O que tem em comum um jogador de ténis ou um praticante de remo, com um pintor ou carpinteiro? Uma lesão na coifa dos rotadores, por exemplo, mas também pode ser uma tendinite, uma luxação ou tão só o ombro congelado. Se conhecer o funcionamento do ombro, mais facilmente poderá prevenir lesões ou outra patologia causada por um uso excessivo e repetitivo desta articulação

De entre todas as articulações, o ombro é a que possui maior capacidade e amplitude de movimentos. Há sempre um outro lado da moeda e, precisamente porque é a mais móvel, também é a articulação mais instável. 50% de todas as luxações ocorrem precisamente no ombro.

A amplitude de movimentos exige uma sintonia perfeita entre as várias estruturas que compõem o ombro, como músculos, ossos, tendões, cápsula, labrum, ligamentos e nervos. Os músculos são necessariamente mais potentes, para garantirem estabilidade e mobilidade, mas não impedem as frequentes dores de ombro, por causa traumática ou por degeneração.

As atividades desportivas são uma das causas de patologia traumática, seja por fratura, luxação ou por “híper-utilização”. Os desportos de contacto ou aquelas atividades físicas que exigem movimentos acima do nível do ombro, como lançadores, jogadores de andebol e voleibol ou nadadores, estão muitas vezes associados a patologias no ombro, tal como as profissões de pintor ou de carpinteiro, tudo situações em que é muito comum a lesão dos músculos da coifa dos rotadores.

Os sintomas começam com dor, principalmente nos momentos de repouso e durante a noite, mas também quando se tenta levantar ou descer o braço. As lesões da coifa dos rotadores enquadram-se num quadro de tendinopatia e a dor é provocada pelo desempenho que este conjunto de músculos e tendões tem no movimento da articulação do ombro. A maioria destas lesões resulta de um excesso de uso dos tendões ao longo do tempo ou por repetição de movimentos, mas também podem ter origem numa situação traumática, como uma queda.

Mais específica é a dor provocada pela tendinite. Neste caso, existe uma inflamação num dos tendões da articulação e a forma mais comum envolve o tendão do músculo supra espinhoso. A inflamação é provocada pelo excesso de uso dos braços, seja em trabalho, seja em atividade desportiva, mas também por um esforço intenso/brusco, ou tão só por permanecer com uma má postura durante longos períodos. A dor é sempre localizada e persistente e, muitas vezes, impeditiva do movimento de elevação do braço.

Os sintomas de uma tendinite são muito idênticos aos de uma bursite. Em ambos os casos, existe inflamação, mas a localização é diferente. No primeiro caso, há uma inflamação do tendão, enquanto no segundo caso, existe uma inflamação da bursa, uma pequena bolsa que tem como função evitar/diminuir o atrito com as outras estruturas da articulação e, quando inflama, torna-se maior, ocupando espaço e provocando conflito entre essas estruturas (frequentemente acromion e músculos supra e infra-espinhosos).

Na tendinite existe inflamação de um dos tendões do ombro, nestes incluem-se os denominados coifa dos rotadores (supraespinhoso, infra-espinhoso; subescapular e pequeno redondo) e o bicípete braquial. Este último, apesar de não fazer parte da coifa dos rotadores (frequente fonte de dor), é constituído por duas partes, uma das quais se insere dentro da articulação do ombro, sendo também frequentemente lesada.

Diferente destas, é ainda a tendinose. Uma vez mais, a causa (frequente) está no excesso ou uso crónico de um tendão, ocorrendo um processo degenerativo do colagénio. Se esse excesso de uso é mantido, sem proporcionar o tempo necessário de repouso para que o processo cicatrize, a situação acaba por evoluir para uma tendinose. E, neste caso, tanto a atividade desportiva intensa, como a natação, ou o simples movimento de clicar no rato do computador, podem desencadear este tipo de patologia. O termo tendinose está associado à cronicidade da lesão e a alterações degenerativas e a confusão de diagnóstico com a tendinite surge porque as queixas são muito idênticas, o que acaba por ser prejudicial para o tratamento e para a recuperação.

Na tendinite existe inflamação, que é necessário reduzir e tratar (anti-inflamatórios, repouso, aplicação de gelo local), enquanto que na tendinose recomendar a toma de anti-inflamatórios pode ser prejudicial, estando até contraindicados. Para a tendinose o tratamento passa necessariamente por repouso e exercícios que estimulem a produção de colagénio, assim como uma nutrição adequada e, no caso de ser fumador, será sugerido deixar de fumar.

 

Um e outro caso podem considerar-se estádios evolutivos para aquilo que se designa por conflito articular do ombro ou conflito subacromial. A dor continua a ser o principal sintoma e, neste caso específico, é provocada por uma compressão do tendão do músculo supra-espinhoso, durante o movimento de elevação do braço e também na fase de retorno. Uma vez mais, é o uso excessivo do ombro que pode justificar este desenvolvimento. Os atletas, como nadadores, jogadores de voleibol, lançadores de peso ou as profissões, como os pintores ou as donas de casa são os mais afetados por esta Síndrome.

O ombro congelado, lesões nos ligamentos, cápsula e labrum são outras situações que também afetam a mobilidade do ombro e, consequentemente, provocam dor, o que acaba por alertar para a importância desta articulação no desempenho do dia-a-dia. Nos desportistas a necessidade de realizar alongamentos e exercícios de aquecimento antes e depois dos exercícios físicos, assim como exercícios específicos para melhorar a estabilidade do ombro, acabam por ser a melhor proteção, a par da recomendação de nunca exceder as capacidades de força/equilíbrio da articulação, como, por exemplo, levantar pesos em excesso.

A dor no ombro também pode surgir em pessoas que não praticam atividade desportiva e que até passam os dias sentadas a uma secretária, basta que executem movimentos repetidos, que acabam por provocar um uso excessivo de toda a articulação do ombro e, se a esse mau uso juntarmos uma má postura, ficam criados os ingredientes que podem dar lugar à dor no ombro. Para as atividades profissionais que podem desencadear este tipo de complicação sugere-se a realização de exercícios diários, que permitam estimular a força e o equilíbrio do ombro, mas também que evitem os movimentos repetitivos.

A medicação será quase sempre a opção de primeira linha para os vários tipos de dor do ombro, tal como a fisioterapia/exercícios específicos, contudo, as injeções de corticoides e/ou os anti-inflamatórios não devem ser usados repetidamente, sob pena de acelerarem um processo degenerativo e aumentarem a possibilidade de lesão tendinosa, como a rotura. Por vezes, será necessário recorrer à cirurgia, seja pelo método tradicional, seja por artroscopia, uma técnica que possibilita observar o interior da articulação ao mesmo tempo que permite reparar e/ou corrigir lesões não diagnosticadas previamente ao ato cirúrgico. Mas, a intervenção cirúrgica deverá ser sempre uma opção ponderada e avaliada individualmente, caso a caso.

Ana Inês

(médica ortopedista)

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