Seja por sobrecarga, seja por trauma, a lesão no joelho acaba por afetar os vários praticantes de atividade desportiva, independentemente da idade, modalidade ou intensidade. O prognóstico não tem de ser reservado, mas é condicionado pelo diagnóstico e tratamento

 

A atividade desportiva está na moda e ainda bem, porque são atribuídas inúmeras vantagens à realização do exercício físico: ajuda a combater patologias como obesidade, diabetes, hipertensão arterial ou stress; melhora a qualidade de vida, o sistema cardiorrespiratório, o ciclo de sono, o bem-estar físico e mental, etc. Existe um mas… O exercício físico deve ser ajustado à idade de quem o pratica, não tanto por falha da capacidade, mas antes pela necessidade de prevenir lesões.

A lesão desportiva também é uma realidade, mas não precisa de ser necessariamente uma consequência da prática desportiva, seja no desporto amador, profissional ou de alta competição. Estas lesões são causadas por traumatismo de diferente tipo, intensidade ou gravidade e o joelho acaba por ser uma das articulações mais lesada durante a prática desportiva, seja por trauma seja por sobrecarga. E quando uma lesão acontece é importante reter três pontos: o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico.

 

Em primeiro lugar, o diagnóstico é clínico e está dependente de uma história clínica e de um exame físico minuciosos. Para um diagnóstico correto é necessário ter conhecimentos da modalidade praticada, do treino, do piso onde é praticada, ambiente, condições climatéricas, calçado utilizado, gestos técnicos de repetição, cuidados básicos de hidratação e alimentação, períodos de treino e de repouso entre as competições e treinos, suplementos e medicação. Todos estes fatores podem ter influência no tipo de lesão ou mesmo no rendimento do atleta. A radiografia, ecografia, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) são exames que podem auxiliar no diagnóstico.

O tratamento que se seguirá deverá ser sempre individualizado. O tratamento imediato das lesões músculo-esqueléticos ou de qualquer outra lesão traumática de partes moles é conhecido como o princípio RICE (repouso, gelo, contenção e elevação) e tem como objetivo diminuir a hemorragia local, controlar a inflamação e melhorar a cicatrização.

 

O uso precoce de gelo (crioterapia) está associado a um menor hematoma local, menor inflamação e uma melhor cicatrização. Por isso da próxima vez que lhe recomendarem colocar gelo, não assobie para o ar, esta atuação é mesmo efetiva e necessária.

O prognóstico acaba por ser condicionado por todo este percurso, que começa com um diagnóstico rápido e correto, um tratamento adequado e um regresso ao desporto de forma gradual e adaptada. A prevenção das lesões é tanto ou mais importante do que tratá-las, mas nem sempre nem nunca e as lesões de sobrecarga ou overuse, normalmente, têm origem em microtraumatismos. Podem atingir os tendões, músculos, nervos ou até mesmo a cartilagem.

Estas lesões ocorrem de forma gradual e progressiva e são mais frequentes em desportos aeróbicos com treino repetido, longo e monótono (diferentes modalidades de corrida, ciclismo) ou em desportos com gestos técnicos repetitivos (ténis, salto em altura ou comprimento, lançamento de dardo). Neste subgrupo, podemos incluir diferentes patologias como a tendinite patelar (“jumper’s knee”), tendinite quadricipital, tendinite do semimembranoso ou fricção da banda iliotibial. O tratamento conservador (gelo, repouso, modificação do estilo de vida e fisioterapia) continua a ser a solução eficaz para a maioria destas lesões. A fisioterapia pode consistir em ultrassons, alongamentos e reforço muscular. Em casos selecionados, os “tapings” e as injeções de corticoides podem ajudar no tratamento. A necessidade de intervenção cirúrgica é rara e está reservada aos casos mais graves.

As lesões traumáticas são provocadas por traumatismos, normalmente únicos e violentos.

São frequentes em desporto de alta velocidade (desporto motorizado), com alto risco de queda (esqui, skate, snowboard) e em desportos coletivos com contacto (futebol, rugby, basquetebol e andebol). A dor é intensa e pode levar a uma paragem desportiva. Neste subgrupo, podemos incluir lesão de ligamentos (colaterais ou cruzados), meniscos

(rotura), lesões musculares ou mesmo fraturas. As lesões do menisco são relativamente frequentes e ocorrem normalmente com mecanismos de rotação entre o fémur e a tíbia

(por exemplo, o atleta que roda sobre o joelho com o pé preso). Por vezes, a lesão é acompanhada de um estalo e o joelho pode ficar inchado (derrame). O atleta poderá sentir dor, bloqueio ou falhas no joelho. A RM acaba por confirmar o diagnóstico e, uma vez mais, o tratamento deverá ser individualizado, mas nem todas as roturas do menisco são de tratamento cirúrgico. O tratamento inicial é conservador (RICE), contudo, as lesões instáveis têm indicação para cirurgia, que poderá ser uma simples menisectomia ou sutura do menisco, em casos muito selecionados.

O ligamento cruzado anterior tem um papel fundamental na estabilidade do joelho, muito importante para a prática desportiva. O mecanismo de lesão é em 2/3 dos casos sem contacto por movimentos de torção ou rotação. O atleta poderá sentir um estalo no joelho e a maioria vai apresentar joelho inchado (derrame).

 

Alguns testes clínicos são usados para testar a estabilidade da articulação, mas o exame de imagiologia mais importante é a RM, que nos permite a avaliação de patologias associadas, nomeadamente nos meniscos e cartilagem do joelho. O tratamento destas lesões, como em tantas outras, deve ser individualizado. Poderá ser de um simples RICE, reforço muscular ou tratamento cirúrgico com as suas diferentes técnicas. A instabilidade recorrente (falha do joelho), a realização de atividades desportivas com mudanças de direção, movimentos de torção ou desaceleração, podem ser uma indicação para tratamento cirúrgico. A idade cronológica não é impeditiva ao tratamento cirúrgico, sendo mais relevante a idade fisiológica, nível e tipo de desporto realizado.

 

Ugo Fontoura

(Médico Ortopedista)

 

 

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