A evolução terapêutica abriu um novo horizonte e a imagem médica assumiu um papel relevante, no diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças vasculares cerebrais. Mas continua a ser a corrida contra o tempo que vai ditar como vai acabar um episódio de AVC agudo.

O acidente vascular isquémico cerebral (AVC) é a primeira causa de morte em Portugal e ocorre quando há uma redução súbita e acentuada do fluxo sanguíneo cerebral por oclusão de um vaso, situação que determina, na maior parte dos casos, uma grande incapacidade nos doentes que sobrevivem.

Quando uma parte do cérebro fica privado do fluxo sanguíneo proveniente da artéria nutriente, deixa de haver condições para que as células, em particular os neurónios, continuem a funcionar. A primeira adaptação do parênquima cerebral consiste no recrutamento de circulação colateral proveniente de outras artérias, que muitas vezes não está disponível ou não é suficiente para garantir a irrigação na área do cérebro em sofrimento isquémico.

A ausência de afluxo sanguíneo inicia uma cascata de eventos bioquímicos que resultarão na morte das células nervosas se, nas primeiras horas, nada for feito para a impedir. Atualmente, está cientificamente comprovada a eficácia de terapêuticas cujo objetivo é restabelecer o aporte de sangue ao cérebro, mas apenas quando efetuadas nas primeiras horas.

Em primeira linha está a terapêutica fibrinolítica endovenosa com o objetivo de dissolver o coágulo e, nos casos que não respondem ou quando esta está contraindicada, o tratamento é feito na sala de angiografia com cateterização direta do vaso afetado utilizando-se na maioria das vezes um dispositivo que remove o trombo (trombectomia).

Esta evolução terapêutica vem abrir um novo horizonte para os doentes com AVC, maioritariamente idosos, mas também mais jovens, até agora com uma grande morbilidade e uma enorme repercussão na qualidade de vida dos doentes, nas famílias e na sociedade em geral.

A informação e mobilização dos cidadãos e, particularmente das famílias, é essencial pois trata-se de um evento tratável e que pode ser reversível. O tempo começa a contar a partir do momento em que surgem os primeiros sintomas, falta de força de um lado do corpo e/ou a incapacidade para falar ou desvio da boca.

Os primeiros minutos são cruciais, pelo que é necessário acionar a via verde do AVC, que na fase inicial começa com a emergência médica (112) para os primeiros cuidados e transporte do doente para as urgências hospitalares referenciadas. No hospital, o doente é prioritariamente encaminhado para a tomografia computorizada (TC), um exame que permite saber se o AVC é isquémico ou hemorrágico.

Nos casos em que o AVC é isquémico interessa saber se existe ou não oclusão de grande vaso e qual o volume de cérebro que pode beneficiar da trombectomia, o que pode ser esclarecido mediante a realização de técnicas de TC mais específicas, mas a opção também pode passar pela aspiração do trombo. A recanalização é um passo essencial para restaurar o fluxo sanguíneo e minimizar o volume do parênquima cerebral lesado como consequência da isquemia.

A imagem médica assume um papel relevante no diagnóstico e prevenção das doenças vasculares cerebrais. O eco-doppler carotídeo é um exame inócuo e com grande sensibilidade para detetar áreas de estenose nas artérias do pescoço.

A angiografia por tomografia computorizada permite obter imagens de alta resolução das artérias cerebrais e do pescoço que, posteriormente, são processadas, dando origem a reformatações em vários planos e a imagens tridimensionais, o que permite identificar eventuais áreas de estenose potencialmente tratáveis.

A Ressonância Magnética tem a vantagem de não utilizar radiação ionizante e é particularmente útil para estudar a doença vascular cerebral e, eventualmente, detetar vasculopatias potencialmente tratáveis. Permite definir o perfil temporal das lesões isquémicas, diferenciando as recentes das antigas, indicando as áreas irreversivelmente lesadas e as que ainda podem beneficiar de tratamento. As sequências angiográficas possibilitam ainda estudar as artérias e veias intracranianas e do pescoço.

O AVC isquémico agudo é tratável, mas quando surgem os primeiros sintomas é necessário correr contra o tempo e acionar os mecanismos necessários para o seu tratamento.

Egídio Machado

(médico neurorradiologista)

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