O mecanismo de renovação/reparação dos tecidos biológicos demonstra que existe mesmo um limite. Seja em adultos, adolescentes, profissionais ou tão só praticantes. A prática desportiva exige atenção à sobrecarga

Citius, altius e fortius (mais rápido, mais alto e mais forte) foi o lema criado pelo pastor Henri Dion, adotado pelo Barão de Coubertin e utilizado como o lema dos Jogos Olímpicos, a partir da sua realização em 1924 (Paris). Para além de estimular a prática do desporto, desafia o ser humano a procurar os seus limites.

Mas, para além da superação permanente, existe um limite na prática desportiva? Quem acompanha o fenómeno desportivo, nomeadamente nas competições mais mediáticas, já deve ter lido ou ouvido notícias como “… não vai a jogo, devido a gestão de esforço”. 

Esta frase esconde uma realidade designada na literatura anglo-saxónica como overuse syndrome (síndrome de sobrecarga), patologia frequentemente associada aos praticantes desportivos de competição ou simplesmente de lazer, onde um determinado segmento corporal (mais frequentemente tendões, músculos ou ossos) apresenta alterações provocadas pela realização repetitiva e excessiva de determinados gestos.

Parece um contrassenso pois “se a função faz o órgão” como é que aparecem alterações provocadas pela sua utilização excessiva? A resposta é simples e tem a ver com as alterações no mecanismo de renovação/reparação dos tecidos biológicos. De uma forma simplificada, recorde o que sente quando passa uma noite sem dormir, por causa de uma festa organizada na sua vizinhança. Uma noite sem dormir supera-se, mas se forem muitas noites seguidas o nosso organismo começa a responder mal, ficamos irritados, temos falta de concentração, etc..

O mesmo se passa quando um tecido é submetido a gestos repetidos de forma cíclica, sem pausas adequadas para repouso. O seu processo biológico de renovação é encurtado e as suas células começam a produzir os componentes do tecido “mais fracos”, com menor resistência e qualidade. Isso implica uma menor capacidade para desempenhar adequadamente as suas funções, logo uma menor eficácia. Estas alterações são sucessivas e sequenciais, gerando um ciclo vicioso que, se não for interrompido, conduz à degeneração da estrutura do tecido e em última instância à sua rotura. 

As alterações atrás descritas, de forma sumária, dão origem a síndromes clínicos como tendinite, síndrome do túnel cárpico, dor anterior do joelho e fratura óssea de fadiga, entre outras.

Podem ser observados em regiões anatómicas como a zona pélvica (pubalgia), joelho (joelho do saltador, joelho do brucista), cotovelo (cotovelo do tenista, cotovelo do golfista). Estas alterações não são exclusivas dos adultos, também aparecem nos adolescentes, podendo causar dor e incapacidade para o desporto ou, no limite, arrancamento da estrutura óssea em que se inserem os tendões.

Na vida quotidiana, fora do desporto, também observamos situações de síndrome de sobrecarga em certas profissões que exigem gestos repetitivos ou mesmo em quem utiliza e escreve em teclados de computadores, por exemplo.

A investigação das causas de sobrecarga, o melhor conhecimento da biomecânica articular e a introdução de técnicas personalizadas de treino, têm contribuído para uma maior longevidade na carreira desportiva, evitando assim este tipo de lesão e, consequentemente, o abandono da prática desportiva. Onde estará então o limite? Na forma cuidada como gerimos o esforço e o repouso regenerativo, em suma … Em cada um de nós!

Fernando Fonseca
(Médico Ortopedista)

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