Tenho de admitir que os laços profundos que me ligam a Alexandre Linhares Furtado podem comprometer a objectividade do meu juízo. Cresci tendo-o muito próximo e a minha escolha de Urologia como especialidade foi grandemente determinada pela imagem que dela fui criando tendo a sua actividade e os seus feitos como referência. 

Dispenso-me de enumerar todos os contributos que deu ao avanço da medicina e da cirurgia. Foram muitos e são publicamente conhecidos e reconhecidos, indo muito para além da área dos transplantes. Mas testemunho, com grande satisfação e reconhecimento, que o propósito primeiro da sua actividade foi sempre o doente individual, a pessoa, que tinha à sua frente. E foi aí que as suas qualidades técnicas, aliadas à inteligência, arrojo, preseverança e inultrapassável dedicação brilharam mais. Os avanços, técnicos e outros, que a ele se devem vieram como suporte para uma mais eficaz prática médica. Um meio para atingir um fim. 

Dir-se-á que isso é o que move todos os médicos, que é a razão de ser de tal profissão. Concordemos. 

Tem-se que para Hipócrates, venerado como o “pai da Medicina (ocidental)”, a Medicina estava ao serviço da arte médica; enquanto a visão bizantina a colocava ao serviço do doente. As diferenças são ténues, mas definem prioridades. 

Hoje, mais do que alguma vez no passado, as pessoas são avaliadas muito com base no que produzem, desde que -é o mais fácil- o que produzem seja quantificável. Nos hospitais, os melhores são os que tratam mais doentes, com menos tempo de internamento ou de espera; na ciência, os melhores são os que produzem mais artigos científicos, que sejam mais vezes citados por outros… (há até um índice que avalia isso mesmo, o “índice H”, referência para as elites da ciência, assim escravizadas e cerceadas). Enfim…

Não sei -nem me interessa- como ficaria Linhares Furtado classificado se fossemos aplicar estas fórmulas “objectivas” de avaliação. Isso não basta, não chega ter “altos índices”. Conheço muitos médicos e hospitais com altos “índices” a quem não confiaria um amigo que necessitasse de tratamento. E muitos “campeões de publicações” com quem não perderia tempo a pedir uma opinião para uma dúvida cuja resposta não encontrasse num livro ou numa qualquer base de dados de um computador. 

Esses índices não medem a argúcia de pensamento, o sentido crítico e capacidade de apreender detalhes. Sem se perder neles. Nem contemplam a clareza de pensamento e o rigor intelectual do mesmo. Nem a perícia técnica capaz de ultrapassar imprevistos. Não avaliam a dedicação a “causas perdidas”, não contam as noites passadas em claro a fazer ou a estudar o que fazer, nem o entusiasmo com que a isso a pessoa se entrega. Nem a capacidade de fazer mais com menos condições. Nem como o fazem. Nem consideram o quanto conseguem liderar e, sobretudo, inspirar. 

Ninguém tem dúvidas do lugar que Linhares Furtado ocupa quanto a estes parâmetros, aqueles que verdadeiramente mais diferenciam todos quanto a esta (e, em boa verdade, a qualquer outra) actividade se dedicam. Dedicação sem restrições, maximização dos recursos disponíveis, inovação consequente, com objectivos bem definidos, capacidade inspiradora e de liderança. 

Resultando num Médico curador de e dos doentes. Médico mentor de médicos. Mestre. Meu Mestre.

Arnaldo Figueiredo (Médico Urologista)

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