Esta é a arte da reconstituição e o resultado final será sempre uma simulação da realidade. Seja quando se pretende rejuvenescer, seja quando se substitui uma mama perdida numa mastectomia. Não há cirurgia sem cicatrizes e, também por isso, hoje, a cirurgia plástica nem sempre recorre ao bisturi. Tudo depende do objetivo

Será a cirurgia que mais se aproxima da arte, em teoria. Na prática, todas as cirurgias recorrem ao bisturi para abrir caminhos e todas têm que respeitar os limites impostos pela anatomia humana. A cirurgia plástica não é exceção.

No caso da cirurgia plástica, o belo e o equilíbrio estarão mais vincados e a reconstituição é, na maioria das vezes, uma opção e nem sempre um caminho necessariamente a seguir. Contudo, também aqui não existem milagres e, por muito que se alterem procedimentos, ainda não é possível entrar com um abdómen gordo e muito saliente e sair no dia seguinte com uma barriga lisa e sem marcas. Não há cirurgia sem cicatrizes.

Normalmente, a consulta a um cirurgião plástico acontece porque não gostamos de qualquer coisa em nós ou tão-somente porque queremos contrariar o tempo. Rejuvenescer é uma ideia que pode passar à prática e, muitas vezes, não exige intervenção do bisturi. Tudo depende do que se quer mudar.

Se o objetivo for rejuvenescer, a alternativa não deve ser só uma e por isso não se pode pensar só e apenas numa cirurgia estética. Os gestos isolados não serão suficientes para alterar o visual no todo. Isto porque, uma face envelhecida é muito mais do que um rosto com rugas e o rejuvenescimento não pode passar apenas por atenuar essas mesmas rugas.

Envelhecer é muito mais do que a impressão das marcas do tempo. Ao passar dos anos, devemos ainda acrescentar a ação continuada de uma exposição ao sol, ao álcool, ao tabaco e à poluição, mas também uma alimentação pouco cuidada, a falta de sono descansado e o stress. É por tudo isto que a nossa pele envelhece. As rugas assumem-se e as estáticas (as que são visíveis com o rosto em repouso) tornam-se notórias, enquanto as rugas dinâmicas (as que surgem quando contraímos um músculo) acabam por ficar permanentes e mais profundas.

Com o acumular de todas estas ações, não é só a pele que se altera. A pele descaída é o mais notório, mas por detrás dessa alteração no tecido celular subcutâneo, o músculo aponevrótico superficial e a própria estrutura óssea facial também se alteram.

Para o cirurgião plástico não basta tratar algumas rugas, o rejuvenescimento completo inclui uma associação de técnicas que podem passar por tratamentos, com recurso a laser e à toxina botulínica (o conhecido botox), passando também pela cirurgia estética e terminar na cirurgia de regeneração. Neste último caso, a técnica passa por recorrer a células de gordura, com capacidade de diferenciação, que podem ser retiradas do abdómen (por lipoaspiração) e que, depois de processadas, podem ser reinjetadas, por exemplo, na face. Mais uma vez com a intenção de rejuvenescer a pele.

É esta associação de técnicas e de procedimentos que irá proporcionar o resultado completo de um rosto rejuvenescido, porque de pouco adianta tratar os pés de galinha, se o pescoço continuar a acumular rugas dinâmicas e estáticas. O rejuvenescimento não pode ser alcançado com gestos isolados, retirando apenas um pouco de pele e gordura. Há muito mais a fazer e a cirurgia estética não é a única opção. Há outros passos que podem ser dados.

Mesmo cumprindo todas as regras e os vários procedimentos e alternativas, um rosto com 60 anos não voltará a ter o mesmo aspeto e a mesma pele que tinha aos 20 anos. É preciso ter presente esta regra. Esta é a especialidade da reconstituição e, por isso, o resultado final será sempre uma simulação da realidade. É também isto que acontece quando se substitui uma mama perdida numa mastectomia. Ninguém pode devolver o órgão perdido, mas a sua substituição pode melhorar a qualidade de vida e diminuir o estigma.

Num e noutro caso, procura-se o ideal e o tratamento individual.

Mário Jorge Freire dos Santos

(cirurgião plástico)

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