A engenharia genética mudou o paradigma. Hoje, os novos medicamentos procuram a molécula ideal para chegar a determinado alvo. Há inconvenientes. É difícil criar réplicas e os elevados custos de produção podem inviabilizar o caminho que nos pode levar ao medicamento personalizado.

Foi o acaso ou o acidente que nos empurrou para a descoberta do medicamento. Foi assim que aconteceu com o quinino e com o ácido acetilsalicílico (Aspirina), mas também com a penicilina. O ambiente da II Guerra Mundial exigiu uma produção em massa de antibióticos e a indústria farmacêutica depressa percebeu que existia uma procura incessante de novos fármacos.

A mudança de paradigma é recente. A descoberta da estrutura do DNA, por Watson e Crick em 1953, aliada ao aumento de sofisticação da instrumentação, deu início a uma nova fase de descoberta de medicamentos. Nos anos 60 do século XX, a tecnologia informática e a automação laboratorial, foram ingredientes fundamentais para o desenvolvimento de novos medicamentos. O aparecimento da engenharia Genética na década de 70 do século XX alterou o modelo de investigação.

As descobertas farmacêuticas que ocorriam até então, eram isoladas e ocasionais, passando cada vez mais a ser orientadas pela ciência. Abandonou-se um método empírico de pesquisa de novos medicamentos, para um método de desenho de uma molécula ideal, um desenho farmacológico racional. Atualmente, o desenvolvimento de novos medicamentos é efetuado através da procura da afinidade que algumas moléculas possuem para um alvo proteico pré-selecionado, alvo esse previamente reconhecido como uma alteração genética ou multifatorial de uma patologia já estudada. Hoje, a simplicidade com que se descreve o nascimento de um novo medicamento, é um processo que demora cerca de 10 a 15 anos e pode custar milhões de euros.

Os medicamentos biológicos ou biofármacos são obtidos a partir de organismos vivos, ou seja, a partir de uma fonte natural, sendo produzidos por métodos biotecnológicos. O princípio ativo destes medicamentos tem origem biológica, isto é, organismos vivos (vírus, bactérias, levedura, entre outros) ou alguns dos seus componentes (extratos de sangue e saliva, entre outros). Os produtos resultantes são maioritariamente proteínas, incluindo anticorpos recombinantes, ou ácidos nucleicos (DNA, RNA, oligonucleótidos e genes).

Os biofármacos têm características muito diferentes dos fármacos obtidos por síntese química, nomeadamente o facto de possuírem dimensões maiores, serem mais instáveis, mas também mais específicos, possuírem maior atividade biológica, apresentarem uma estrutura molecular mais complexa onde a substância ativa é heterogénea e de difícil caracterização e replicação.

A primeira substância obtida por engenharia genética, por tecnologia de DNA recombinante, e aprovada para fins terapêuticos, foi a Insulina em 1982. Desde então e até aos dias de hoje surgiu um sem número de biofármacos em utilização nas mais diversas áreas da medicina, como a Endocrinologia, Gastroenterologia, Hematologia, Medicina Nuclear, Neurologia, Oftalmologia, Oncologia, entre outras.

Este tipo de medicamentos tem geralmente uma afinidade específica e direcionada para um determinado ponto do organismo (gene, recetor, célula), de forma a promover o seu efeito terapêutico. Por outro lado, os biofármacos também apresentam algumas desvantagens, relativamente aos medicamentos obtidos por síntese química, nomeadamente, maior imunogenicidade e maiores custos de produção. As proteínas obtidas são, regra geral, de difícil caracterização e replicação, as formulações obtidas possuem uma estabilidade muito lábil e a farmacocinética pode apresentar-se algumas vezes desfavorável.

A área de produção de medicamentos biológicos encontra-se hoje em grande expansão, levando ao aparecimento de novas moléculas todos os anos. Uma das áreas de maior investimento da indústria farmacêutica é a produção de anticorpos monoclonais que são obtidos a partir de células do sistema imunitário e são desenhados para serem ativos especificamente numa determinada moléculas, podendo ser usados no tratamento de patologias nas mais diversas áreas terapêuticas ou de diagnóstico.

O conhecimento do Genoma Humano, aliado ao surgimento de áreas específicas como a farmacogenómica e a farmacogenética, levaram ao surgimento da chamada “medicina personalizada”. A utilização desta designação foi efetuada pela primeira vez em 1998. Trata-se de uma medicina que utiliza a informação genética de cada indivíduo para ajudar a prevenir doenças, a escolher os medicamentos mais apropriados/adequados a cada pessoa, de forma a “rentabilizar” o seu efeito terapêutico e evitar os efeitos tóxicos que muitas vezes acontecem. Atualmente, em terapêutica oncológica, a seleção de alguns dos medicamentos utilizados no tratamento destas diferentes patologias, faz-se com base no conhecimento da genética individual, em função da presença ou da ausência de mutações de genes e amplificações de outros genes.

A investigação em medicamentos, conduzida pela química e altamente guiada pela farmacologia e pelas ciências clínicas, contribuiu para o progresso da medicina no último século, mais do que qualquer outro fator científico.

Nuno Vilaça Marques

(farmacêutico hospitalar)

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