O pé é o final de uma unidade motora que começa na anca e os passos que damos acabam por condicionar o funcionamento do joelho, da anca e de todo o esqueleto. Os passos de uma vida ficam ali impressos, mas também as más posturas e os maus tratos a que sujeitamos os nossos pés

Ao longo de uma vida, poderemos percorrer 177 mil quilómetros, diz quem já se entreteve a fazer os cálculos. Seja como for, uns passos a mais, outros a menos e serão seguramente largos milhares os passos que cada um de nós dá ao longo de uma vida. E, como o fazemos? Com os pés!

Qualquer alteração no pé ou na marcha irá, necessariamente, condicionar alterações na anca e no joelho e, com o passar dos anos, essa adaptação à transformação irá ganhar forma de lesão.

Com os seus 28 ossos, 57 articulações e com os múltiplos recetores propriocetivos na arcada plantar, o pé adapta-se e cada passo que damos permite-nos saber onde e como estamos com “ os pés na terra”. E, porque está na base do aparelho locomotor, importa reter alguns dos mecanismos que podem alterar a necessária estabilização do corpo humano. O excesso de carga acaba por ser um fator desestabilizador. Apesar de ser o pé o suporte e o recetor dos impactos, neste caso e na maioria das vezes, este excesso de peso e as alterações provocadas na marcha acabam por ter repercussões, não só no pé, mas em todo o membro inferior.

É possível saber e prever muito mais olhando só para os pés. Se ler a mão pode suscitar alguma curiosidade nos mais impacientes e crédulos, “ler o pé” acaba por ser muito mais proveitoso, pelo volume de informação que se pode retirar. A impressão plantar, permite ao ortopedista especialista verificar que respostas foram dadas às alterações morfológicas que o pé foi sofrendo, sempre que lhe são impostas solicitações mecânicas extras.

A análise da impressão plantar permite ficar a conhecer o tipo de pé, mas também detetar a existência de más posturas que, a manterem-se, irão prejudicar num futuro próximo. E porque andamos calçados, são os nossos pés que modificam os sapatos. Por vezes, as alterações são tão evidentes que basta observar a sola do calçado, da mesma forma que se observam os pneus de um carro, para ficar a saber o tipo de marcha e a forma como se aborda o solo.

Não será de todo comum pensar em usar 2 ou 3 dedos num só espaço dos dedos de uma luva, mas é comum colocar os 5 dedos do pé numa forma de sapato estreita e apertada. E os dedos dos pés são estruturalmente semelhantes aos das mãos, pelo que os danos progressivamente e diariamente infligidos irão ter uma fatura pesada.

O ideal será procurar o equilíbrio perfeito entre o antepé e o retropé, duas unidades funcionais que se complementam, tornando o pé uma ponte dinâmica de distribuição do peso em cada passada, porque cada atividade e cada desporto solicitam dos pés e de todo o membro inferior diferentes padrões de uso.

Se o pé e a forma como damos os nossos passos diários não fosse tão importante, o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts) não estaria tão interessado em comparar uma investigação sobre o andar e a marcha, com a longevidade e a esperança de vida. Admite-se, para já e em teoria, que o corpo se adapta à medida que envelhecemos. Agora, com a ajuda da matemática, a marcha de cada de nós pode indicar qual a esperança de vida, mas também como prevenir problemas futuros. Basta observar os passos que damos e lembrar o que escreveu Rodrigues Fonseca, médico ortopedista:

“ É por isso que um pé,
Levedado dum pezinho de criança
Tem a força, a fé e a esperança
Que o homem sempre manifesta
Em tudo o que é bom e que não presta.”

 

Gabriela Figo
(Médica, Ortopedista)

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