Tão importante como medir o Índice de Massa Corporal será pesar a tristeza e as dificuldades emocionais de cada um, porque a fragilidade emocional está sempre presente na obesidade. Seja porque foi a causa, seja porque é a consequência

Sonhar com um corpo adaptado aos estereótipos de beleza atual, reproduzidos e potencializados pela sociedade contemporânea, é sinónimo de sonhar com um corpo alto, magro e definido que, supostamente, garante felicidade e sucesso.

Se é verdade que até há algum tempo a expressão “gordura é formosura” era significativa da postura que rodeava a questão do excesso de peso, também é verdade que, essencialmente a partir das décadas de 80/90 do século passado, o culto da magreza foi-se instituindo. Socialmente, sobretudo em vários meios, o excesso de peso é considerado inaceitável e quem se depara com este problema corre o risco de ser excluído do grupo, sendo alvo de chacota e de discriminação, situação que se verifica desde a infância e que origina graves consequências no bem-estar psicológico.

Portugal coloca-se entre os países europeus com maior prevalência de excesso de peso e de obesidade. No panorama mundial, encontramos também preocupações significativas sendo que, os registos da literatura são muito concordantes relativamente à realidade do problema de saúde pública, no que se refere ao grau de sofrimento que provoca, aos seus números e ao seu crescimento rápido.

Relativamente às causas da obesidade e, embora se admita, genericamente, uma interação de fatores biológicos, psicológicos e ambientais na sua origem e desenvolvimento, as opiniões não são consentâneas e, enquanto algumas correntes consideram maioritariamente os fatores hereditários e genéticos, outras salientam os fatores psicológicos e sociais. Concordamos com o entendimento da obesidade no contexto multidisciplinar, analisando todas as variáveis que concorrem para o problema e que serão de múltiplas origens.

Neste contexto, percebe-se facilmente que, se é fundamental o entendimento médico do problema da obesidade, indispensável e essencial será também o seu entendimento do ponto de vista psíquico, já que existem concomitantes a este nível que não podem ser menorizadas no papel que cumprem.

 A presença de alterações relacionadas com ansiedade, sintomatologia depressiva, compulsões, comportamentos aditivos e perturbações do comportamento alimentar (como a anorexia e a bulimia) são algumas das manifestações mais reconhecidamente relacionadas com a obesidade.

Existem pessoas que se tornam obesas por razões de natureza emocional, que as tornaram mais vulneráveis a excessos alimentares e existem pessoas que são obesas por razões de natureza biológica, que se tornam mais frágeis emocionalmente, com maior risco de manifestação de alterações do ponto de vista psíquico. Sejam quais forem as variáveis psicológicas envolvidas, enquanto causa ou consequência da obesidade, entende-se que o confronto com uma imagem corporal alterada – em relação aos modelos sociais – resulte em isolamento, que é favorecido pelas discriminações.

Entende-se também que existam grandes défices de autoestima e desvalorização individual e se rejeite o corpo, rejeição essa que pode passar a aversão. Realidades como a ansiedade e a sintomatologia depressiva (ou a própria depressão) encontram um terreno fértil para o seu desenvolvimento e, quando existe, pode acentuar-se a tendência para o consumo excessivo de comida ou para o uso de algum tipo de drogas. Sendo que, estes dois comportamentos podem ser entendidos como equivalentes, na tentativa de procura de um prazer imediato, que desvanece rapidamente e deixa a pessoa ainda mais só, num confronto árduo com as suas dificuldades, onde imperam a culpa e angústia e que pode tornar-se insuportável…

Atualmente, não se questiona a necessidade de um acompanhamento médico especializado quando falamos de obesidade, inquestionável deve tornar-se também a necessidade de um acompanhamento psicológico. Só uma compreensão global do problema garante as vantagens dos múltiplos entendimentos e possibilita uma hipótese de maior sucesso no tratamento.

Tão importante como medir o Índice de Massa Corporal será pesar a tristeza e as dificuldades emocionais inerentes ao problema (como causa ou consequência) já que a saúde é una e a falta dela também.

A presença da psicologia clínica nas equipes de estudo de casos de obesidade, seja na sua avaliação, seja no seu acompanhamento, é essencial à compreensão global das problemáticas. Essencial será também que a pessoa obesa possa compreender a sua realidade emocional e o seu comportamento e encontrar, dentro de si, instrumentos, estratégias e respostas saudáveis que possam evoluir num sentido positivo relativamente à abordagem do seu problema e das suas questões individuais.

Ana Beatriz Condinho
(Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta)

Leave a reply