Não é de todo o sono dos justos, nem tão pouco acordar de vez em quando, ou tão só ressonar às vezes. Ter Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono implica acordar dezenas ou centenas de vezes numa só noite. Os micro despertares passam despercebidos, mas a pessoa, claramente, dorme mal. O colapso da faringe não deixa

Até pode parecer que se dorme, mas ninguém com apneia do sono dorme devidamente. O sono é alterado pela incapacidade de atingir as fases profundas que, afinal, são as que permitem o descanso físico e mental. Ter Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) significa que existe uma perturbação respiratória que afeta o sono, pelo que afeta o ser humano no seu todo, com perturbações noturnas (porque a pessoa não dorme) e diurnas (associadas à sonolência).

O diagnóstico de SAOS é confirmado por um estudo poligráfico do sono, com o registo do colapso da via aérea superior, por mais de 10 segundos e repetidas vezes. Ou seja, é esta condição que vai provocar micro despertares ao longo da noite, como mecanismo orgânico que visa impedir a morte durante o sono por sufocação. A situação é progressiva, incapacitante e acarreta risco cardiovascular.

A apneia (ou paragem) respiratória acontece porque as vias respiratórias estão mais suscetíveis ao colapso, seja porque se verificam alterações no pescoço, nariz e garganta, seja porque existe um relaxamento dos músculos que mantém a faringe aberta. A entrada de oxigénio não acontece fluidamente, há interrupções, provocadas pelo colapso da faringe. O ronco não é o único sintoma, aliás, a pausa respiratória é percetível por quem está ao lado e o sono acaba por ser bastante agitado, pelos múltiplos despertares. Como se não bastasse uma noite mal dormida, a situação repete-se todas as noites, de modo que há uma noção de sono não reparador. A sonolência excessiva vai-se instalando progressivamente, juntando-se a dor de cabeça matinal, sintomas depressivos, ansiedade e deficits neuro cognitivos.

Apesar de raros, os últimos dados estatísticos publicados quanto à prevalência desta síndrome em Portugal, sugerem que mais de 700 mil portugueses em idade adulta sofrerão de apneia do sono com necessidade de tratamento.


Sabe-se que esta é uma situação que afeta principalmente o sexo masculino, com mais de 50 anos, estando muitas vezes presente um excesso de peso ou mesmo obesidade, mas também hipertensão arterial e diabetes. Se considerarmos que a obesidade está em crescendo, facilmente, podemos extrapolar que o número de casos de SAOS também acompanha essa tendência.

Neste caso ainda é possível ir mais longe, ou seja, não basta diagnosticar, é preciso corrigir os fatores de risco e tratar. A obesidade, a ingestão de álcool à noite, o tabagismo, o refluxo gastro-esofásico ou dormir de barriga para cima, são condições fáceis de corrigir. O passo seguinte pode passar pela necessidade de dormir com um aparelho durante a noite, que irá provocar um aumento da pressão no interior da faringe, impedindo as apneias, reservando-se a intervenção cirúrgica para os casos muito específicos.

José Moutinho
(Médico Pneumologista, com Competência em Medicina do Sono)

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