O diagnóstico e o tratamento cirúrgico da epilepsia têm escrito histórias de sucesso, assentes na imagem técnica revelada pela ressonância magnética. Há 20 anos, estas histórias não terminavam com um final feliz

 

A epilepsia refratária é uma situação particularmente incapacitante, mas a deteção e caraterização do foco responsável pode fazer toda a diferença na vida de um doente fármaco-resistente. Muitos destes casos têm subjacente uma alteração estrutural e funcional, que resultou de um erro durante o processo de diferenciação, proliferação, migração ou organização dos neurónios. A presença de uma malformação do desenvolvimento cortical pode ser muito subtil e a sua deteção implica um trabalho multidisciplinar que envolve o neurofisiologista, o neurorradiologista e o médico de medicina nuclear.

A Ressonância Magnética é uma técnica de imagem particularmente sensível para estudar o Sistema Nervoso Central, tendo a vantagem adicional de não usar radiação ionizante. O encéfalo tem uma estrutura que varia de acordo com a densidade dos corpos celulares dos neurónios, as vias transmissoras, que são os axónios e o tecido de suporte glial. A variabilidade também passa pelo conteúdo hídrico, densidade e integridade das membranas celulares e estruturas microvasculares.

Estes parâmetros permitem direcionar a Ressonância Magnética para o estudo estrutural, funcional, vascular e metabólico do encéfalo. O córtex cerebral é um revestimento de substância cinzenta constituído por corpos celulares de neurónios e células gliais de suporte que delimitam a profundidade dos sulcos e a superfície dos giros que moldam os diferentes lobos cerebrais.

Existe uma demarcação protónica entre o córtex e a substância branca subjacente que resulta num padrão característico na imagem de Ressonância Magnética. A alteração deste padrão pode ser a chave para o diagnóstico e tratamento cirúrgico da epilepsia.

Os métodos matemáticos de pós-processamento ainda não têm a sensibilidade para diferenciar o tecido patológico de variabilidades regionais resultantes de variações anatómicas da espessura do córtex ou da multiplicidade de sulcos e giros que constituem a superfície cerebral.

Os olhos humanos, com os anos de experiência e a análise metódica direcionada pela neurofisiologia, guardam a memória do relevo e da variabilidade da superfície cerebral e ainda são o instrumento mais viável para detetar estas alterações.

Juntando os dois, experiência humana e equipamento certo, é hoje possível inverter o destino de algumas destas histórias de vida e escrevê-las com a marca do sucesso da medicina portuguesa. A ressonância magnética permitiu-nos isso.

Egídio Machado

(médico neurorradiologista)

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