Sabemos que a fronteira entre o “dito” normal e algumas perturbações é imprecisa e a transição entre os dois estados é normalmente gradativa. Na mesma linha de preocupações enquadra-se a noção da doença estar ou não ligada à existência de uma lesão. Esta é uma área em que é imperioso distinguir a doença e o sujeito. A identidade da pessoa não pode ser a sua doença

Sendo óbvio que cada vez mais se vão recebendo contribuições biológicas para o conhecimento da doença mental, aceita-se que há outros fatores despoletadores de perturbações psíquicas. Há que admitir, então, uma grande complexidade quando falamos de doença psiquiátrica, restando-nos a adoção de um paradigma empírico, que satisfaça as possibilidades práticas de intervenção num ramo tão complexo da Medicina.

A vida clínica em psiquiatria exige, para além da ajuda humanista que qualquer cidadão sintónico deve ao indivíduo em sofrimento, que se faça um diagnóstico da perturbação e um plano terapêutico que incorpore os mais recentes conhecimentos científicos. Um psiquiatra é um médico cuja prática clínica é feita naturalmente através do diagnóstico e da terapêutica dos transtornos mentais.

A psiquiatria moderna tem recebido, nas últimas décadas, contribuições de várias ciências como a genética, as neurociências, a sociologia, a farmacologia, a psicologia e tantas outras, o que contribuiu para modificar conceções quanto às causas, tratamentos e organização dos serviços, e alterar a forma como os cidadãos olham estes doentes.

Conhecemos algumas correntes que criticam a existência de um diagnóstico, porque acham que os transtornos são únicos e pessoais, levando por arrasto à desvalorização das nosografias classificativas. A verdade é que a investigação e a clínica exigem rigor conceptual, por forma a se encontrarem critérios de diferenciação dos diversos transtornos mentais, existindo atualmente várias formas de classificação. Tudo isto porque é complexo definir doença mental e também por estarem em causa funções mentais superiores como crenças, emoções, desejo, motivações ou afetos.

Um diagnóstico é uma descrição de uma perturbação e elucida-nos não só quanto aos aspetos fenomenológicos, mas também quanto à etiologia, evolução e patofisiologia. Só que na psiquiatria é ainda hoje muito difícil saber a causa de muitas destas doenças. O processo que leva ao diagnóstico deve ter em conta os critérios em que se baseia o sistema classificativo adotado.

As doenças mentais são normalmente caracterizadas segundo três métodos diferenciados quanto à abordagem adotada e, assim, podemos olhá-las em três perspetivas: sindromática, nosológica e dimensional.

A abordagem sindromática tem fundamentalmente como base os sintomas e não valoriza aspetos como a etiologia, evolução e trata mento, o que leva a pouca diferenciação das entidades patológicas, já que a patoplastia é semelhante.

Já o modelo nosológico entende as doenças mentais com uma etiologia, patofisiologia e terapêutica próprias, embora ainda hoje não se saibam os fundamentos neurobiológicos da maioria dos comportamentos anormais.

O que está normal e o que está disfuncional?

 Há finalmente uma outra forma de olhar a psicopatologia, dissecando-a, na tentativa de esclarecer as disfunções psíquicas em jogo e assim ver naquele indivíduo, o que funciona normalmente e o que está disfuncional. As vantagens desta última metodologia estão ligadas à possibilidade que os clínicos têm para poderem dirigir as terapêuticas para os pontos a corrigir. Esta visão tem limitações de ordem prática, por não dispormos ainda de ferramentas para uma análise funcional de todas as situações patológicas. 

Estes métodos não são mutuamente exclusivos e embora a abordagem nosológica seja a prática que rege o pensamento psiquiátrico atual, é através de uma complementaridade abrangente que teremos no futuro a resposta para curar estas afeções. E falamos de afeções porque, nesta área do saber médico, temos que acentuar a distinção entre a doença e o sujeito, sendo esta metodologia determinante no processo de estigmatização, não identificando a pessoa com a sua doença. 

Nesta fase civilizacional é importante não contribuirmos para a exclusão da doença mental e do seu portador. Será um salto gigante quando conhecermos bem a etiologia e terapêutica de cada doença, pois levará a uma normalização dos males de saúde mental e a olhar como possível a cura desses distúrbios, acompanhando os avanços de outras áreas da medicina. 

Ora a verdade é que o cidadão “tem uma doença psiquiátrica», como pode ter uma do foro físico, sendo que nas duas condições pode curar-se, melhorar, tornando-se menos doente ou deixando mesmo de o ser. Com novos meios de diagnóstico e os avanços nas ciências da saúde, iremos conhecer melhor as doenças mentais, sem nunca descurar as causas que lhe estão na origem, percebendo também que os fatores psicológicos e sociais estão muitas vezes presentes, evitando-se a cronificação, como acontecia no passado.

Na realidade, a psiquiatria, a par das outras especialidades médicas, tem também que priorizar a prevenção e nesta, uma visão holística do homem e não puramente orgânica porque redutora. É nesta perspetiva que ultimamente se vem acentuando a valência da Saúde Mental, fomentando-se a utilização de ferramentas que tenham como prioritário o equilíbrio, a autonomia e o crescimento social e espiritual das pessoas. 

É com intervenções na comunidade, inseridas na dinâmica própria do estilo e filosofia de vida das pessoas, que podemos alterar os fatores patogênicos e ajudar assim atores e instituições que estão a trabalhar com esse objetivo. Nem sempre é seguro que a intervenção médica seja a resposta mais adequada para todas as afeções mentais.

Reabilitar e ressocializar 

Hoje podemos olhar com distanciamento para o passado ainda recente, em que a psiquiatria, embora sempre com lógica clínica, assentava a sua prática no preceito médico de boas ações para o bem do paciente, baseada numa clínica pouco científica. Diríamos que era a ajuda disponível, suportada pelas mãos dos mais humanistas saberes das ciências (médicas) e pelo mais científico dos humanismos. 

Os portadores de distúrbios mentais são, antes de mais, seres humanos que vivenciam a sua doença sofrendo consequências psicológicas e sociológicas. Por isso, há a necessidade de se estar atento aos fatores que mantêm os desequilíbrios e que promovem ruturas e, nessa linha, um acompanhamento de proximidade com equipas multidisciplinares mais facilmente se promove a ressocialização do doente, mais premente na fase pós-critica. 

Reconhecemos os avanços verificados na clínica e na pesquisa dos fatores etiopatogénicos, no planeamento de cuidados a prestar nesta área, nos consensos atingidos entre todos os profissionais para um trabalho integrado nas equipes. Mas há urgência em fomentarem os aspetos reabilitadores destes doentes, por ser o caminho para se atingir a recuperação social, profissional e a autonomia pessoal, no fundo, a dignificação humana das suas vidas.

A psiquiatria atual tem que ter também em atenção a qualidade de vida dos que padecem de sofrimento psíquico, com intervenções preventivas na comunidade, debatendo os principais problemas das sociedades modernas, a natureza e dinâmica dos postulados sociais e filosóficos da vida e a interação do meio ambiente com o comportamento individual e coletivo. Em suma, o psiquiatra tem que aliar o progresso científico aos vários níveis, à sociologia e à cultura, quando se debruça sobre a vivência de alguém que apresenta psicopatologia.

António Reis Marques
(Médico, Psiquiatra)

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