Há um conjunto de mecanismos fundamentais na luta contra inúmeros agentes agressores e que, simultaneamente, tem capacidade para identificar o inimigo e promover a defesa necessária. O sistema imunológico tem sido o trunfo na manga na sobrevivência da espécie humana ao longo de milhares de anos. O SARS-CoV- 2 é tão só mais um desafio e um teste à capacidade do nosso sistema imunológico

A imunidade é o que permite que certos indivíduos ou certas espécies não sejam afetados pela ação patogénica de determinados micro-organismos ou agentes estranhos. Além de proteger, evitando o aparecimento de doenças, a imunidade permite a identificação e destruição de células estranhas, danificadas ou mutantes podendo assim impedir o desenvolvimento de neoplasias.

imunidade pode ser classificada de diversas formas. Destacamos a imunidade inata, que está presente ao nascer em indivíduos saudáveis; e a imunidade adquirida, que se desenvolve ao longo da vida.

Ao nascer, há um certo tipo de imunidade que está sempre presente em indivíduos saudáveis. Trata-se da imunidade inata ou natural, que atua de forma rápida, evitando a entrada de microrganismos, ao mesmo tempo que combate os que conseguem penetrar nos tecidos do hospedeiro. Sendo determinada por mecanismos inespecíficos, este tipo de imunidade natural é representada por barreiras físicas, químicas e biológicas e por células hemáticas especializadas como os macrófagos, neutrófilos e células dendríticas e por moléculas solúveis, como citocinas, quimiocinas . 

Por outro lado, também existe a Imunidade adquirida ou adaptativa, aquela que ocorre após contacto com um microrganismo invasor, que é específica contra esse agente e origina memória imunológica. A especificidade representa a capacidade de reagir a determinada agressão e ocorre após contacto com um microrganismo invasor, (por exemplo vírus, bactérias) e é específica contra esse agente. Após esse contacto inicial, desencadeiam-se uma série de eventos que levam à ativação de determinadas células, bem como à síntese de certo tipo de proteínas. Depois cria-se uma memória que dá capacidade do organismo reconhecer esse antigénio, permitindo-lhe reagir rapidamente quando há um novo contacto. 

A imunidade adquirida tem uma componente humoral  (principal mecanismo de defesa contra microrganismos, mediada por anticorpos produzidos pelos linfócitos-B), e uma celular  (que promove a destruição de microrganismos presentes em fagócitos, ou nas células infetadas, e é mediada pelos linfócitos-T). As imunidades humorais e celulares atuam conjuntamente na defesa do organismo.

A imunidade também pode ser classificada como ativa, passiva ou de transferência. Após a exposição a determinado microrganismo ou toxina produzida por ele, o corpo arranja uma maneira de o combater, de forma a não desenvolver a doença. Esta imunidade ativa é adquirida pelo próprio organismo e surge como consequência de uma doença ou pela vacinação. 

A imunidade passiva diz respeito à imunização obtida como consequência da transferência de anticorpos da mãe para o feto ou pela administração de anticorpos, via transfusão de soro no doente. Assim o indivíduo recebe os anticorpos já prontos para combater determinados antígenos. Também via transfusão sanguínea ocorrem transferências de células do sistema imune, resultando em imunidade de transferência ou adotiva. 

Sistema imunológico o que é?

O sistema imunológico, também conhecido por sistema imunitário ou sistema imune, é o conjunto de estruturas e de processos biológicos de um organismo que o torna capaz de identificar e eliminar células patogénicas. É o sistema responsável por desencadear o  processo de defesa e manter, assim, o equilíbrio e bom funcionamento do organismo, protegendo-o de certo tipo de doenças.

Quando há défices de funcionamento do sistema imune, seja da resposta imune inata seja da resposta imune adaptativa, gera-se um estado de imunodeficiência. Esta situação pode ocorrer desde o nascimento ou surgir noutras fases da vida. As Imunodeficiências primárias manifestam-se habitualmente por quadros infeciosos diversos e recorrentes desde o nascimento, bem como por atraso do desenvolvimento estato -ponderal. Há quadros muito variáveis quanto à severidade, com doenças potencialmente fatais, sendo algumas assintomáticas, vindo a manifestar-se somente na idade adulta. 

As Imunodeficiências primárias estão associadas também a alterações genéticas diversas e podem fazer parte das manifestações clínicas de outras patologias, como as doenças autoimunes, inflamatórias, alérgicas ou neoplásica, particularmente as linfo proliferativas.

As Imunodeficiências adquiridas ou secundárias definem-se como patologias que se desenvolvem em consequência de doenças de órgãos ou sistemas que afetam o sistema imune, ou estão a ela associadas. Há uma multiplicidade de causas para estas alterações. A infância e a velhice estão associadas a imunodepressão de grau variável. Nas crianças prematuras pode haver uma imunodeficiência marcada, quer pelo défice de anticorpos maternos, quer pela imaturidade dos linfócitos. A nível mundial e nos países subdesenvolvidos, malnutrição é a causa mais frequente. Por outro lado, nos países desenvolvidos, as infeções são as causas mais comuns. Processos infeciosos diversos, provocados por uma multiplicidade de agentes, causam graus variáveis de imunodeficiência, particularmente os vírus (por exemplo o Epstein-Barr, citomegalovírus, vírus da imunodeficiência humana). 

O caso do vírus da imunodeficiência humana (VIH) origina doença que, se não for tratada, leva à morte. Ao longo dos anos tem havido o surgimento de novos vírus, com formas de disseminação variáveis e efeitos deletérios graves, até que surja um tratamento ou vacina eficaz. 

A situação atual da pandemia COVID, gerada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, tem sido demonstrativa do pouco que se sabe sobre os mecanismos agressores do vírus e as respostas do organismo por ele afetado. Há indivíduos contagiados que são completamente assintomáticos, outros têm uma multiplicidade de sintomas, que dizem respeito ao envolvimento de diversos sistemas orgânicos, com quadros clínicos de gravidade variável mas que podem gerar insuficiência orgânica grave e morte. 

Situações de outro tipo, como por exemplo o trauma cirúrgico, também podem originar certo grau de imunodepressão (potenciado pelos efeitos imunodepressores da anestesia). As neoplasias, as doenças metabólicas (como a diabetes), a insuficiência renal crónica, a cirrose hepática, cursam com imunodepressão que pode ser agravada em consequência de algumas terapêuticas usadas (antineoplásicas, imunossupressores, corticoides, radioterapia).

As queimaduras extensas podem ser causa de uma imunodeficiência secundária, por consequência da perda de proteínas, aumento do catabolismo, quebra da barreira cutânea e proteção física de agentes infeciosos. 

O entendimento da imunidade, estudada pela Imunologia, teve no século passado um extraordinário desenvolvimento e mobiliza na atualidade inúmeros cientistas em todo o mundo, agora com particular enfoque no conhecimento do coronavírus SARS-CoV-2, bem como na busca de uma potencial vacina. Muito se sabe, mas muito há ainda por explicar, o que é um grande desafio na atualidade face à infeção disseminada por todo o mundo.

Deolinda Portelinha
(Médica, com especialidade em Medicina Interna)


A origem

A palavra imunidade, de origem latina, deriva do vocábulo immunitas que significa “isento” ou “livre” que, quando aplicada à Medicina, diz respeito aos mecanismos de proteção utilizados pelo organismo, contra agentes estranhos presentes no ambiente.

Os primeiros relatos históricos sobre imunidade foram feitos pelo historiador Ateniense Tucídides, em 430 AC. Durante a “praga de Atenas”, Tucídides observou que, aqueles que haviam contraído a ” praga” e estavam recuperados, conseguiam cuidar dos doentes sem adoecer de novo.

Como ciência, a Imunologia começou por surgir no campo da Biologia, com o contributo do médico Inglês Edward Jenner que, no final do século XVIII, conseguiu elucidar o primeiro processo de imunização.

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