Entre o dormir demais e o não querer dormir, o ingrediente que pode regular este ritmo pode estar, tão só, numa sesta com regras e ao ritmo de cada criança e não quando dá jeito aos pais e a educadores de infância. Explicamos porque as crianças precisam dormir a sesta, durante quanto tempo, as vantagens e as nossas recomendações, sublinhando que a privação do sono tem implicações que ultrapassam a birra

O sono é uma função vital e um dos pilares da nossa saúde em toda e qualquer idade. Um bom sono contribui para o nosso bem-estar físico, mental e social. Frequentemente, o ser humano tem um sono monofásico, isto é, um período de sono único durante as 24 horas do dia. Mas este comportamento não inclui os primeiros anos de vida, em que as crianças começam por ter vários períodos diários de sono – sestas – que vão diminuindo gradualmente e o sono vai-se concentrando no período da noite.

Porque é que as crianças precisam dormir a sesta?

Fisiologicamente, o ritmo sono-vigília é regulado por dois processos:

1. O processo homeostático – determinado pela pressão do sono, isto é, quanto mais tempo se está acordado, mais sono se vai acumulando;

2. O ritmo circadiano (ao longo das 24 horas) – determinado por um relógio biológico que condiciona a organização interna do sono e o ritmo da alternância entre sono e vigília

(período de acordado); influenciado por vários fatores como, por exemplo, as refeições ou a alternância luz-escuridão.

As crianças mais pequenas são muito sensíveis à pressão de sono e assim os períodos de resistência ao sono são muito curtos (mais do que nas crianças maiores e adultos), tendo necessidade de dormir frequentemente.

Os recém-nascidos não têm ainda o ritmo circadiano estabelecido, estando o sono distribuído ao longo do dia e da noite e muito condicionado pela frequência das mamadas. Por volta das 12 semanas de idade começa a surgir a ritmicidade circadiana e, gradualmente, o sono começa a concentrar-se no período noturno durante o primeiro ano de vida, continuando assim ao longo da infância.

No segundo semestre do primeiro ano de vida, os lactentes fazem 2-3 sestas durante o dia, que habitualmente se reduzem a uma durante o 2º ano de vida. Pelos 4 anos, cerca de 50% das crianças ainda precisa de fazer uma sesta e 30% mantém essa necessidade até aos 5 anos de idade. Simultaneamente, ocorre uma diminuição gradual do tempo total de sono diário.

A idade pediátrica tem dois picos no que se refere à sesta. O primeiro, muito mais elevado, é o que ocorre até aos 5-6 anos, o segundo, é o que surge na adolescência, um período em que, por um atraso fisiológico de 1 a 2 horas, na secreção da melatonina (secreção promotora do sono), muitos adolescentes só conseguem adormecer bastante mais tarde. A necessidade de cumprir os seus horários escolares nas primeiras horas da manhã impede-os de completar o número de horas de sono necessárias durante a noite. Assim, este défice é muitas vezes compensado com uma sesta durante a tarde (e eventualmente ao fim de semana). Quando falamos na sesta das crianças é essencialmente ao primeiro grupo que nos referimos.

Quanto tempo devem dormir as crianças?

Muitos pais desconhecem as necessidades de sono dos seus filhos e, frequentemente, as crianças dormem menos tempo do que o recomendado para a sua idade, mesmo que nessa estimativa esteja contabilizado o tempo da sesta. Embora sabendo que pode haver alguma variabilidade interindividual, atualmente, as recomendações relativas ao número total de horas diárias de sono, que incluem sestas são:

1) Lactentes dos 4 aos 12 meses: 12 a 16 horas

2) Crianças de 1 a 2 anos: 11 a 14 horas

3) Crianças de 3 a 5 anos: 10 a 13 horas

4) Crianças de 6 a 12 anos: 9 a 12 horas

5) Adolescentes de 13 a 18 anos: 8 a 10 horas

Quanto tempo deve durar a sesta?

Os hábitos de sono (em que se inclui a sesta) das crianças pequenas são, para além dos fatores biológicos, determinados em grande parte pelos pais e cuidadores e modelados por fatores ambienciais, culturais e até raciais. Nas crianças afro-americanas o ritmo de redução das sestas é mais lento e dormem a sesta até mais tarde (aos 8 anos, cerca de

40% das crianças ainda dormem a sesta), embora o tempo total de sono diário seja o mesmo.

O tempo de sono da sesta é geralmente deduzido ao total de sono do dia. Se a sesta for muito prolongada ou muito próxima do sono da noite poderá implicar um período de sono noturno mais reduzido, com um tempo de adormecimento mais longo e/ou despertares noturnos frequentes. Pelos 2/3 anos de idade e quando já só dormem uma sesta, este período pode estender-se até às 2 horas e depois desta idade não deverá ultrapassar os 90 minutos. Estas são indicações gerais, porque havendo variabilidade entre as crianças, algumas podem deixar de necessitar da sesta antes dos 3 anos e outras continuam a dormir a sesta até depois dos 5 anos.

Em muitos infantários e creches em Portugal é retirada às crianças a possibilidade de fazerem a sesta depois dos 3 anos de idade o que as pode colocar em risco de privação de sono.

Como se manifesta a privação do sono?

O sono insuficiente ou de má qualidade tem impacto negativo em várias áreas da saúde física e mental, no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças bem como no bem-estar e dinâmicas familiares. Mais uma vez, a variabilidade interindividual pode justificar a diferença, entre crianças, de alterações secundárias à privação de sono.

Enquanto um adulto é capaz de identificar e expressar a sensação de privação de sono, a criança tem certas manifestações (algumas subtis) que podem ser de difícil interpretação, e para as quais é necessário estar atento:

– dificuldade em acordar de manhã

– hiperatividade e/ou impulsividade

– irritabilidade (birras)

– menor destreza motora com maior risco de quedas

– diminuição da capacidade de prestar atenção (confundida por vezes com a perturbação de défice de atenção e hiperatividade)

– dificuldades na memorização e aprendizagem

– humor variável

– falta de vivacidade e dificuldade nas conversas (dificuldade em encontrar palavras) nas

crianças mais velhas

– comportamentos de risco (crianças mais velhas e adolescentes).

A privação do sono pode mesmo ter consequências a longo prazo e tem sido associada a patologia psicológica e orgânica como a obesidade, a hipertensão arterial, a diabetes, entre outras. O efeito psicológico e a disfunção que a perturbação do sono das crianças pode causar nas famílias são ainda outros fatores importantes a valorizar.

A sesta pode trazer vantagens?

Um sono de boa qualidade e com a duração recomendada associa-se a uma melhoria da qualidade de saúde física e mental, nomeadamente ao nível da atenção, comportamento, aprendizagem, memória e regulação emocional.

A sesta parece promover a abstração, função particularmente importante no desenvolvimento cognitivo e da linguagem dos lactentes e crianças em idade pré-escolar, facilitando a aprendizagem. Nos três primeiros anos de vida, o cérebro da criança tem um crescimento mais rápido do que em qualquer outra altura da vida. Os períodos de sono mais frequentes facilitam a consolidação da informação a que, nesta idade, estas crianças são expostas repetidamente.

Quando é que a sesta pode ser retirada?

A dinâmica familiar é muito importante na organização das sestas e poderá ditar a sua supressão mais ou menos precoce. Se os pais têm um horário muito preenchido durante o dia, e a criança fica muito tempo no infantário podem preferir que a criança durma uma sesta em que tenha um período de repouso das atividades diurnas. Assim, à noite, poderá deitar-se um pouco mais tarde, dispondo de mais tempo para partilhar com a família. Mas se, por outro lado, a criança não fica tanto tempo no infantário, a família poderá optar por suprimir a sesta, deitar a criança mais cedo e assim dispor do início da noite para outros afazeres.

A grande variabilidade nos padrões e necessidades de sono das crianças determina também que o abandono da sesta ocorra a ritmos diferentes. Muitos pais pensam suspender a sesta na esperança de que a criança adormeça mais cedo e/ou que durma melhor durante a noite, mas frequentemente esta decisão acaba por resultar num aumento de resistência ao deitar, de problemas do comportamento e do sono.

Há que saber distinguir entre necessitar de dormir a sesta ou não a querer dormir. Algumas crianças lutam simplesmente contra a sesta porque estão sempre ansiosas por explorar o ambiente e não quererem perder um minuto de atividade. Embora sabendo que a criança beneficia com a sesta e que para os pais ou cuidadores pode representar um período de pausa e reposição da sua própria energia, sabemos que a sesta não vai continuar para sempre. Assim, deve-se estar atento aos sinais e não suprimir a sesta antes do tempo certo. Antes da sua supressão, pode-se tentar algum ajuste em que, tanto a criança como os pais poderão beneficiar.

São sinais de que a criança pode já não estar a precisar de fazer a sesta, se tiver:

– grande resistência ao sono da sesta (mais de 30-40 minutos)

– maior dificuldade no adormecimento à noite

– sono noturno com mais despertares e/ou acordar matinal bastante mais cedo do que era habitual

– capacidade de passar todo o dia acordada mantendo atenção, humor e atividade sem necessidade de fazer uma sesta.

Num período de transição, em que a criança já não dorme a sesta, devem ser-lhe fornecidas condições para ter um tempo de sossego/calma com a justificação de que precisa de descansar para ter energia para brincar mais tarde. Poderá ir para o quarto e levar alguns livros ou brinquedos, pintar desenhos, ouvir música calma, para se entreter sem que esteja envolvido em brincadeiras mais ativas. Quando a criança já não dorme a sesta pode ser necessário antecipar um pouco a hora de deitar.

Recomendações

A otimização das práticas do sono da criança é fundamental para o bem-estar da criança e da família. Assegurar que a criança recebe uma quantidade suficiente de sono de boa qualidade nos momentos apropriados, de acordo com as suas necessidades individuais deve ser uma prioridade da saúde da criança.

• Faça do sono uma prioridade; respeite o horário da sesta e não programe atividades para esta hora

• Se possível aplique a rotina de hora de deitar à noite

• Evite as sestas erráticas (a qualquer hora)

• Não prolongue em demasia o tempo da sesta nem a aproxime da hora de deitar

• Em creches e infantários, o programa da sesta de cada criança deve ser estabelecido de acordo com a família

• A possibilidade de fazer a sesta deve ser mantida até à idade escolar

• No período de transição, substitua a sesta por um período de acalmia.

A sesta das crianças é uma questão atual, que tem motivado alguma discussão na sociedade civil. A inexistência de regras sobre a sesta com a consequente falta de uniformização a nível dos estabelecimentos públicos e privados, particularmente a partir dos 3 anos de idade, levou a que a Sociedade Portuguesa de Pediatria, apoiada pela Associação Portuguesa de Sono, tivesse publicado em 2017 umas recomendações sobre a sesta: “Prática da sesta da criança nas creches e infantários públicos e privados”. Estas recomendações estão na base de projetos de resolução, apresentados, em 2018 e 2019, por dois grupos parlamentares em que recomendam ao Governo a implementação da prática da sesta na educação pré-escolar.

Se dúvidas ainda houvesse sobre a questão “Dormir a sesta, sim ou não”? A nossa resposta é: Sim, por favor!

Maria Helena Estêvão
(Médica Pediatra com Competência em Medicina do Sono)

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