O combate à Covid-19 – esse inimigo novo e imprevisível – tornou-se rapidamente no maior desafio dos últimos anos no mundo. Fez parar o que nunca tinha parado antes, o impensável aconteceu. Os nossos hábitos e relações interpessoais não voltarão a ser os mesmos durante muito tempo.

Passaram entretanto alguns meses desde o início deste “pesadelo”. Isso permite-nos ter alguma capacidade de reflexão e ponderação sobre como reagir a esta pandemia. Pretendo-me focar essencialmente nas consequências médicas, abstendo-me de falar das consequências económicas já muito discutidas na opinião pública.

A mortalidade global em Portugal no período mais crítico de Março e Abril de 2020 aumentou comparativamente a anos anteriores. No entanto, esse aumento não foi explicado pelas mortes reportadas de Covid-19. As medidas de combate ao novo vírus prejudicaram o combate a outras causas de morte? Provavelmente sim, mas a imprevisibilidade deste novo inimigo fez-nos tomar medidas drásticas nesses meses. Agora, com algum tempo passado e com a possibilidade forte de novos aumentos significativos de casos, não podemos permitir que alguns erros se repitam.


Não podemos suspender o combate às doenças cardiovasculares, às doenças oncológicas ou às doenças respiratórias: elas sim são a principal causa de morte e incapacidade em Portugal, não é o Covid-19. As instituições e os profissionais de saúde estão preparados para manter a prevenção e tratamento dos enfartes, AVC’s, cancros ou outras patologias com toda a segurança.


Nós, sociedade, não podemos cometer o mesmo erro numa eventual “segunda vaga” e deixar que o medo da Covid-19 prejudique a nossa saúde. Sempre com todos os cuidados necessários, há que dar continuidade às rotinas de prevenção e vigilância, à busca pelos diagnósticos precoces e ao tratamento das mais diversas doenças. Aquelas que sempre existiram e que não se encontram, naturalmente, suspensas. Mantenha um estilo de vida saudável, não falte às consultas, não deixe de tomar a sua medicação. Relativamente às doenças cardiovasculares, se sentir sintomas de possível enfarte do miocárdio ou AVC, não os ignore apenas por medo de recorrer às instituições de saúde, ligue o 112 e siga as instruções que lhe forem dadas.


Há muita vida para além da Covid-19: trate dela.

Luis Leite
(Cardiologista)

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