A Medicina lida com um ser muito complicado e constantemente sujeito a variações no seu funcionamento, mas que lhe permitem manter o seu equilíbrio interno e assim sobreviver. Como encarar tudo isso, para poder corrigir o que corre mal? No seu todo, nas partes, parte a parte?

O ser humano tem uma fisiologia muito complexa, com os órgãos e sistemas que o compõem profundamente inter-relacionados, funcionando de maneira concertada e dependendo uns dos outros, das mais variadas maneiras. A fisiologia assenta basicamente em mecanismos de feedback, ou de retroação, um pouco como o ar condicionado faz para manter a temperatura pré-definida num espaço: aquece se a temperatura baixar, arrefece se a temperatura subir. Traduz isso uma capacidade de adaptação individual, assente numa variabilidade sempre presente, com variações sucessivas nas “constantes” fisiológicas mensuráveis de cada um (frequência cardíaca, pressão arterial, respiração, diurese, composição urinária, etc….), de modo a poder manter-se em cada momento o equilíbrio e constância do nosso meio interno. Quer dizer, também na fisiologia, como noutros casos de sobrevivência (na política, por exemplo…), para a nossa sobrevivência pessoal é preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma…

Por isso, na observação de cada indivíduo em vários momentos os dados obtidos podem ser muito diferentes, embora habitualmente dentro de limites de variação, chamados fisiológicos. Esses valores diferentes significam capacidade de adaptação fisiológica, condição para manter a vida. Acontece que, em dadas alturas, essas variações podem ultrapassar os limites tomados como normais, mas eventualmente significando, não uma doença em si mesmas, uma adaptação do organismo, em feedback, a uma agressão não conhecida. E corrigi-las sem resolver essa agressão pode levar ao fracasso da resistência do organismo, traduzida precisamente por essas variações.

Disto se depreende que nem sempre é fácil saber se alguém à nossa frente está doente ou não, ou de que doença padece. É preciso ter a capacidade de perceber o quadro clínico completo, o que se está a passar, quer do ponto de vista fisiológico, quer fisiopatológico e patológico, para se fazer um diagnóstico e depois estabelecer o seguimento e tratamento necessários. Dada a imbricação do funcionamento dos vários órgãos e sistemas, é preciso conhecer-se bem a sua fisiologia, e a fisiopatologia possível, e isso tem de ser o objeto de quem é médico. Dessa complexidade enorme o médico não pode, pois, conhecer apenas uma pequena parte, há que ter dela uma visão ampla e inclusiva.

Entretanto a Medicina, mantendo-se embora uma arte profundamente baseada na experiência clínica do médico e na sua empatia com o doente, desenvolveu muito o seu aspeto científico, na área experimental, na bioquímica, mas sobretudo com a incorporação de muita tecnologia, que implica treino para poder ser usada com eficácia. Há, portanto, hoje em dia, a ideia de que é necessária super- especialização do médico numa dada técnica, de forma a poder executá-la o número de vezes que se julgue necessário para a sua prática correta. A repetição é fonte de aperfeiçoamento, sem dúvida, embora se recorde que uma técnica que seja tão difícil de executar que, por isso, esteja ao alcance apenas de uns poucos executantes mais habilidosos, acabará por desaparecer naturalmente, substituída por outras mais fáceis com o mesmo resultado.

Quer dizer, a medicina, depois de dividida em especialidades, tem vindo a fragmentar-se em superespecialidades, dedicadas a pequenos pormenores dentro de cada uma delas. Dizia-se que um especialista “sabe cada vez mais sobre cada vez menos”; um superespecialista, no limite, “saberá tudo sobre quase nada”! É claro que não se põe em causa a necessidade da dedicação a uma dada matéria, para se conhecer e praticar melhor, mas não se pode esquecer que se fala de médicos, que tratam seres humanos, fisiologicamente muito complexos, e que a medicina é muito mais que uma técnica. É muito importante primeiro ser médico, e depois não o deixar de ser à medida que se vai evoluindo para especialista, e daí para uma superespecialização. O que é perigoso e se deve combater é querer ser superespecialista saltando etapas, esquecendo a medicina, menorizando a especialização, limitando o estudo e a formação logo desde o início. Tornando-se no que eu chamo de “subespecialista”: um superespecialista que não chegou a ser especialista!

Numa matéria muito complexa, quem sabe só duma pequena coisa nem dessa sabe bem. Porque tem dificuldade em enquadrá-la num conjunto que em grande medida desconhece em pormenor. E essa dificuldade na medicina manifesta-se sobretudo na fase de interrogatório do doente e da sua observação, na procura orientada de sinais e sintomas, na colocação das hipóteses de diagnóstico, sempre que ele não acompanha já o doente (costumo dizer que não se pode diagnosticar uma doença que não se sabe que existe, ou que sintomas dá!), e no diagnóstico final, para daí partir então para o tratamento adequado.

Por outro lado, e por isso mesmo, há a chamada translação de conhecimentos. O que se aplica numa área pode também ser aplicado e desenvolvido noutras, preferencialmente pelas mesmas pessoas, com o know-how obtido num lado e levado para outro, poupando muito tempo de trabalho e ampliando muito a experiência pessoal, com progressos globais muito mais rápidos e seguros. E não necessitando de tantas repetições do mesmo ato único, outrossim mimetizado numa variedade de situações diferentes, e permitindo que o mesmo médico, possuidor assim de mais recursos técnicos para cada uma, esteja em condições de resolver um conjunto variado de complicações da sua atuação. Um exemplo claro disso envolve uma figura notável da cirurgia portuguesa, e deste Centro, da cirurgia geral, da urologia, do transplante renal, do transplante hepático, o Prof. Linhares Furtado. Começou por ser especialista de cirurgia geral, estendeu o interesse depois à cirurgia urológica, daí para o transplante renal e, juntando tudo, para o transplante hepático e a cirurgia hepática. Quanto não avançou por ter conhecimento de todas essas áreas! Como lhe seria difícil hoje em dia poder fazê-lo… e não por falta de capacidade, obviamente!

Muitos outros exemplos se podem indicar, a cada canto da medicina. O tratamento endoscópico de veias perfurantes insuficientes nos doentes com varizes, tecnicamente ao alcance fácil de cirurgiões gerais que pratiquem cirurgia laparoscópica. Cirurgia endoscópica da glândula suprarrenal por via retroperitoneoscópica, para quem faça simpaticectomia lombar por essa mesma via. Uso do laser no tratamento de hemorroidas, substituindo a cirurgia aberta, para quem usa o mesmo laser para tratar veias varicosas. Etc. etc.

Em resumo, é fundamental que os médicos continuem a exercer medicina com os seus doentes, como uma arte, que passem a especialistas em diversas áreas, e alguns se superespecializem depois em matérias mais restritas. É esta formação que é preciso manter na medicina, inclusiva, complexa, abrangente. Mais difícil sem dúvida que estudar apenas um capítulo dum livro e saber tudo sobre ele… Mas os doentes agradecem.

Carlos Costa Almeida
(Médico especialista em Cirurgia Geral e em Cirurgia Vascular)

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