Ninguém aceita que ao entrar num hospital possa ficar mais doente do que quando lá chegou ou possa mesmo morrer de um evento adverso e, contudo, morre-se. Um em cada dez contrai uma infeção nos hospitais portugueses e, por ano, 4.500 mortes podem estar associadas a este facto. A prevenção e controlo da infeção é uma problemática que envolve profissionais e doentes

A Direção Geral de Saúde admite que um em cada dez portugueses contrai uma infeção nos hospitais portugueses, mas ainda não consegue contabilizar quantos destes casos terminam em morte. Sabe-se que há uma elevada taxa de infeção hospitalar (10,6) comparando com os valores apresentados como média europeia (6,1%).

A percentagem é mais do que suficiente para tomarmos consciência desta problemática, até porque, a maioria destas infeções podem ser evitadas. Se o não fizermos, estas infeções podem provocar danos no doente e/ou lesões permanentes, não sendo de excluir a morte. A associação entre infeção hospitalar e morte – como consequência – nem sempre é feita. Contudo, existem estimativas que apontam para 4500 mortes, em 2013, associadas a infeções em hospitais portugueses. A grandeza do número ganha proporções inquietantes se comprarmos com outro valor, como o número de mortes nas estradas portuguesas. Nesse mesmo ano, os acidentes de viação foram responsáveis por 512 mortes. Focados na dimensão do problema, mais facilmente os profissionais e os doentes podem tomar consciência de que é possível desenvolver uma ação concertada para prevenir e controlar, principalmente o que é evitável.

Uma unidade de saúde deve optar por seguir procedimentos que visam segurança, perseguindo a minimização do risco, como um objetivo supremo. Os comportamentos dos profissionais de saúde podem visar a garantia de segurança, mas não basta. O doente, os seus familiares e as visitas devem estar envolvidos neste mesmo processo. A responsabilidade pode e deve ser partilhada.

A higienização, que inclui necessariamente a lavagem frequente de mãos, não é menos importante do que a correta lavagem, desinfeção e esterilização dos materiais cirúrgicos. O envolvimento do doente e dos que lhe são próximos é de fulcral importância. As visitas podem e devem ter um papel mais responsável e consciente, uma vez que muitas vezes são transportadoras de bactérias ou vírus que, naquele momento de contacto com o recém-operado, podem ser prejudiciais. A proximidade e o contacto com o doente não lhe são favoráveis neste momento, em que está num estado mais frágil, como é um pós-operatório.

O doente tem um papel fundamental a desempenhar, nesta procura de zelo pela segurança. Há comportamentos que o doente deve evitar, como por exemplo, deixar de fumar, pelo menos 30 dias antes da cirurgia. Mas, o doente ainda pode e deve fazer mais, devendo ter sempre presente que o risco de infeção também está associado à sua situação clínica.

Doentes com idade avançada, diabéticos, obesos e doentes que tomem medicação com corticosteroides têm um risco maior de desenvolver uma infeção do local cirúrgico. Estas são situações que podem comprometer o nível de oxigenação dos tecidos o que, associado a uma diminuição de defesas, compromete a recuperação após a cirurgia. Razão porque a troca de informação com doente, familiares e profissionais de saúde é muito importante.

A adequação de comportamentos que visam a segurança não pode desvalorizar a comunicação, seja com o doente, seja com os familiares que o acompanham, e esta é, mais uma vez uma área que passa pelo ajustamento de comportamentos.As condições físicas necessárias à segurança e que são exigidas numa sala de cirurgia, como a ventilação, a temperatura ou a humidade no ar, são sempre mais fáceis de controlar ou de auditar do que as normas ou princípios que visam a alteração de comportamentos.

A prestação de cuidados de saúde representa, por si só, uma atividade de risco e a segurança do doente cirúrgico assume especial destaque. São vários os personagens envolvidos neste processo e se os profissionais de saúde, pela própria formação que recebem têm consciência destes riscos, na maioria das vezes, o doente e os que o acompanham estão alheios a esta realidade.

A comunicação é o veículo ideal para dissipar esta distração. A infeção hospitalar não deve ser uma consequência ou uma complicação de um internamento ou de uma passagem por uma unidade de saúde. Ajude-nos a preveni-la.

Sofia Mota

(enfermeira responsável)

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