A explicação é física e existe um forte motivo para que o doente assuma esse compromisso temporário. Um posicionamento correto ditará o sucesso cirúrgico

A necessidade de uma intervenção à retina é uma notícia muitas vezes inesperada e que, naturalmente, induz ansiedade a todos aqueles que se veem nessa situação. Ao contrário da cirurgia de catarata, também tecnicamente exigente, mas percebida como “rotineira” e associada a uma percentagem elevada de satisfação, a cirurgia de retina é encarada como algo cujo sucesso ou fracasso pode determinar irreversivelmente a qualidade da visão futura.

No entanto, as cirurgias de retina não terminam necessariamente com a alta clínica. Além de um esquema de colírios, o cirurgião poderá determinar um determinado posicionamento no pós-operatório, vital ao sucesso da intervenção e que deverá ser escrupulosamente cumprido. O porquê disto relaciona-se com física básica, e também com o tempo de “cicatrização” da retina.

Antes de lá chegarmos, é importante perceber que a cirurgia retiniana intraocular envolve a remoção do gel que preenche o segmento posterior do nosso olho – o vítreo. Só depois de esta estrutura ser fragmentada e aspirada é que o cirurgião consegue reparar a retina de modo a atingir os seus objetivos, como por exemplo:

  • – reaplicar a retina após descolamento
  • – remover uma membrana epirretiniana
  • – reparar um buraco macular

No final da cirurgia, o médico precisa de algo que substitua o vítreo removido e que mantenha o tónus ocular. No caso dos descolamentos de retina podemos, por exemplo, imaginar esta estrutura como um papel de parede que descolou parcialmente e que queremos devolver ao seu lugar, exercendo uma pressão constante. Como o olho é uma estrutura com características tão únicas no corpo humano, o modo como conseguimos esse objetivo é também muito peculiar: através de um agente tamponante.

Dependendo do tipo de patologia e da localização da lesão na retina, o cirurgião poderá escolher tamponar o olho com ar filtrado, gás ou silicone. O ar filtrado é o agente mais simples e é substituído por humor aquoso (o líquido natural do olho) em pouco dias. Os gases que normalmente se utilizam permanecem mais tempo no olho, entre 2-8 semanas, e são reabsorvidos naturalmente, sem necessidade de cirurgias adicionais. Já o óleo de silicone é reservado para casos mais graves ou em doentes que não conseguem colaborar no posicionamento, mas requer uma segunda intervenção para ser removido do olho.

Entramos então na questão do posicionamento, que é sobretudo pedido quando se tampona a cavidade vítrea com gás. Para o compreendermos, devemos imaginar o interior do globo ocular como uma pequena esfera.

Quando o cirurgião injeta o agente tamponante no interior do olho, este adquire o formato de uma bolha que se mantém coesa e que, no caso dos gases, flutua. Dando instruções de posicionamento aos nossos doentes, pretendemos com isso que a bolha de gás flutue de encontro à zona da esfera (globo ocular) que pretendemos tratar, pressionando-a.

Uma parte substancial das cirurgias de retina implica a aplicação de pressão no polo posterior do globo ocular (buracos maculares) ou inferiormente. É por esse motivo que a posição de decúbito ventral (de rosto para o chão ou olhar para baixo) é pedida frequentemente. Apesar do desconforto deste posicionamento, é a melhor forma de posicionar a bolha contra o polo posterior do olho ou periferia inferior; mantendo a tensão sobre a zona de interesse enquanto a cicatrização ocorre.

A estabilização definitiva da retina pode levar dias ou semanas, e sem o posicionamento adequado, todo o trabalho realizado no bloco operatório pode revelar-se inútil. Apesar de frequentemente incómodo, o posicionamento é de carácter temporário e contribui substantivamente para o sucesso cirúrgico.

Marco Marques
(Médico, Oftalmologista; OM n.º 54655)

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