O sentimento de inquietação é transversal e a incerteza perante o futuro é uma incógnita. Há medo, não há como o negar. A ousadia está em viver com esse mesmo medo. É a isso que chamamos coragem

O dia 16 de março de 2020 marcou, definitivamente, as nossas vidas e a realidade como a conhecíamos deixou de existir, no sentido em que a normalidade foi alterada, pelo menos até ao momento em que a ciência nos dê respostas efetivas de combate ao novo Coronavírus ou até ao momento em que o Homem deixe de ser tão suscetível a este organismo, criando imunidade de grupo.

Depois de quatro meses muito longos, com estado de emergência pelo meio, estamos agora desobrigados do dever cívico de confinamento e a realidade tende, lentamente a reorganizar-se. Parece-nos transversal o sentimento de inquietação que emerge de alguma ausência de informação que, por vezes, nos mantém num terreno que nos vai sugando energias. A realidade dita que, amanhã tudo poderá ser radicalmente diferente de hoje e os planos que fazíamos tranquilamente para daqui a um mês, para as férias de verão, para o Natal ou até para o ano que vem, são agora mais difíceis de sonhar.

Palavras como medo, tristeza, angústia e solidão passaram, compreensivelmente, a fazer mais parte das nossas vidas. Experimentámos sofrimentos intensos quando nos vimos privados dos contactos com os nossos mais queridos (filhos/as, netos/as, irmãos/ãs e amigos/as muito próximos/as) cumprindo a regra que o inevitável isolamento social impôs. A realidade no trabalho e nas escolas também mudou, os nossos lares foram invadidos pelos ecrãs, que projetam as reuniões ou as aulas que nos limitaram a intimidade, alterando a diferenciação física de espaços. Todas as alterações que o nosso quotidiano sofreu tinham em vista um bem maior, o da proteção das nossas vidas e tudo fizemos na tentativa de garantir esse bem. Foram, ou melhor dizendo estão a ser, tempos muito difíceis, sem dúvida.

Julgamos que chegou o momento de olhar para dentro de cada um de nós, e também dos outros, e perceber tudo aquilo que não nos foi, nem nunca vai ser retirado.

Não deixámos de amar, nem de ser amados. Não deixámos de ser as pessoas que já éramos. Não deixámos de dar importância ao que para nós é importante e não nos esquecemos daquilo em que acreditamos. Muito pelo contrário, na verdade. Tudo fizemos para tentar garantir que não nos veríamos privados daquilo que mais importava para cada um de nós.

Agora, numa fase diferente do desenvolvimento desta pandemia, já será possível começar a perceber que o isolamento social não teve o poder de destruir as coisas belas, nem de destruir em nós o que há de melhor, tanto assim que nos reinventámos e fomos capazes de nos manter juntos à distância, contrariando definitivamente o ditado popular que nos ensinou que “longe da vista, longe do coração”.

A ameaça a que temos estado expostos é nova, percorre o mundo sem diferenças e invade as populações de incerteza, deixando soterradas todas as outras ameaças inerentes à nossa existência.

Sabemos que a incerteza perante o futuro é uma incógnita que muito nos fragiliza, mas também sabemos que temos recursos que não conhecemos até necessitarmos deles e que, é com eles que contamos para transformar receios e tristezas. São esses recursos que nos permitem continuar, continuar sem negar o medo, mas sem permitir que fiquemos bloqueados por ele.

Quando adaptado, o medo é protetor. Aprendemos, desde cedo, a viver com o medo e a isso chama-se coragem. Procurar ajuda, quando sentimos que precisamos dela, é também um sinal de coragem.

Compreendendo que a ambiguidade e a incerteza poderão ser das experiências emocionais mais difíceis de gerir, temos que aceitar que, neste momento elas são, mais do que antes, comuns em todos nós. Urgente será superar as questões colocadas pelo confinamento, reconquistando a confiança que nos vai voltar a permitir viver livremente, com todas as ameaças que isso implica e com todos os medos que nos caracterizam.

Somos as mesmas pessoas e as nossas emoções são as mesmas, nunca iremos estar privados do que sentimos. Não nos podem retirar o amor, a esperança, o desejo de continuar, nem os sonhos. São estas as âncoras da nossa existência.

Ana Beatriz Condinho
(Psicóloga clínica e psicoterapeuta)


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