Há uma “nova” e numerosa população a questionar a Medicina, obrigando a ponderar se uma determinada terapêutica irá mesmo melhorar o bem-estar da pessoa idosa

O controlo e tratamento das doenças infeciosas, assim como a diminuição progressiva da taxa de mortalidade materna, levaram a que um número sem precedentes de mulheres passasse a atingir os 65 anos de idade. Há 100 anos, a esperança média de vida das mulheres não excedia a idade da menopausa. O cuidar dos mais idosos é pois uma ciência médica muito jovem, assumindo especial relevância na área da Ginecologia. É necessário conhecer as características específicas desta cada vez mais numerosa população e estar preparado para atender às suas necessidades, tendo presente que o número de mulheres mais idosas está a aumentar, tal como a sua esperança de vida.

Contudo, a abordagem geriátrica não deve ser sistematicamente considerada acima dos 65 anos, pois muitas mulheres nas faixas etárias mais elevadas são saudáveis, independentes e competentes sob o ponto de vista cognitivo, mas só e apenas quando a presença de múltiplas co-morbilidades e/ou de deficit cognitivo o justifiquem. A heterogeneidade é uma característica desta população (ou seja, há mulheres com 70 anos que fisiologicamente podem ter 50 e outras 90). As variações são múltiplas. Junte-se ainda o facto de, com o avançar da idade, a mulher poder ser portadora de inúmeras doenças crónicas, pelo que o papel do ginecologista não se deve limitar ao rastreio, diagnóstico e tratamento das patologias do foro ginecológico. Na avaliação clínica, a maioria destas mulheres negligencia os sintomas precoces das doenças ginecológicas e é muito frequente referir apenas uma minoria dos seus muitos problemas de saúde, podendo omitir morbilidades importantes.

Os objetivos dos cuidados prestados diferem consoante o estado geral do doente idoso: quando este está completamente funcional, está indicado rastrear problemas, tratar patologias e prevenir doenças; quando existem fragilidade física, múltiplas co-morbilidades e/ou deficit cognitivo, a prioridade é otimizar a função e a qualidade de vida.

A utilidade do rastreio oncológico também perde importância nas idades mais avançadas, mesmo quando a prevalência da doença é elevada. Se a esperança de vida é menor do que 5 anos, o rastreio está contraindicado. Apesar de existirem algumas variações entre as recomendações das várias organizações e sociedades científicas, é consensual que, nas mulheres saudáveis, o rastreio deva ser concluído entre os 70 e 80 anos.

A futilidade de um procedimento diagnóstico ou terapêutico depende do estado físico da doente, da eficácia da intervenção, da possibilidade de obtenção de resultados favoráveis e da nocividade do processo. Os critérios de futilidade podem mudar ao longo do tempo: no caso de uma mulher sob prestação de cuidados continuados, a qualidade de vida (conforto, bem-estar) pode ser a prioridade; num processo patológico progressivo e irreversível, que caminha inexoravelmente para o fim de vida, o não prolongamento do processo de morte pode ser o principal objetivo. Podemos facilmente concluir que a especialização em Ginecologia deve englobar obrigatoriamente o ensino dos princípios da Geriatria. O ginecologista pode ser o primeiro, e é frequentemente, o único médico a que a mulher recorre, pelo que tem que ser proactivo e ir para além da mera prestação de cuidados médicos: tem que avaliar a doente como um todo, e sempre que necessário deve proceder ao seu encaminhamento para o acesso a outros recursos, médicos, sociais e legais, que possam ajudar a mulher frágil e com capacidade diminuída a manter a sua função e independência.

Os benefícios e riscos relativos das intervenções médicas podem variar amplamente, pelo que o plano de cuidados precisa de ser individualizado e revisto ao longo do tempo. A avaliação peri-operatória é o campo em que os ginecologistas indiscutivelmente têm maior oportunidade de causar ou prevenir o dano. A utilidade dos procedimentos para a manutenção da saúde devem ser ponderados cuidadosamente para cada mulher, de modo a avaliar se a realização de um diagnóstico/ terapêutica pode melhorar o seu bem-estar, ou ser apenas um exercício fútil.

Margarida Silvestre

(médica ginecologista)

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