Sente-se cansado/a desde que acorda até que se deita? É uma situação que dura há vários meses e para a qual não encontra justificação? A fadiga e falta de energia física e mental que sente impede-o/a de ter o desempenho habitual no trabalho e prejudica todas as suas atividades habituais? Se a resposta a estas questões for “sim” poderá estar a sofrer de um problema de saúde designado por Síndroma de Fadiga Crónica (SFC)

A fadiga é uma das queixas mais comum numa consulta médica. A fadiga pode estar acompanhada de outras queixas, frequentemente orientadoras para um problema orgânico subjacente, ou ser a principal queixa, só por si geradora de incapacidade de realizar as atividades diárias, com grave perturbação do bem-estar.

Rara é a doença que, no seu decurso desde a fase aguda até à cronicidade, não acarreta a instalação de fadiga, com menor capacidade de desempenho das atividades anteriormente realizadas. Doenças cardiopulmonares, como a insuficiência cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crónica, doenças endocrinológicas (quer esteja em causa o hipotiroidismo ou o hipertiroidismo ou a insuficiência suprarrenal), a doença renal crónica e as anomalias dos eletrólitos sanguíneos, a anemia (de etiologia múltipla), as doenças neoplásicas, as inúmeras doenças infeciosas virais ou bacterianas, as doenças autoimunes e reumatológicas, (particularmente a fibromialgia e polimialgia reumática), na apneia do sono e na doenças do foro psiquiátrico e psicológico, isto é, na panóplia de queixas possíveis, a fadiga existe em graus variáveis.

Quando não se identifica causa para a fadiga

A fadiga pode instalar-se de forma súbita ou desenvolver-se gradualmente ao longo de meses. A perturbação que causa na atividade diária, laboral e em casa, bem como na interação social, por si só, é motivo de procura de ajuda médica. Concomitantemente, poderão existir outras queixas sugestivas do quadro de Síndroma de Fadiga Crónica (SFC).

Ouvir as queixas do doente, apurar a cronologia da instalação dos sintomas, averiguar as possíveis causas desencadeantes, saber o que provoca melhoria dos sintomas ou o seu agravamento é fulcral. Uma avaliação clínica cuidadosa, complementada com a realização de exames auxiliares de diagnóstico deverá ser realizada. Se após este percurso não se deteta uma situação patológica que justifique as queixas e se a fadiga continua a ser problemática para a vida diária do doente poderemos ter de pensar na Síndroma de Fadiga Crónica.

Síndroma de fadiga crónica

Esta síndroma, também designada por encefalomielite miálgica (EM) e múltiplos outros nomes (síndroma DaCosta, doença Akureyri, síndroma de esforço, neurastenia, síndroma de disfunção imune, doença da Islândia etc.), é uma doença descrita há longa data, mas de causa ainda desconhecida. Há um estado de fadiga persistente, sem causa aparente, não aliviada substancialmente com o repouso, acompanhada com outros sintomas como mialgias, artralgias, dificuldades cognitivas, sensação de exaustão física e mental, em indivíduos previamente ativos e saudáveis.

Nestes doentes são por vezes encontrados distúrbios do sistema nervoso central e autonómico, do sistema imune e do metabolismo, mas não se identificam alterações patofisiológicas que permitam um diagnóstico baseado em alterações objetivas.

A sua causa permanece desconhecida. Investigadores estabeleceram a hipótese de haver uma relação com a exposição a agentes tóxicos químicos, nomeadamente pesticidas, infeções prévias (particularmente a mononucleose infeciosa) ou a sobrecarga emocional, como fatores desencadeantes. Há frequentemente uma história familiar positiva, o que levou a admitir predisposição genética, mas todos os estudos foram inconclusivos.

Diagnóstico

A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o SFC/EM como doença neurológica. Não existem testes diagnósticos objetivos nem tão pouco bio marcadores específicos desta doença. A Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos propôs os seguintes critérios clínicos para o diagnóstico:

  • Fadiga persistente
  • Mal-estar após exercício
  • Sono não reparador
  • Problemas de memória e concentração
  • Intolerância ao ortostatismo (posição de pé)

Os sintomas não podem ser explicados pela presença de outra situação de doença. Estes doentes têm fadiga persistente e incapacitante, acrescida de dificuldade de concentração e, em 90% dos casos, também há queixas de cefaleias. São frequentes outros sinais e sintomas, como seja dores musculares e tendinosas, perturbações do sono, garganta inflamada, gânglios linfáticos tumefactos. Menos frequentemente, há problemas psiquiátricos, alergias, dores abdominais, perda de peso e, mais raramente, erupções cutâneas, taquicardia, aumento de peso, dor torácica ou suores noturnos.

Para se considerar o diagnóstico de SFC, a fadiga tem de estar presente pelo menos durante 6 meses, com intensidade moderada, substancial ou severa durante pelo menos metade desse tempo. Outros achados também são considerados como o mal-estar geral, após exercício físico ou esforço mental, dores em todo o corpo, sono não reparador, problemas relacionados com a memória e a concentração, bem como sintomas relacionados com intolerância ao ortostatismo. Os esforços e situações de stress agravam os sintomas, de forma imediata ou com efeito mais tardio. A fadiga não melhora significativamente com o repouso.

A SFG pode surgir em todas as idades mas, mais frequentemente, atinge adultos jovens e na média idade, sendo duas vezes mais frequente nas mulheres. A prevalência varia consoante os estudos, sendo referida de 7 a 3000 casos por 100000 adultos, sendo a sua incidência por certo subestimada.

Tratamento

Não há cura para a SFC. O objetivo do tratamento é reduzir os sintomas da doença e melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida. O tratamento inicial tem de ser individualizado, visando as queixas mais graves do doente. O tratamento de sintomas concomitantes como, por exemplo, a dor ou perturbações do sono é necessário. A depressão e a ansiedade podem ocorrer como consequência do SFC. Acrescente-se que tonturas e vertigens também podem ser sintomas perturbadores.

Múltiplos medicamentos foram usados ao longo dos anos. Desde antibióticos e anti virais a corticosteróides, imunoglobulinas, terapêutica biológica e outros foram ensaiados sem resultado. Quando em deficit devem ser administrados suplementos vitamínicos. Uma alimentação equilibrada com uma dieta que inclua a ingestão de frutas, vegetais e proteínas, com redução de ingestão de gorduras saturadas, açúcar e sal é importante para a melhoria do estado geral e bem-estar.

A redução de cafeina, álcool, nicotina e outros estimulantes também deve ser feita, visando uma melhor qualidade do sono. Estabelecer uma rotina do sono, dormindo e acordando a horas estabelecidas, cumprindo o número de horas suficientes é fundamental.

O papel do exercício

O exercício físico programado, de forma regular e gradual, também pode produzir bons efeitos em muitos doentes. Podendo exacerbar-se a fadiga e mal-estar após exercício físico e mental, contudo, é importante convencer os doentes a permanecerem ativos tanto quanto possível, evitando o agravamento da incapacidade de ter uma vida o mais normal possível.

 A capacidade de realização de esforço físico é variável, devendo ter indicações individualizadas de acordo com a tolerância. Deve ser estabelecido, em diálogo com o doente, o grau de esforço e a atividade possível na fase inicial, pretendendo-se criar um plano de um aumento gradual do tempo em que o doente deve estar fisicamente ativo. O doente deve ser encorajado a testar a possibilidade de intensificar o exercício mas, com bom senso e sem exagerar, mesmo que se sinta bem. O objetivo é a melhoria progressiva, sem criar falsas expetativas de retorno rápido às condições existentes antes da instalação da doença. Em simultâneo, saber programar períodos de repouso é fundamental.

Terapêutica cognitiva-comportamental

A psicoterapia dedicada a alterar padrões rígidos e disfuncionais de pensamento, pode ajudar a lidar com a fadiga crónica. As incapacidades crónicas exigem mudanças substanciais no estilo de vida prévio, requerendo uma estratégia para planear com cuidado as atividades de cada dia, de forma a guardar energia para as atividades mais importantes.

Os doentes com SFC são mal compreendidos. Os familiares e amigos e até por vezes os profissionais de saúde que contactam, não levam a sério a sua doença, o que gera sentimentos negativos de frustração e revolta e agrava a ansiedade e depressão. Frequentemente, eles próprios não entendem nem aceitam que não se consiga encontrar uma doença orgânica subjacente, tratável e curável, multiplicando consultas e exames médicos.

É importante que saibam que esta não é uma doença psicológica, mas sim uma doença reconhecida por entidades médicas insuspeitas. No entanto, o stress pode ter influência no desenvolvimento do quadro, pelo que procurar manter-se relaxado e evitar as fontes de stress e ansiedade na sua vida é desejável.  Evitar sobrecarrega de trabalho, quer em casa quer no emprego, aprender a partilhar e a delegar funções e a dizer que “não” sempre que se justificar são medidas que podem fazer a diferença.

É fundamental que entendam a sua situação e estabeleçam uma relação de confiança com o seu médico para ajudar a que fiquem calmos, acreditando que, apesar de a doença poder evoluir por longo tempo, não origina falência de nenhum órgão.

Deolinda Portelinha
(Médica com especialidade em Medicina Interna)

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