O sistema imunitário fica “desorientado” e, em vez de nos proteger, ataca as células do próprio corpo. O princípio é este, mas para se chegar a esta conclusão é preciso percorrer um caminho mais ou menos longo até ao diagnóstico. Os sintomas são quase sempre enganadores e por isso esta alteração do sistema imunitário é difícil de reconhecer. Explicamos o que são as doenças autoimunes, o que as provoca, como se faz o diagnóstico e os tratamentos que existem para controlar este tipo de resposta imunológica excessiva

O que são?

As doenças autoimunes (DAI) são situações patológicas, que resultam de uma continuada resposta imunológica do organismo a antigénios com a produção de autoanticorpos. São consequência de alterações do sistema imunitário, que fica “desorientado” e ataca células do nosso corpo em vez de o proteger. Assim, a resposta adaptativa específica induzida por antigénios próprios ou estranhos ao organismo está alterada.

São um grupo de mais de 100 doenças que podem afetar quaisquer órgãos ou sistema do nosso organismo. Inclui doenças que atingem simultaneamente ou sequencialmente esses órgãos ou sistemas e outras que envolvem especificamente alguns deles. Têm manifestações clínicas muito variadas, dependendo dos tecidos atingidos e gravidade das lesões.

Sintomas e sinais relativos ao sistema nervoso, aos aparelhos digestivo e respiratório, à pele, olhos, articulações, glândulas endócrinas e sangue podem ser manifestação inicial de doença ou ocorrer ao longo do tempo. Podem surgir em qualquer idade, sendo mais frequentes no adulto jovem, atingindo mais o sexo feminino.

As doenças autoimunes não são contagiosas. São doenças crónicas, que tanto podem ser controladas facilmente como podem causar lesões graves de órgão e ameaçar a vida.

O que provoca estas doenças?

Cientificamente ainda não está bem clarificada a razão da ocorrência das DAI. Normalmente o sistema imunitário protege o nosso corpo produzindo anticorpos, que são proteínas especiais que reconhecem e destroem microrganismos externos. As doenças autoimunes ocorrem quando se produzem autoanticorpos de forma descontrolada, que são anticorpos dirigidos contra antigénios do próprio organismo. Consoante a doença, títulos elevados de diversos autoanticorpos podem ser identificados, mas os autoanticorpos podem ser o resultado e não a causa do processo doença.

A deteção de autoanticorpos, por si só, não faz o diagnóstico de doença e estes podem estar presentes muitos anos antes de haver sintomas ou sinais clínicos. Contudo a presença de certo tipo de autoanticorpos é de grande valor no diagnóstico e no prognóstico de algumas doenças. A sua presença, combinada com a história familiar e informação genética pode ser altamente preditiva do desenvolvimento de determinada DAI no futuro.

Nalgumas doenças está identificada uma base genética ou uma predisposição familiar para desenvolver uma DAI. Cerca de 20% da população tem algum fator hereditário que aumenta a hipótese de ter uma doença autoimune. No entanto, o facto de alguém na família ter uma DAI, não significa que se vá desenvolver doença, somente existe um risco acrescido de poder acontecer, tal como quando se tem uma DAI a probabilidade de vir a desenvolver uma outra está aumentada.

Sabe-se que há alguns fatores que podem ter importância no desencadear de uma DAI, como as bactérias, vírus, toxinas, hormonas, o stress, bem como o uso de alguns fármacos que podem desencadear uma resposta autoimune. A predisposição genética não é uma causa só por si, mas é importante que as famílias com DAI refiram este facto ao médico sempre que um outro membro da família tem um problema de saúde de difícil esclarecimento.

No seu conjunto, as DAI atingem três vezes mais o sexo feminino do que o masculino, podendo em alguns casos esta proporção ser mais elevada, como é o caso do Lúpus em que as mulheres são afetadas nove vezes mais.

Que tipos existem?

Os processos autoimunes podem afetar o organismo de diversas maneiras, de forma aguda ou mais ou menos lenta. Podem originar a destruição de células ou tecidos ou interferir na função de um órgão. Os órgãos e tecidos frequentemente afetados incluem as glândulas endócrinas tais como a tiroide, pâncreas e suprarrenais, o sistema nervoso, o fígado, os diversos componentes sanguíneos e o tecido conjuntivo, atingindo a pele, músculos e articulações.

As DAI são frequentemente classificadas como específicas de órgão e como não específicas de órgão, ou sistémicas. Nas DAI específicas de órgão, o processo autoimune é dirigido contra um único órgão. São exemplos a tiroidite de Hashimoto (glândula tiroide), a anemia perniciosa (estômago), a doença de Addison (glândulas suprarrenais) e a diabetes tipo 1 (pâncreas). Nas DAI sistémicas, a autoimunidade provoca lesões em vários órgãos ou tecidos. São exemplos destas doenças sistémicas o Lúpus Eritematoso Sistémico

(LES), a Artrite Reumatoide (AR) e o Síndroma de Sjögren (SS).

Quando pensar numa doença autoimune?

As DAI podem afetar qualquer órgão ou tecido do organismo, podendo provocar sintomas variados e serem confundidas com muitas outras doenças. A primeira manifestação pode ser muito variada: dores nas articulações que podem ficar edemaciadas, manchas na face que aumentam com o sol, aftas recorrentes difíceis de tratar, abortos espontâneos e de repetição, pericardite ou pleurite, uma psicose, anemia, diminuição das plaquetas, olhos e boca seca, mãos que ficam brancas com o frio, diminuição da força ou sensibilidade nas extremidades, insuficiência renal, mãos suadas e com tremor, uma febre prolongada que não cede a antipiréticos ou antibióticos, etc.. Estes sintomas e sinais podem apresentar-se duma forma lenta, o que leva o doente à consulta ou de uma forma aguda, que necessita de abordagem numa urgência. Quando se está perante um quadro em que vários órgãos parecem estar doentes ao mesmo tempo, deve-se suspeitar que uma DAI pode estar em causa.

Como se faz o diagnóstico?

As DAI são das doenças mais difíceis de reconhecer e de diagnosticar. Os sintomas são diferentes de uma doença para outra e também diversos dentro da mesma doença, podendo variar de pessoa para pessoa e consoante a idade. Como são doenças que afetam vários órgãos, podem ter sintomas enganadores, o que dificulta o diagnóstico. É fundamental a história clínica com observação cuidada do doente. Atendendo às queixas atuais e antecedentes pessoais, há que escolher criteriosamente os exames complementares a realizar e iniciar o tratamento o mais rápido possível.

O diagnóstico faz-se pela conjugação de sintomas, sinais clínicos, demonstração de alterações analíticas e outros exames complementares de diagnóstico. Por vezes não é possível estabelecer o diagnóstico de certeza na abordagem inicial, podendo no entanto ser necessário iniciar algum tipo de terapêutica de imediato.

Que tratamentos?

É necessário aliviar os sintomas e controlar a progressão da doença e, se possível, alcançar a sua remissão. Deve ser estabelecido um plano terapêutico e de vigilância de acordo com o doente, adaptado a cada situação. Corrigir as deficiências hormonais geradas no organismo por certas DAI, como é o caso das tiroidites que originam hipotiroidismo ou a diabetes tipo 1, é indispensável. É frequentemente necessário reduzir a inflamação, o que poderá ser feito com anti-inflamatórios. Nas DAI sistémicas há que controlar a resposta imunológica excessiva, recorrendo a imunomodeladores e, muito frequentemente, corticosteroides. Algumas doenças podem ter de ser tratadas com fármacos que atuam sobre o sistema imune – os imunossupressores. As imunoglobulinas endovenosas (IVIG) são utilizadas também no tratamento de várias DAI para reduzir a circulação de imunocomplexos, que são proteínas produzidas nestas doenças e que podem lesar alguns órgãos vitais como o rim ou o cérebro.

Alguns fármacos, chamados modificadores da doença, são utilizados em primeira linha na Artrite Reumatoide, pois alteram a evolução da doença além de aliviarem os sintomas, sendo o metotrexato o mais utilizado. Atualmente há uma nova classe de fármacos, chamados biológicos, que são baseados em componentes extraídos de células vivas e têm como alvo as células do sistema imunitário envolvidas em certas DAI. Os medicamentos biológicos são produzidos por biotecnologia em laboratórios especializados e têm demonstrado efeitos muito benéficos em alguns doentes.

A quem recorrer?

A avaliação e seguimento destes doentes devem ser feitos por médicos experientes na área da autoimunidade. Qualquer uma das especialidades dos órgãos afetados pode ser chamada a fazê-lo.

As DAI sistémicas são preferencialmente abordadas por Internistas e Reumatologistas. Importa que estejam à vontade na ponderação das diversas opões terapêuticas e conheçam bem os fármacos e seus eventuais efeito os indesejáveis, como seja uma maior suscetibilidade a infeções que podem ser mais graves, a possibilidade de provocarem alterações hematológicas e hepáticas, a potencial interferência na fertilidade, bem como o desencadear de hipertensão arterial, cataratas, alterações do sono e osteoporose, etc.

A articulação com o Médico de Família é fundamental para melhor seguimento. O doente deve ter informação o mais completa possível da sua doença, dos sinais de alerta de descompensação, da medicação que faz e seus potenciais efeitos secundários.

Controlar a doença e conservar boa capacidade geral do organismo é o objetivo. Uma boa alimentação, sono regrado, redução do stress, enfim, a adoção uma vida saudável é importante contributo para a adequada compensação da doença e preservação da qualidade de vida.

Deolinda Portelinha (Médica, com especialidade em Medicina Interna)

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