
É uma convicção apenas, mas as diferenças culturais entre os povos do Norte e do Sul da Europa sempre despertaram a minha curiosidade. As diferenças vão muito para além do que a genética pode explicar ou do que a rosa-dos-ventos pode indicar. É possível unir o que a natureza desuniu? É. Haveremos de lá chegar.
A clivagem vai para além das explicações da geografia e assemelha-se a um destino traçado pela rosa-dos-ventos. A genética pode influenciar, mas não explica tudo. As diferenças entre os povos do Norte e do Sul da Europa sempre despertaram a minha curiosidade. Ainda hoje é notória a minha admiração pela disciplina, a organização, a forma como fruem o colectivo e, sobretudo, a autoconfiança dos povos nórdicos. A primeira vez que visitei um país nórdico, em 1986, amadureci esta minha admiração e não consegui evitar a comparação. Na altura, Lisboa era uma capital suja e desorganizada, onde a população, no seu atribulado quotidiano, atirava para o chão tudo o que não precisava ou a incomodava. Nas paredes e nos muros colavam-se milhares de cartazes, amontoados em camadas que desfiguravam a beleza da traça e da cor dos edifícios da cidade.
As viagens sucederam-se, amadureci e consolidei a convicção de que as diferenças eram muito mais do que genéticas. Com o passar dos anos, das viagens, das vivências e experiências mantive a admiração, mas perdeu-se o deslumbre pelo Norte.
Depois de passar uma boa parte do Inverno numa dessas cidades nórdicas, interroguei-me se toda aquela organização e disciplina admiráveis, seriam o resultado de escolhas ou, por outro lado, apenas o resultado de uma necessidade básica de sobrevivência. Retiradas algumas camadas de civilização, toda a tecnologia e o acesso ao conforto, poderemos imaginar o que terá sido sobreviver ao Inverno durante séculos, numa época em que morrer de frio e fome era uma realidade em território onde nada cresce nem floresce durante meses.
Só em comunidades, com muita determinação e muita organização terá sido possível ultrapassar, durante séculos, a dureza tão branca quanto escura de um inverno nórdico. Talvez tenha sido com a natureza do Norte que ganharam a consciência de que cada um tem o seu papel, a sua função e que cada um contribui para o funcionamento de uma sociedade equilibrada.
Acredito que foi a natureza implacável do Norte que os ajudou na criação e desenvolvimento de um Estado Social, com o respeito por cada indivíduo no todo. Foram os nórdicos que elevaram a democracia a um nível superior e têm sido eles, sem dúvida, o modelo e inspiração.
Mas, se as minhas primeiras viagens foram a Norte, as dos últimos tempos têm sido a Sul e foi aí que descobri a riqueza da arte, da criatividade, da invenção e da descoberta. É a Sul que a criatividade humana não deixa de me espantar, por mais que a conheça, que a estude e que a execute.
Foi a Sul e há milénios de anos que nasceram as mais variadas formas de arte, as letras e as ciências… A invenção da escrita, passando pelo astrolábio, pela descoberta de que a Terra não era plana mas redonda e que o Sol não girava à sua volta, juntando ainda o desbravar de mares e oceanos. Tamanhas façanhas facilitadas exactamente pelas razões inversas. A Sul não se morria de fome e de frio. Terra, água e sol com temperaturas amenas são, na maioria das vezes, sinal de vida e de crescimento.
Os povos do Sul puderam entregar-se ao esplendor da criatividade e da invenção, apenas porque não corriam o risco de morrer de frio e de fome durante o Inverno. Por outro lado, mesmo que quisessem, não podiam passar o Verão a organizar o que quer que fosse. O estado de dormência a que o corpo estava sujeito nos dias quentes pouco mais permitia que o viajar da imaginação e do exercício da dúvida. A maioria de nós, povos do Sul, ainda se deve lembrar seguramente do que era um Verão antes da disseminação do ar condicionado.
No meio desta “guerra”, aparentemente infindável, entre Norte e Sul, o segredo talvez possa estar no intrincar de cada diferença, no que cada um tem de melhor, e assim transformar a aparente utopia em realidade.
Eu pertenço ao grupo que lhe palpita que os resultados poderão ser mais surpreendentes do que alguma vez possamos ter imaginado, é a minha convicção. Da interacção e colaboração entre povos e nações, eliminando tão-somente a palavra supremacia, podem resultar verdadeiras obras de “arte humana”, com uma única marca.
Quem sabe se passadas mais algumas camadas de civilização, acabamos por chegar à conclusão que o coração está sempre a sul da razão e esta a norte do coração, porque a anatomia humana é perfeita.
Filipa Taipina
(musicóloga e terapeuta de Bowen)
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Parabéns pelo conhecimento e por no-lo transmitir. Desconhecedora eu, das belezas fora de portas, viajo nas palavras, nas paisagens colhidas pela objectiva ou retina de quem viaja. Magnífico. Texto.. Grata pela partilha..
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