“A prova de que a Natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas” (Jô Soares)

-“Não vejo nada”… (sem óculos). Começar uma consulta de Oftalmologia com esta afirmação não facilita o trabalho do médico. Os óculos, apesar de serem um incómodo para muitos, não são, nem devem ser, sinónimo de doença. Eles são usados para corrigir aquilo que se denomina de erro refrativo, ou seja, um “engano” da natureza, seja porque o olho tem um comprimento axial maior (miopia) ou menor (hipermetropia), e/ou porque sofreu alterações na curvatura da córnea ou do cristalino (astigmatismo), ou ainda quando os olhos perderam a capacidade de ver para perto (presbiopia).

Os óculos são uma ajuda valiosa quando facilitam a focagem e a nitidez para longe e/ou para perto. Podemos não gostar de os usar e até de nos sentirmos bem sem eles (se as graduações forem baixas), mas eles fazem a diferença na qualidade da visão, principalmente se esses erros forem muito significativos.

Por outro lado, não usar os óculos também não origina doenças, a não ser que tropece e caia por não ver bem o caminho, mas note que essa resistência acaba por aumentar o esforço necessário para a focagem e até originar rugas, pela necessidade que tem de semicerrar os olhos, sempre que precisa de ver bem.

Apesar de existirem múltiplos modelos de armação e formato de lentes, muitos não gostam deles por serem pesados, porque não corrigem grande parte da visão periférica e, principalmente, pelo valor monetário. Estes problemas podem ser ultrapassados se tiver a sorte, por exemplo, de tolerar lentes de contacto.

Claro que o ideal seria ver bem, sem ter a necessidade de usar óculos mas, quando tal não é possível, considere-se alguém com muita sorte se conseguir ver nítido e focado com eles. 

Muitos doentes, estes sim doentes, não melhoram com a correção refrativa. Porquê? Porque há verdadeiras doenças oculares que não o permitem. Alterações na transparência da córnea, dos meios (humor aquoso e vítreo) e do cristalino, doenças inflamatórias e degenerativas da retina e do nervo ótico são alguns dos exemplos. Para não falar de doenças sistémicas que afetam os olhos e o sistema nervoso. Por isso, quando alguém diz que “não vê” numa consulta de oftalmologia, o médico é logo induzido a pensar nessas outras patologias e não que o “doente não vê”, simplesmente porque não quer usar graduação (óculos).

As lentes de contacto e a cirurgia refrativa poderão permitir “libertar” alguns destes casos dos óculos. Mas a avaliação das diferentes estruturas oculares deverá ser sempre completa, porque é necessário excluir todas as causas orgânicas que possam condicionar a qualidade da visão.

Ana Sofia Travassos
(Médica Oftalmologista)

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