Muitos passam despercebidos, mas isso não é sinónimo de menor gravidade ou sofrimento. Um doente psiquiátrico tem uma perturbação que vai para além do corpo. Pode ser uma lesão no Sistema Nervoso Central ou pode ser o resultado de uma segregação e de estigmas, gerados pela sociedade da exaltação do sucesso e prazer

Quando pensamos em escrever sobre este tema, desde logo se levantou a primeira dificuldade: o que entendemos por doente psiquiátrico? Poderemos encarar a situação pela visão clássica do doente com doença grave e bem assim, todos os portadores de sintomatologia que altere a sua relação consigo próprio e com o mundo circundante. Mas, para sermos mais corretos e rigorosos, temos que incorporar também todos os cidadãos que sofrem psicologicamente por terem uma alteração mental, mesmo que transitória.

No dizer da OMS, doença são todas as situações de falta de bem-estar físico, mental e social, mas convenhamos que o subjetivismo do bem-estar não é fácil de ser standarizado, variando de acordo com muitas particularidades e circunstancialismos de cada uma das pessoas. Deste modo, não se podem criar indicadores de saúde pública que nos ajudem a avaliar as sociedades sobre a prevalência de doentes deste foro e da qualidade de vida que usufruem.

Pensamos que no meio destas e outras dificuldades, temos que conceptualizar a doença mental fora do velho paradigma positivista, que tenta explicar toda a patologia pela visão puramente organicista, e dar-lhe um sentido mais lato, que incorpore a compreensão do homem, das suas vivências e contextualizá-lo no seu meio cultural e social.

Ao considerar a patologia mental temos que dizer que há fundamentalmente uma alteração da homeostasia do homem como um todo e também da relação com o mundo que o rodeia, seja físico, psicológico ou ambiental, dando realce às suas vivências e à forma como as exprime.

Esta forma de entender a doença, pressupõe que a possamos considerar como uma perturbação que vai além do corpo e abrange, como a clínica nos diz, as relações interpessoais, os contextos de vida, as coisas boas e más que vamos vivendo no nosso particular trajeto existencial.

Por outro lado, há um conjunto de particularidades que a sociedade tem gerado, como a exaltação do sucesso, do prazer, com a recusa do fracasso e a premência do consumo, que por si criam um cadinho de emoções e motivações que modelam o homem de hoje, formatando-o como o vencedor, o bonito, o sedutor, o feliz. É aqui que o individualismo impera e os mais vulneráveis não resistem. A segregação, o estigma e todo o cotejo de violências a que ficam sujeitos, vão ditar toda uma nova patologia social de exclusão e descriminação, cujas manifestações mais evidentes estão plasmados no tráfego de seres humanos, na violência de todos os géneros, nos sem-abrigo, no desemprego e miséria.

Diríamos que numa sociedade como a portuguesa, onde se generalizam as carências, há concomitantemente um outro desequilíbrio mais gritante que se verifica entre camadas significativas de pessoas a viver mal e uma faixa muito pequena de pessoas com boas condições de vida. Esta realidade indicia um capital social pobre, entendido este como o conjunto de recursos humanos disponíveis para o desenvolvimento da sociedade.

Neste contexto, seria expectável haver grande conflitualidade, e ao contrário, o grau de coesão social tem sido uma defesa em tempo de crise, uma prevenção e afirmação de paz. Provavelmente não será estranha a tradição de cooperação, de solidariedade onde se destacam as associações de voluntariado, que reforçam as relações sociais e o interesse na vida cívica do país.

Sabe-se que a vulnerabilidade às doenças e à doença mental, em particular, é potenciada por fatores de ordem social, sendo que outros, como a hereditariedade e a personalidade, podem funcionar como predisponente tanto no acentuar de vulnerabilidades como na construção de resiliência a estas patologias.

O modelo médico dá-nos uma visão da doença como resultado do cruzamento de fatores biopsicossociais, mas também uma perspetiva de abordagem eclética nos aspetos explicativos. Igualmente nos planos terapêuticos e nos processos reabilitativos permite-nos a sua utilização para perceber como as pessoas podem ter uma doença, que pode ser resultado de uma lesão do sistema nervoso central ou de uma experiencia subjetiva traumática ou mesmo somente a consciência de uma condição de vida.

É nesta perspetiva que a Psiquiatria não deve ocupar-se só de uma doença grave como a esquizofrenia ou a perturbação bipolar, mas também de um conjunto de pessoas com mal-estar e/ou grande sofrimento, onde podemos incluir as vítimas de violência, os quadros com origem em situações de stress intenso, as situações decorrentes de lutos, bem como das pessoas a consumirem substâncias aditivas.

Bem sabemos que nem todos têm mau prognóstico ou são detetáveis pela população, e não raro, uma percentagem significativa passa despercebida, mas isso não é sinónimo de menor gravidade ou sofrimento.

De qualquer das abordagens que se fazem em relação ao impacto que estes aspetos têm nas sociedades, é seguro dizer que o têm a nível económico, a nível dos cuidados de saúde e na qualidade de vida dessas pessoas. A agravar esta realidade, temos estudos que mostram que 50% deles acontecem antes da sua adolescência, uma percentagem significativa não procura tratamento e no geral são pessoas que sofrem descriminação a vários níveis. Numa altura da vida em que tudo se inicia e se programa, a doença ou o sofrimento psicológico podem ditar uma perspetiva da vida pouco animadora, ou mesmo estigmatizar e descriminar esses jovens.

Nós, cuidadores, teremos no nosso agir que estar atentos às necessidades do doente, à sua dependência em relação aos cuidados de saúde, mas também a outros condicionantes, onde se inscreve a família, o emprego, a sociedade em geral. A dignidade do homem passa pelo seu direito à saúde, e a outros direitos que dão a vivência de uma cidadania plena. Nessa perspetiva teremos que fazer todos os esforços para lhe incrementar os níveis de autonomia, utilizando o nosso saber e competência, mas igualmente mobilizando os atores sociais para essa tarefa.

Em todos os doentes se põe o problema da reabilitação e da sua integração na vida social, familiar e profissional; para que isto possa acontecer é necessário que possamos encarar a destigmatização, as falsas crenças, o medo do desconhecido e da imprevisibilidade e, fundamentalmente, da perigosidade atribuída a essas pessoas. O estigma vai ditar comportamentos discriminativos e atitudes de exclusão destes doentes, mas também influenciam o abandono dos tratamentos, a falta às consultas e a não procura dos tratamentos.

O Pacto Europeu para a Saúde Mental (2008), considera que o nível de Saúde Mental dos países europeus é uma componente chave do sistema social que é apanágio do sucesso da União Europeia e preconiza que os cuidados de saúde devem prevenir a exclusão, a estigmatização e a descriminação em geral.

É nesse sentido que devemos adaptar as estratégias que combatam estes fenómenos, quer através da denúncia de casos, mas também pela educação, pela melhoria dos tratamentos e por uma correta política de integração do doente com patologia psiquiátrica.

Na saúde mental, tal como dissemos atrás, não basta tratar a perturbação que observamos; é importante considerarmos as particularidades de cada caso, olharmos as vivências, as dinâmicas sociais e contingências da vida, para equacionarmos estratégias de reabilitação e integração da pessoa. A integridade e autonomia que em muitas perturbações ficam comprometidas por deficits, devem ser potenciadas como única forma de o doente atingir a sua liberdade e livre arbítrio.

Esta integração começa logo a nível cultural, facilitando as relações interpessoais, abordando as particularidades da doença, combatendo os efeitos colaterais da terapêutica, fomentando os cuidados de proximidade, evitando as ruturas familiares.

Finalmente, deveremos atender aos aspetos profissionais, defendendo o emprego, aumentando a formação profissional e acelerando a sociabilização. Defendemos mesmo aqui a descriminação positiva para as empresas que facilitem postos de trabalho mais adequados às particularidades desta população.

Conhecemos as dificuldades em acabar com os estereótipos culturais que marcam a história das civilizações, mas pensamos que nesta época de exaltação dos direitos humanos e da defesa de comportamentos éticos, é também tempo de impormos programas pela verdadeira autonomia e cidadania das pessoas com perturbação a nível da saúde mental.

Aproveitemos esta data, que nos lembra a Saúde Mental, para alterarmos posturas e comportamentos no sentido da modernidade e do humanismo.

Reis Marques

(médico psiquiatra)

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