Terá sido a maior conquista da relação entre a engenharia e a medicina. O ouvido biónico ou implante coclear tem a capacidade de romper a barreira da surdez e de permitir o acesso ao mundo dos sons, transformando mensagens em sinais elétricos.

Foi em Coimbra, uma vez mais, que se começou a escrever a história dos implantes cocleares em Portugal. Há 27 anos, Manuel Filipe Rodrigues e Fernando Rodrigues foram os cirurgiões que arriscaram e que iniciaram a aplicação da técnica que permite devolver sons a quem nunca os ouviu ou àqueles que perderam essa capacidade, em um qualquer momento da vida. Antes e para que esta história pudesse ser contada, a engenharia e a medicina aliaram-se e conceberam o ouvido biónico, um aparelho eletrónico computadorizado que pode substituir o ouvido das pessoas com surdez total ou quase total.

Cada caso é um caso e não é de imediato que a equipa médica pode concluir que o implante coclear ou o ouvido biónico é a solução terapêutica para todos os casos de surdez, ou a diferença entre uma vida em silêncio e a entrada no mundo dos sons.

A nossa sociedade é, hoje mais do que nunca, uma sociedade de comunicação. A linguagem é a forma de comunicação por excelência entre o ser humano. Tudo o que prejudicar a aquisição e estruturação da linguagem oral, impedir ou limitar a sua utilização no quotidiano, ou limitar a utilização de telecomunicações, está a reduzir a possibilidade de um indivíduo desenvolver plenamente as suas capacidades intelectuais, de integração social, profissional e familiar. A perceção do mundo sonoro envolvente é também importante para a nossa segurança e para o nosso equilíbrio psicológico. Ouvir o meio ambiente dá-nos conforto e segurança.

No mecanismo da audição é o ouvido que desenvolve os processos necessários que transformam sons em sinais elétricos que o cérebro é capaz de entender. Num percurso normal, a viagem das ondas sonoras começa no ouvido externo, passando pelo canal do ouvido e tímpano, onde o som vibra, levando a mensagem amplificada ao ouvido interno, cóclea e nervo auditivo que, por sua vez, as entrega ao cérebro, agora na versão de sinais elétricos. Quando todo este percurso falha, instala-se a barreira da surdez. O regresso ou a primeira entrada no mundo dos sons pode passar pela aplicação de um ouvido biónico, o mesmo que, na maioria das situações de surdez total ou severa, pode resolver eletronicamente o mecanismo da audição.

O ouvido biónico é constituído por uma parte interna e outra externa e são os pequenos elétrodos colocados dentro da cóclea que conseguem estimular o nervo auditivo e fazer com que os sinais elétricos cheguem ao cérebro, razão porque a parte interna do aparelho é implantada por debaixo da pele, atrás da orelha. No exterior, um processador de fala, uma antena e um microfone são programados para selecionar e analisar os elementos sonoros e convertê-los em sinais elétricos, que são transmitidos por radiofrequência e captados na unidade interna do implante. Na prática, este é o equipamento eletrónico que a ciência concebeu para levar outros a entrarem no mundo dos sons, sendo-lhes permitido ter uma conversa ao telefone, ouvir uma campainha ou tão só socializarem.

Os critérios para a obtenção de bons resultados destacam dois tipos diferentes de potenciais candidatos, sendo possível a sua aplicação em adultos que já ouviram e falaram, mas que por uma qualquer razão (acidente ou doença) entraram no mundo da surdez profunda ou severa, mas também em crianças que nasceram com surdez profunda e, por isso mesmo, nunca ouviram um som, nem sabem falar. No caso dos adultos, o tempo em que este permanece no estado de surdez é um fator essencial para a obtenção do resultado final. Os bons resultados alcançam-se quando a fala ainda consegue estar retida na memória do cérebro e tenderão a diminuir se o tempo em que se vive no silêncio apaga essas recordações. No caso das crianças que já nascem no mundo do silêncio, o fator tempo continua a ser predominante para a obtenção de bons resultados. Até aos dois anos de idade, continua a ser apontada como a idade ideal para a colocação de um ouvido biónico, contudo, há já relatos de situações clínicas em que o implante coclear foi implantado numa criança com menos de um ano de idade. Para estas crianças, um mês após a cicatrização da cirurgia, começa uma nova fase que se pode prolongar até três meses ou mais e que se traduz pela entrada no mundo dos sons, um mundo novo e que por isso mesmo exige aprendizagem. As sessões de terapia da fala são essenciais para que esta criança venha a desenvolver as competências de linguística que, até então, não existiam.

No Centro Cirúrgico de Coimbra, os implantes cocleares são da responsabilidade de uma equipa cirúrgica: Carlos Ribeiro e Jorge Quadros (Otorrinolaringologia). O apoio técnico é da responsabilidade de Jorge Humberto (Audiologia) e Daniela Ramos (Terapia da Fala). Muitas vezes é ainda necessário alargar a equipa pluridisciplinar e incluir o apoio da Psicologia, Oftalmologia, Endocrinologia, Pediátrica e Genética, entre outros.

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