Devem ser vistas como um mensageiro que nos alerta para o perigo ou para algo importante a compreender. Ajudam-nos a tomar decisões e as hipóteses de sobrevivência estão dependentes disso mesmo, desse sentir que nos move. Precisamos de saber lidar com toda esta informação sentida e quase invisível, as emoções
Apesar de os investigadores estarem de acordo quanto à existência de emoções, não há um consenso relativamente à definição do que é uma emoção, nem tão pouco quanto à quantidade de emoções (6, segundo Darwin e 16, segundo Ekman) ou ao tipo de emoções (primárias e secundárias, positivas e negativas).
Quando falamos de emoções, normalmente pensamos na consciência subjetiva e imaterial deste fenómeno — “eu sinto que estou com medo” – mas, na verdade, a emoção é um fenómeno complexo e multifacetado, com algumas dimensões perfeitamente observáveis: a atividade neuronal, a ativação psicológica, as sensações corporais, a expressão facial e a modificação da postura. Quando sentimos uma emoção, normalmente, podemos constatar quatro dimensões. Por exemplo: estou sozinha em casa, ouço um crepitar nas folhas lá fora (informação proveniente dos órgãos dos sentidos); penso “está um ladrão em minha casa” (pensamento); no meu corpo sinto taquicardia, suor, tensão nos músculos (sensações corporais) e, assim, decido verificar a existência (ou não) de um intruso em casa e/ou trancar a porta e/ou esconder-me (comportamento).
Para que servem?
As emoções têm várias funções fundamentais à sobrevivência, adaptação e bem-estar do ser humano:
- Informar sobre o que é importante para nós: o stress mostra que não estou bem preparada para um exame; ou a satisfação que aprendi o suficiente para atingir o meu objetivo;
- Facilitar a ação: o medo permite-me fugir rapidamente face a uma ameaça e a raiva leva-me a que me defenda de um agressor;
- Tomar decisões: em vez de passar horas a pensar nos prós e nos contras, a emoção permite-me sentir no corpo o que é melhor para mim;
- Promover a adaptação: coordenação corpo/mente para responder aos estímulos do ambiente e, assim, aumentar as hipóteses de sobrevivência. No exemplo anterior, ao pensar que estará – eventualmente – um ladrão em casa, a prioridade biológica será dada à vigilância versus sono.
Enquanto psicóloga clínica, vejo as emoções como fontes importantes de informação e não apenas como um problema a corrigir: como no tablier do nosso carro aparece uma luz que indica que temos de colocar mais gasolina, de igual modo, as emoções aparecem para nos dizer algo importante sobre nós.
Por exemplo, no caso de um adulto, a ansiedade pode indicar que é necessário mais descanso ou mais tempo livre. No caso de uma criança, estará a tentar exprimir algo que, dada a imaturidade do seu cérebro, ainda não consegue exprimir verbalmente.
Toda a gente sente as mesmas?
Durante muito tempo pensou-se que as emoções eram universais, ou seja, que o ser humano nasce com circuitos neuronais já preparados para sentir emoções e que, independentemente da cultura, as emoções são perfeitamente identificáveis. As neurociências dizem-nos que esta ideia é um mito. As emoções não são universais, nem inatas, mas sim construções do cérebro. A teoria atual das emoções (Lisa Feldman Barrett) constata que o cérebro produz emoções baseadas no contexto familiar, social e cultural, nas nossas experiências passadas e na linguagem.
As emoções sentidas em Papua-Nova Guiné não são idênticas às que podemos sentir em Portugal. O medo provocado por um estrondo não vai provocar as mesmas reações corporais se estivermos em Coimbra ou numa cidade em guerra. Para além disso, ouso acrescentar que as emoções que sentimos também são influenciadas pela história dos novos pais e dos nossos antepassados, que se mantém vivas através de nós, conscientemente ou inconscientemente (transgeracional). Também os fatores ambientais como a alimentação, o estilo de vida ou a qualidade das relações interpessoais podem influenciar a expressão dos genes (epigenética).
Podemos aprender a lidar com as emoções?
Tal como aprendemos a ler e a escrever na nossa infância, também podemos aprender a lidar com as nossas emoções, principalmente aquelas que podem causar mais dificuldades na nossa vida, como a ansiedade, o medo ou a raiva. Adultos ou crianças, todos podemos aprender a utilizar ferramentas para que as emoções constituam uma força positiva, um aliado na nossa vida (e não um obstáculo que nos impede de atingir os nossos objetivos). As emoções têm um impacto significativo nos aspetos mais importantes da nossa vida (Moira Mikolajczak):
- Bem-estar: com a emoção serenidade sentimos bem-estar; com o stress ou zanga sentimo-nos mal. As pessoas com mais competências emocionais têm menos risco de ter perturbações mentais (ansiedade, depressão e burnout);
- Saúde física: o stress tem um impacto negativo na saúde (maior risco de diabetes e de problemas cardiovasculares). As pessoas com mais competências emocionais tomam menos medicamentos, vão menos ao médico e são menos vezes hospitalizadas;
- Performance no trabalho: emoções positivas como o entusiasmo, aumentam a eficácia no trabalho e outras, como o aborrecimento, diminuem-no. Tendo o mesmo quociente de inteligência (QI) e as mesmas competências técnicas, os indivíduos com melhores competências emocionais têm uma melhor performance no trabalho.
- Relações interpessoais: a gratidão e o altruísmo torna-nos mais próximos; a zanga distancia-nos. Os indivíduos com melhores competências emocionais têm relações mais satisfatórias e estáveis.
Quais os primeiros passos no treino?
O primeiro passo é ter um vocabulário emocional, pois, sem a palavra, não há pensamento. Conhecer as palavras que descrevem as emoções: medo, zanga, ansiedade, tristeza, culpa etc. é como aprender o abecedário para poder ler e escrever.
O segundo passo é identificar a emoção e saber qual o impacto desta emoção: as manifestações corporais, os pensamentos e o comportamento. Saber por exemplo que, quando me sinto zangado, sinto muita força nas mãos, penso que os outros estão contra mim e aumento o tom da minha voz.
O terceiro passo é aceitar a emoção que estou a sentir, sem ignorar nem sobrevalorizar, vendo a emoção como um aliado, com um mensageiro de algo importante para nós.
O quarto passo é exprimir, verbalizar a emoção. Eu sinto-me zangada(o). De seguida, questionar-se sobre quais as minhas necessidades, o que é importante para mim, que necessidade (não satisfeita) pode estar escondida por detrás desta emoção? Eu sinto-me zangada(o) quando falo contigo e tu não tiras os olhos do telefone, sinto que o que digo não tem importância.
Por último importa perceber o que desencadeia a emoção que é difícil para mim: quais são as situações/contexto/pessoas? Por exemplo, reparei que quando não descanso o suficiente, fico mais irritado(a) e sensível ao que os outros me dizem.
Desde modo, graças a um trabalho de autoconhecimento, que pode exigir alguma prática, podemos encontrar estratégias para regular a intensidade da emoção.
Como lidar com o medo ou a zanga?
Aprender a lidar com esta energia que parece indomável e sobre a qual parece termos tão pouco controlo requer treino, perseverança e paciência consigo próprio.
Relativamente ao medo, como já foi referido, em primeiro lugar, é preciso identificar os pensamentos negativos, as sensações corporais e o comportamento na situação que desencadeia o medo, por exemplo: estou a pensar “se apanhar o avião, ele vai cair”, sinto o meu coração acelerado, suor, dor de barriga e evito entrar no avião, focando a minha atenção apenas nos rostos que exprimem preocupação, para confirmar a ideia de que há um problema.
Em segundo lugar, questionar a veracidade dos pensamentos negativos e tentar encontrar pensamentos mais “realistas”, menos catastróficos, por exemplo: “posso ter a certeza absoluta que se apanhar o avião, ele vai cair?” Ou “na verdade o avião é um dos meios de transportes mais seguros”.
Em terceiro lugar, encontrar estratégias para acalmar o sistema nervoso no momento de pânico, por exemplo, técnicas de respiração (inspirar 3 segundos, reter a respiração 3 segundos e expirar 4 ou 5 segundos) ou técnicas de visualização (pensar num lugar em que se sente seguro). Por último, gradualmente, afrontar o medo e focar a atenção no rosto de todas as pessoas, principalmente aquelas que sorriem ou mostram bem-estar.
Relativamente às crianças, no que respeita à emoção / zanga até aos 6 anos, dada a imaturidade do córtex pré-frontal do seu cérebro (que permite acalmar durante uma emoção, ouvir os pais ou encontrar soluções) são os pais que vão ajudar a criança a regular as emoções. Como? Através da regulação do seu próprio sistema nervoso, ou seja, num momento de forte emoção, os pais aprendem, gradualmente, a acalmar-se e, assim, “emprestam” as suas capacidades de calma à criança. A criança, ao ver o adulto calmo e empático face à tempestade emocional pode, no início, saltar para o barco do adulto e, mais tarde, construir o seu próprio barco. A partir dos 6, 7 anos podemos ajudar a criança a identificar os pensamentos negativos, as sensações corporais e o comportamento na situação que desencadeia a zanga e, depois sim, construir pensamentos mais positivos e estratégias que o ajudem a acalmar o fogo da zanga.
Em conclusão, para ajudar as crianças a lidarem melhor com as emoções, é tão ou mais importante cuidar da geração dos adultos que somos (e da criança que fomos). Só depois estaremos em condições de aumentar a literacia emocional das crianças desta geração.
Cláudia Quintans
(Psicóloga Clínica e Terapeuta de Neurofeedback; OP n.º 15640)

Perda de uma filha !! E ter de ir a luta !!
ReplyGostei muito do artigo. Esta área ajuda muito a reduzir o peso da areia.
Reply