É com eles que sentimos o mundo, no entanto, são eternamente esquecidos. Lembramo-nos que existem quando doem ou quando estão frios. De resto, este é um assunto para esconder

Raros são os casos das pessoas que gostam de exibir os seus pés. A maioria esconde-os. Seja porque são “feios”, porque existe um dedo torto ou tão só porque os calos teimam em ficar proeminentes. E, no entanto, é com eles que sentimos o mundo e é com eles que existimos, tal como somos. Passeamos, corremos, saltamos, subimos escadas, ficamos parados ou sentados, mas sempre com os pés assentes no chão. (exceção para o pino…)

Apesar desta enorme responsabilidade, os pés continuam a ser eternamente esquecidos. Lembramos que existem quando doem ou quando estão frios.

Claro que os tapamos ou protegemos com sapatos, botas e sapatilhas (ou ténis à maneira lisboeta…) e meias variadas. O design e a criatividade para o que se usa nos pés tem sido uma constante, como se houvesse necessidade de esconder e embelezar o que já por si é arquitetonicamente bem concebido para aguentar o peso e nos permitir sentir o mundo.

E, apesar dos sapatos de “marca” ou de supermercado e das meias, mais ou menos grossas, as queixas aparecem e, com elas, as alterações da pele:

  • Hiper-hidrose (excesso de sudação);
  • Micose habitualmente interdigital, com ou sem exsudatos, com ou sem cheiro);
  • Hiper-queratose plantar ou dos calcanhares (espessamento da camada mais externa da epiderme, que pode fissurar e que traduz excesso de pressão localizada);
  • Calosidades do dorso dos dedos (mais comum nos 2º, 4º e 5º dedos que traduzem fricção local pelo calçado e que habitualmente se acompanham de alterações ósseas);
  • Verrugas (infeção pelo vírus do papiloma humano);
  • Deformidades dos dedos;
  • Deformidade da arcada plantar (suporta forças de compressão, por isso é formada por peças ósseas. Alterações que levam a pé plano ou pé cavo);
  • Deformidade por artrose como em qualquer articulação do corpo.

Às alterações da pele, ainda teremos de somar as alterações nas unhas, aliás, uma das causas mais comum de consulta em ortopedia. A publicidade intensiva, principalmente a partir da Primavera, de múltiplas ofertas de cura para a micose das unhas, leva a que, pelo cansaço da manutenção do problema e, apesar das promessas milagrosas, o problema se mantenha e, normalmente, é nessa altura que recorrem à ajuda médica.

A micose das unhas é um problema muito comum e, se a situação se prolonga no tempo, será necessário alguma paciência, até porque todos os produtos publicitados são ineficazes até à remoção mecânica da unha doente. Uma remoção que terá de ser repetida até que a unha cresça completamente sã e, regra geral, isso acontece sem que seja necessária a extração da unha.

Mas este não é o único problema das unhas. Ainda deveremos acrescentar a infeção e o encravamento dos bordos, uma situação que é urgente tratar, pela dor que provoca e pela incapacidade de usar calçado, mas também a unha espessada e alterada (muitas vezes associada a micose) e a unha aumentada e deformada, que provoca uma dor intensa. Neste último caso, a situação pode estar a ser provocada por um tumor glómico ou exostose sub-ungeal da falange e o tratamento terá de ser cirúrgico.

Mas, repare, se os pés são a base de sustentação do nosso corpo e se lhe damos trabalho durante inúmeras horas, não deveríamos compensá-los com cuidados especiais? 

Apesar de a pele dos pés ser mais resistente e mais espessa, por comparação com a pele de outras áreas do corpo, isso não impede que a sola ganhe calosidade. Por isso a importância de esfoliar e hidratar.

Note que o uso de sapatos apertados e pouco arejados (para além do salto alto) promovem o aparecimento de calos, que mais não são do que uma reação da pele ao atrito. Mas se já chegou a um ponto em que não consegue evitar a dor de pés, sugerimos que consulte um especialista e sim, a ortopedia também tem esta subespecialidade específica, para os pés.

Gabriela Figo
(Médica Ortopedista)

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