As noites curtas e mal dormidas podem ter muitos efeitos na saúde dos seus olhos, principalmente quando existe apneia do sono. As alterações do fluxo circulatório no nervo ótico e na retina, conjugadas com hipertensão arterial e hipertensão ocular podem abrir caminho para situações de cegueira súbita ou neuropatias de perda de visão lenta, como o glaucoma

A noção de que a privação de sono reduz a saúde ocular é por muitos apreendida. Todos nós já sentimos aquele desconforto ocular, sensação de picadas, corpo estranho e olho seco provocados por noites curtas e mal dormidas. O facto é que os olhos precisam de, pelo menos, 5-6 horas de sono para se recomporem das agressões do dia-a-dia provocadas na sua superfície. Mas o problema é bem mais profundo e, hoje, sabe-se que em doentes com patologia do sono, nomeadamente, apneia ou hipopneia do sono, os problemas oftalmológicos podem ser vários e, para além do desconforto, podemos acrescentar que existe potencial ameaçador de perda de visão.

Na Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), a degradação da componente elástica das pálpebras e o aumento da atividade de enzimas – conhecidas como metaloproteinases – conduzem a uma alteração muito característica das pálpebras, comumente denominada de Síndrome da Pálpebra Laxa (SPL ou o anglo-saxónico Floppy Eyelid Syndrome). Nesta circunstância sente-se muito desconforto ocular, com lacrimejo irritativo pela manhã e também é possível evidenciar grande laxidão palpebral, com redundância dos tecidos e, muito particularmente, da capacidade de everter a pálpebra superior apenas com a manobra de elevar a mesma com o dedo. Isto significa que durante a noite é muito fácil acontecer um desgaste ou abrasão da superfície ocular. 

A presença do SPL está muitas vezes associada à SAOS e é sinónimo, segundo alguns estudos, de maior gravidade da doença, pelo que o papel do oftalmologista é muito importante no diagnóstico atempado destas situações.

Outra patologia associada à SAOS é a neuropatia ótica isquémica anterior não-arterítica (NOIA-NA), basicamente, uma “trombose” da circulação sanguínea da cabeça do nervo ótico que condiciona uma perda súbita, mais ou menos grave, de visão e de campo visual.

Também estão associadas à SAOS as Oclusões Venosas Retinianas, pelas alterações do fluxo circulatório da retina, pela hiperviscosidade associada, pela própria hipertensão arterial presente nestes pacientes e pela hipertensão ocular em olhos suscetíveis, para além das chamadas retinopatias serosas centrais.

Outra forma de neuropatia associada à patologia do sono é o Glaucoma. Múltiplos estudos mostraram a relação entre a SAOS e as formas de Glaucoma de ângulo aberto (aqui com hipertensão ocular associada) e o Glaucoma de tensão normal; em ambos os casos o mecanismo subjacente parece ser vascular, envolvendo hipóxia da cabeça do nervo ótico que, de alguma forma ainda pouco conhecida, é mais suscetível ao dano. Esta doença, o Glaucoma, é a segunda principal causa de cegueira em todo o mundo e condiciona uma perda irreversível de fibras do nervo ótico e, por conseguinte, do campo visual periférico, até atingir também a visão dita central. 

O reconhecimento de uma patologia como a SAOS em doentes com glaucoma é muito importante pois o seu tratamento pode conduzir a uma estabilização do Glaucoma que, de outra forma, se torna potencialmente de mais difícil controlo.

O reconhecimento da SAOS e as suas implicações em diversas patologias oftalmológicas tem duas facetas: primeiro, é preciso perceber que uma vez identificada a SAOS deve estabelecer-se uma referenciação oftalmológica para estudo, isto porque diversas patologias potencialmente graves do ponto de vista visual podem ser identificadas e tratadas atempadamente; segundo, compreender o papel do oftalmologista como diagnosticador de SAOS ao conseguir identificar múltiplas associações de patologias oftalmológicas ligadas a esta Síndrome. Assim, o oftalmologista pode ajudar a identificar precocemente doentes com SAOS que, uma vez tratados, poderão ver o seu risco de eventos cardiovasculares reduzido, tais como enfartes do miocárdio, eventos esses potencialmente graves. Os olhos podem, portanto, salvar uma vida! 

Rui Tavares
(Médico, Oftalmologista)

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