.

Do ponto de vista funcional, o ecocardiograma fetal permite avaliar se o coração está a trabalhar de forma eficaz. Analisa-se o ritmo e a frequência cardíaca, verificando se os batimentos são regulares e adequados à idade gestacional. Através da técnica de Doppler, que permite visualizar o movimento do sangue, observa-se se o fluxo sanguíneo corre na direção correta, se existe algum estreitamento ou refluxo nas válvulas e se a velocidade do fluxo é normal. Avalia-se também a capacidade de contração dos ventrículos, para perceber se o coração bombeia o sangue de forma eficiente. Além disso, podem ser identificados sinais indiretos de sobrecarga ou dificuldade cardíaca, como acumulação anormal de líquido em redor do coração ou noutras partes do corpo do feto.

Idealmente, o exame deve ser realizado entre as 18 e as 22 semanas de vida do feto e deve ser solicitado sempre que existe suspeita ou maior risco de problema cardíaco no bebé. A indicação mais comum é a identificação de uma possível alteração do coração ou imagens pouco esclarecedoras na ecografia obstétrica.

Pode também ser indicado quando existem outras malformações fetais ou alterações genéticas, uma vez que estas podem estar associadas a cardiopatias. A história familiar de doença cardíaca congénita, determinadas doenças maternas como a diabetes ou o lúpus, e a toma de alguns medicamentos durante a gravidez são igualmente motivos para a sua realização.

Além disso, alterações do ritmo cardíaco do feto — como batimentos muito rápidos, lentos ou irregulares — justificam uma avaliação mais detalhada através deste exame.

Na prática, este exame permite, por um lado, contribuir para uma deteção precoce de cardiopatias congénitas, as malformações mais comuns e importante causa de morbilidade neonatal; assim como reduzir a ansiedade parental no caso de dúvidas sobre o coração do bebé.

Com a confirmação da existência de problema cardíaco, ainda antes do parto, toda a equipa de saúde pode preparar com a antecedência necessária os cuidados especializados que devem ser alocados para o momento do nascimento.

A própria família pode receber um aconselhamento diferenciado sobre o prognóstico, opções terapêuticas e localização ideal para o parto. Este tipo de diagnóstico pré-natal melhora o suporte familiar e o prognóstico perinatal e neonatal, graças à possibilidade de existência de um planeamento clínico com otimização de recursos e decisões terapêuticas.

Paula Martins (Cardiologista Pediátrica; OM n.º 42385)
Iolanda Ferreira (Ginecologista Obstetra; OM nº 53146)

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