A perceção individual nem sempre traduz com rigor a verdadeira condição funcional da pessoa. A utilização de tecnologia específica permite-nos transformar o movimento, a força e a funcionalidade em dados fiáveis, quantificáveis e comparáveis ao longo do tempo. Mais do que observar, passamos a conseguir medir.
Durante muitos anos, a avaliação da recuperação esteve fortemente dependente da observação clínica, da experiência do profissional e da perceção subjetiva da própria pessoa. Perguntas como “sente-se melhor?”, “tem menos dor?” ou “acha que está mais forte?” continuam a ter importância e fazem parte da prática clínica diária. No entanto, sabemos hoje que a perceção individual nem sempre traduz com rigor a verdadeira condição funcional.
É neste contexto que surge a crescente importância de uma avaliação objetiva. A utilização de tecnologia específica permite-nos transformar o movimento, a força e a funcionalidade em dados concretos, quantificáveis e comparáveis ao longo do tempo. Mais do que observar, passamos a conseguir medir com precisão.
Através de dinamómetros e plataformas de força e equilíbrio, torna-se possível avaliar parâmetros como força muscular, distribuição de cargas, amplitudes articulares e assimetrias entre membros. Estas ferramentas permitem caracterizar objetivamente a forma como a pessoa se move, distribui cargas e mantém o equilíbrio durante diferentes tarefas funcionais no seu dia-a-dia.
Em complementaridade aos exames imagiológicos tradicionais, como a radiografia, a TAC ou a ressonância magnética, que fornecem informação predominantemente estrutural, a avaliação funcional permite compreender múltiplas características da pessoa em condições padronizadas. Desta forma, é possível identificar compensações, alterações do controlo motor e défices funcionais que podem justificar sintomas como dor, instabilidade, insegurança durante a marcha ou limitações nas atividades habituais.
A análise objetiva dos padrões de movimento permite identificar os défices que mais condicionam a mobilidade da pessoa. Com base nessa informação, é possível definir planos de fisioterapia individualizados, acompanhar a evolução clínica e reajustar a intervenção sempre que necessário.
Esta informação tem interesse num contexto pré-operatório. Em doentes propostos para artroplastia total do joelho é frequente observarmos défices significativos de força, alterações de marcha e estratégias compensatórias consolidadas ao longo de anos. Muitas destas alterações podem passar despercebidas nos exames imagiológicos, uma vez que resultam da adaptação funcional à dor, à perda de mobilidade e à limitação progressiva da articulação. Importa salientar que estes défices nem sempre resultam da patologia articular, podendo ser influenciados por múltiplos fatores individuais, como a idade, as comorbilidades, o nível de atividade física, entre outros.
A identificação destas alterações funcionais permite planear a preparação pré-operatória de forma criteriosa, que deixa de ser um conjunto genérico de exercícios e passa a assentar em dados precisos, ajustados à condição real e à singularidade de cada pessoa.
Chegar à cirurgia com uma melhor condição física e funcional está associado a uma recuperação mais rápida e a um regresso mais fácil às atividades do dia-a-dia. Além disso, a redução dos padrões compensatórios e a melhoria do controlo do movimento podem contribuir para uma evolução funcional mais favorável promovendo uma recuperação mais segura e confiante.
No período pós-operatório, a tecnologia utilizada por estes sistemas permite monitorizar de forma precisa e objetiva a evolução da recuperação. A informação obtida facilita a identificação das alterações compatíveis com a progressão esperada, distinguindo-as daquelas que poderão justificar uma reavaliação. Do mesmo modo, nos casos em que a recuperação funcional ultrapassa as expectativas, os dados recolhidos fornecem um suporte adicional à tomada de decisão clínica, conferindo maior segurança para o programa de recuperação e na introdução gradual de atividades com maior nível de exigência.
Para além da sua aplicação em várias áreas, esta abordagem tem vindo a ganhar destaque na medicina desportiva. No acompanhamento de atletas, desde a prevenção de lesões até ao regresso seguro à prática desportiva, a avaliação objetiva ajuda a identificar fatores de risco, a otimizar o rendimento e a orientar o treino de forma mais segura ao longo de todo o processo de recuperação.
Para que esta informação seja útil, é igualmente importante assegurar a qualidade dos dados. No contexto do Big Data, a teoria dos 5 V’s — volume, velocidade, variedade, veracidade e valor — descreve as principais dimensões que os caracterizam. Assim, os dados devem ser recolhidos, tratados e interpretados de forma a garantir, sobretudo, a sua veracidade e utilidade clínica, permitindo obter informação precisa, consistente e fiável, reduzindo a probabilidade de erros ou enviesamentos que possam comprometer a avaliação. Os dados funcionam como um complemento ao ecossistema e à avaliação clínica, permitindo caracterizar objetivamente a mobilidade e apoiar a interpretação da informação proveniente dos exames imagiológicos.
No fundo, esta integração entre tecnologia e prática clínica representa uma evolução natural: uma abordagem objetiva, personalizada e verdadeiramente centrada na funcionalidade, na qualidade de vida e no cuidar e respeito pelo outro. Porque, no final, mais do que tratar sintomas, importa compreender como cada pessoa se move, como recupera e como a podemos ajudar a alcançar o seu melhor nível de funcionalidade.
Fábio Reis (Ordem dos Engenheiros; nº 104522)
Renato Domingues (Ordem dos Enfermeiros; N.º 92327)
———————–
Este conteúdo pode configurar publicidade institucional da INTERCIR – Centro Cirúrgico de Coimbra, S.A. | NIPC 503 834 971 | ERS E106499 | Licenças UPS 3/2010 (aditamento Licença de Funcionamento UPS 07/02.00) e 9072/2015 | 3045-089 Coimbra
Deixar um Comentário

Deixar um Comentário