Somos facilmente seduzidos pelo que os outros definem como o melhor para nós. Acreditamos em tudo e fazemos escolhas sem aplicar uma das mais elementares regras: pensar

Todos os dias fazemos escolhas. Do corredor do hipermercado até casa pelo rotineiro percurso diário de regresso fazemos centenas de escolhas. Na maioria das vezes sem pensar, porque as consideramos irrelevantes. Mas, por mais inócuas que pareçam, são escolhas que podem afectar a nossa vida durante anos. Ou daqui a muitos anos. E podem afectar a vida de quem depende de nós e nos rodeia. A dos nossos filhos, quem sabe para sempre.

No mundo de hoje, não estar atento significa, quase sempre, ser manipulado. Publicidade, rótulos coloridos, estímulos de todas as formas e sabores, frases sugestivas, sons variados, odores e texturas usurpam os nossos sentidos a cada segundo. Maioritariamente, estímulos que não passam de perigosas tentações da nossa civilização consumista e visual, onde os interesses económicos há muito ultrapassaram os limites da razoabilidade.

Se não estivermos alerta somos, efectivamente, manipulados a cada passo que damos.

Viver sob a manipulação é viver numa ditadura dissimulada, mascarada e com iguais ou mais perigosas consequências que uma verdadeira ditadura. As formas dissimuladas de viver na ilusão da liberdade e da escolha são vastas e essa ilusão é deveras perigosa.

Permitir que nos manipulem é abdicar da liberdade. É viver no meio da bruma constante.

Mas porque é que, tão facilmente, e sem nos apercebermos, abdicamos do direito à escolha consciente? Porque é que tantas vezes permitimos pacificamente que escolham por nós?

Porque nós Portugueses somos um povo pacífico, dizem. Ou talvez tenhamos apenas a síndrome do destino ou do Fado que tudo traça. Talvez para nós tudo pareça mais fácil do que a tarefa de nos indignarmos e escolhermos com consciência.

Talvez porque escolher viver na liberdade e não deixar que escolham por nós não tenha só vantagens. A liberdade não traz apenas direitos, exige responsabilidade e deveres para dela usufruir em pleno. A liberdade exige empenho e coragem. Usá-la requer consciência, aprendizagem, experiência acumulada e vasto conhecimento. Usá-la é recusar a ideia que não temos escolha. Porque temos!

No entanto, esta liberdade requer que duvidemos constantemente, porque o exercício de saber assim o exige. É preciso duvidar muitas vezes antes de acreditar. E duvidar de quê?

Das coisas mais simples mas que podem fazer a diferença na nossa vida. Por exemplo, duvidar do rótulo que anuncia um iogurte natural e especial para bebé e que na composição contém óleo de colza, natas, açúcar, conservantes, maltose, dextrose, espessante e uma infinidade de compostos, que pensávamos só ouvir falar nas aulas de química e que fazem o tal iogurte, tudo menos natural. É preciso saber que iogurte natural é composto de leite e fermentos lácteos!

A maioria de nós ainda é um alvo facilmente manipulável. Não se indigna verdadeiramente, não é exigente e não reconhece o seu poder. Ainda não aprendeu a sentir que tem o poder de decidir e de se unir a outros iguais.

Esquece que sozinho pouco pode mudar mas, em conjunto, pode transmutar muita coisa.

Refiro-me a coisas simples e acessíveis a todos. Falo de escolhas. A verdadeira liberdade consiste em vivermos conscientes das nossas escolhas. Escolher e não deixar que outros escolham por nós. Dá trabalho? Sim, claro que dá! Mas, um futuro melhor constrói-se, entre outras coisas, com exigência, rigor, persistência. Com o querer e a vontade de nos superarmos a cada dia, com o praticar a nossa cidadania a cada instante, a cada passo, em cada compasso.

E, muito mais que lembrar e saber, é preciso sentir, sentir… Porque saber e lembrar não tem o mesmo poder do sentir. O hipotético saber por si só não revira as entranhas e a verdadeira indignação. Aquela que introduz a mudança e que só se tem com as entranhas às avessas, ou do ossevA.

 

Filipa Taipina

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