A prática da corrida de rua não é inócua e as lesões acabam por chegar. Pior, o risco de lesão aumenta sempre que existam lesões antigas mal reabilitadas. Vale a pena perceber as dores que a corrida provoca.


A relação entre corrida e lesões do joelho parece inevitável, de tal forma que poderão existir apenas dois tipos de corredores: os que já tiveram lesões e os que vão ter lesões.

As causas podem ser múltiplas e podem começar no próprio corredor, na anatomia do corpo, mas também na biomecânica, nutrição e hidratação que faz, ou nível de fadiga. A estas ainda devemos juntar as causas externas, como o tipo de equipamento que usa, o tipo de superfície onde corre, o volume e intensidade da corrida, mas também a sua periodicidade.

A causa nunca é única, mas o sobre-uso-esforço pode ser um condicionante, principalmente se existe o hábito de correr mais de 50 km por semana. E o risco de lesão aumenta sempre que já existam lesões anteriores. A recuperação e a reabilitação dessas lesões antigas desempenham um papel de relevo na equação risco subsequente de novas lesões com a prática de corrida.

A dor no joelho acaba por ser o motivo por que muitos corredores abandonam esta atividade, por preocupação pelo impacto constante e receio de uma deterioração articular (artrose). Com conta, peso e medida, a corrida continua a ser uma atividade saudável. As lesões podem ser prevenidas, desde que se entenda a dor como um alerta que é preciso saber interpretar.

O “joelho do corredor” ou síndrome femoropatelar do joelho é um caso típico do corredor.

O principal sintoma é a dor anterior do joelho, na zona da rótula, situação que, geralmente, piora à medida que aumenta a intensidade do exercício. Esta é uma situação que pode ser justificada pela incapacidade de recuperação, entre as corridas, dos tecidos que circundam o joelho.

Os desequilíbrios musculares, a corrida em piso irregular ou uma má escolha do calçado usado para correr podem provocar este tipo de dor. A solução? Se o joelho continua a doer não corra.

A recuperação deste processo de inflamação exige algum tempo de pausa do treino. A longo prazo, a mudança de superfícies de corrida, o fortalecimento muscular seletivo, a adequação do calçado ou simples correções da duração de treino e da técnica de corrida, tais como encurtar o seu passo e atingir o solo diretamente sob o seu centro de gravidade, podem ajudar a manter o joelho inflamado a ficar mais “silencioso”.

Outra inflamação típica do corredor afeta a estrutura que liga o joelho à anca e denomina-se de síndrome da banda ilio-tibial. Esta situação pode ser comparada à sensação de que alguém está a esfaquear o lado externo do joelho. A dor aguda e localizada manifesta-se sobretudo quando se corre em plano inclinado, como uma ladeira. Este tipo de lesão é bastante irritante, além de dolorosa e pode ser mesmo incapacitante, caso não seja tratada. Neste caso, as causas comuns podem estar no aumento exagerado do volume de treino, uso de sapatilhas muito gastas ou apenas porque é habitual que a corrida seja feita em planos muito inclinados (para baixo) e sempre do mesmo lado da estrada.

Recomenda-se paragem e correção no tipo de treino. O mesmo é ainda válido para as distensões musculares, normalmente provocadas por uma sobrecarga de atividades de alta intensidade, fadiga muscular ou mesmo postura incorreta durante a corrida.

Pedro Marques

(médico ortopedista)

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