Não é só o vizinho que ressona, a roncopatia é um distúrbio mesmo muito frequente, quase sempre associado a uma obstrução. Winston Churchill ressonava e produzia 35dB, mas o recorde mundial está avaliado em 87,5dB.

O som produzido pelo ressonar é da responsabilidade de quase todos os tecidos que não têm suporte rígido e que vão desde as choanas até à epiglote. Na maior parte dos casos, este distúrbio está associado à obstrução parcial da via aérea, ao nível do palato mole, originando a sua vibração, mas também das paredes da faringe. Noites ruidosas e mal dormidas é o resultado deste distúrbio que os médicos chamam de roncopatia, mas que todos apelidam de ressonar.

Na maior parte das situações, este distúrbio é a fase inicial do síndrome de apneia/hipopneia obstrutiva do sono e este ressonar pode originar a fragmentação do sono do paciente, mas também de quem dorme com ele. Há exceções. O detentor do registo mais elevado e que consta no Guiness com um valor da ordem dos 87,5dB mora no Reino Unido, em Kent, e está casado com uma senhora que consegue dormir, desde que ela se deite sobre o ouvido bom, porque o outro ouvido tem uma surdez total e por isso consegue dormir. Winston Churchill também ressonava e um oficial da marinha terá registado um valor da ordem dos 35 dB.

Todos nós conhecemos alguém que sofre deste mesmo mal e o problema maior nem será o som que provocam, mas sim as consequências que podem daí advir. Hoje, os estudos epidemiológicos revelam que o síndrome de apneia, além da prevalência, deve ser encarado como algo que deve ser corrigido pelos fatores de risco que lhe estão associados, como a morbilidade cardiovascular e cerebrovascular, tensão arterial elevada, síndromes metabólicos e ainda os acidentes, sobretudo os de viação. Longe vão os tempos em que a única solução para estes casos era acordar o paciente com agulhas, para evitar que sufocasse, tal como foi descrito no século II.

Nos dois últimos séculos iniciou-se um estudo mais sistematizado da respiração noturna e  o síndrome de apneia do sono começou por estar associado à obesidade. Hoje, vamos mais longe, sabemos que existem fatores que podem agravar o ressonar, como álcool, sedativos, anti-histamínicos, algumas doenças – como o hipotiroidismo – mas também o excesso de tecido na nasofaringe ou mesmo alterações da anatomia facial, como a hipertrofia dos cornetos nasais, desvio do septo nasal e ainda a existência de refluxo gastro esofágico.

Além do progresso no estudo fisiopatológico, também a oferta terapêutica evoluiu imenso, tanto nos meios, como nas suas indicações. Já não andamos a picar doentes para que acordem e não asfixiem, nem a fazer traqueostomias, uma intervenção cirúrgica que permite a introdução de uma cânula que vai tornar possível a passagem do ar.

A obstrução das vias aéreas superiores, associadas à apneia do sono, levaram ao aparecimento de diversas técnicas cirúrgicas para tentar corrigir, de forma definitiva, os obstáculos.

João Paulo Enes

(médico otorrinolaringologista)

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