Nem sempre é uma distração e a perda auditiva pode ser a explicação. Tal como ressonar ou respirar pela boca não são normais em crianças. Os pais devem estar atentos aos sinais e sintomas. 

A saúde dos ouvidos, nariz e garganta das crianças é uma preocupação constante para pais e cuidadores. Muitas vezes, pequenas queixas aparentemente inofensivas – como uma criança que ouve mal, ressona à noite ou respira pela boca – podem esconder situações que merecem atenção médica. Entre os motivos mais frequentes de consulta encontram-se duas situações que, apesar de comuns, podem ter consequências importantes se não forem reconhecidas e tratadas: a otite média serosa crónica e a roncopatia (ressonar), por vezes associada à apneia obstrutiva do sono.

Otite média serosa crónica

A otite média serosa crónica é uma condição em que há acumulação de líquido no ouvido médio, atrás do tímpano, sem sinais evidentes de infeção. Este líquido interfere com a transmissão do som, levando a uma perda auditiva ligeira a moderada. A criança pode não se queixar diretamente de dor, o que leva a que o problema muitas vezes passe despercebido. Esta situação é especialmente frequente em idade pré-escolar, altura em que a tuba auditiva (o canal que liga o ouvido à parte posterior do nariz) ainda não está totalmente desenvolvida. Quando a sua função de ventilação é comprometida – por exemplo, devido a constipações frequentes, alergias ou aumento do volume das adenoides – o ouvido médio pode acumular fluido.

Sinais a que os pais devem estar atentos:

  • • A criança parece “distraída” ou não responde quando chamada;
  • • Aumenta o volume da televisão ou pede para repetir o que foi dito;
  • • Dificuldades na fala ou atraso na linguagem;
  • • Mau rendimento escolar.

Se não for tratada, esta perda auditiva prolongada pode interferir com o desenvolvimento da linguagem, aprendizagem e até com o comportamento social da criança. O diagnóstico é feito através da observação clínica e de exames como a timpanometria e a audiometria, adaptados à idade da criança.

O tratamento pode passar por vigilância em casos leves, mas em situações persistentes pode ser recomendada a colocação de tubos de ventilação no ouvido, para permitir a drenagem do líquido e melhorar a audição. É um procedimento simples e muito seguro, realizado em bloco operatório com anestesia geral.

Ressonar e apneia do sono

É relativamente comum ouvir os pais dizerem que o filho “ressona” ou “respira mal” durante a noite. Em muitos casos, isso é causado por um aumento das amígdalas ou adenoides, estruturas que fazem parte do sistema de defesa do organismo mas que, quando aumentadas, podem obstruir a via aérea e dificultar a respiração durante o sono. Ressonar de forma habitual, respirar pela boca ou ter pausas respiratórias durante a noite (apneias) não são normais em crianças.

Estes sinais podem indicar uma síndrome de apneia obstrutiva do sono, uma condição que pode afetar a qualidade do sono, o crescimento e até o comportamento da criança.

Sintomas de alerta:

  • • Ressonar frequente e intenso;
  • • Respiração agitada ou com pausas;
  • • Suores noturnos;
  • • Sono inquieto, com movimentos constantes;
  • • Cansaço durante o dia, irritabilidade ou dificuldade de concentração.

As crianças com apneia do sono podem ter dificuldades de aprendizagem, parecer hiperativas ou mostrar alterações de humor. O diagnóstico envolve a avaliação clínica cuidadosa, podendo ser necessário um estudo do sono (polissonografia), especialmente nos casos mais complexos.

Quando há sinais de obstrução evidente por amígdalas e/ou adenoides aumentadas, o tratamento pode incluir a sua remoção cirúrgica (adenoamigdalectomia). Esta intervenção, feita com grande frequência e segurança em idade pediátrica, tem um impacto muito positivo na qualidade de vida da criança: melhora o sono, a respiração, o comportamento e até o desempenho escolar.

A importância do diagnóstico precoce

É fundamental que os pais e educadores estejam atentos aos sinais de alerta. Muitas destas condições não causam dor nem febre, e por isso podem passar despercebidas durante algum tempo. Contudo, quando tratadas atempadamente, o prognóstico é muito bom.

A vigilância regular por parte do pediatra é essencial, mas quando há suspeita de alterações persistentes na audição, respiração ou sono, a avaliação por um otorrinolaringologista pode fazer a diferença.

Uma abordagem multidisciplinar

Em alguns casos, o acompanhamento destas crianças pode envolver também outros profissionais, como terapeutas da fala, alergologistas e dentistas especializados em ortodontia. O objetivo é sempre o mesmo: promover um desenvolvimento saudável e harmonioso.

Para reter:

  • • A otite média serosa crónica pode passar despercebida, mas prejudica a audição e o desenvolvimento da linguagem;
  • • Ressonar não é normal nas crianças e pode esconder problemas respiratórios importantes;
  • • A apneia do sono pode afetar o sono, o crescimento e o comportamento da criança;
  • • O tratamento adequado melhora significativamente a qualidade de vida da criança;
  • • O papel dos pais é essencial na identificação precoce dos sinais de alerta.

Cuidar da saúde auditiva e respiratória das crianças é garantir-lhes as ferramentas essenciais para crescer, aprender e comunicar. Nunca subestime sinais como ouvir mal, ressonar ou respirar pela boca. Um diagnóstico atempado e uma intervenção adequada podem mudar o futuro da criança – para melhor.

João Laffont
(Médico, Otorrinolaringologista; OM n.º 51811)

Deixar um Comentário