Ver para crer não é a melhor solução, até porque a visão também é ilusão. O cérebro sabe inventar e os nossos sentidos nem sempre são de fiar.

A realidade pode e deve ser questionada ou, pelo menos, não devemos acreditar que há certezas inabaláveis. A realidade é apenas aquilo que cada um de nós constrói, usando os sentidos, experiências, intuição e, claro, um cérebro que assume o comando de tudo. Há limitações. Os limites começam nos próprios órgãos dos sentidos quando, por exemplo, só conseguem captar determinados comprimentos de ondas sonoras ou ondas de luz.

Os adeptos do “ver para crer” devem ser avisados que nem sempre é assim, nem pode. Aliás, se a visão é um dos sentidos que tem maior influência na nossa perceção do mundo, devemos ter presente que um estímulo visual pode, sozinho, influenciar as mensagens de outros sentidos, como a audição, mas não só, também nos pode enganar. Como? Grande parte do que vemos não é real, é uma ilusão criada pelo cérebro, que acaba por construir imagens, assentes na experiência e vivência de cada um.

Apesar de estar ao comando, o cérebro não tem capacidade para analisar todas as situações e realidade de uma forma racional, seria necessário muito mais energia para o fazer, mas os sentidos também não têm a capacidade de captarem todas as situações. A visão é um bom exemplo. Apenas a fóvea, que tem um milímetro de diâmetro e está localizada na mácula (retina) é que tem a capacidade de captar imagens com clareza e precisão. Ou seja, acabamos por ver e perceber detalhes, tudo o resto é criado e construído pelo cérebro.

Mesmo assim, o detalhe que captamos resulta de uma soma de imagens que os olhos vão captando, saltando de movimento em movimento, uma ação que é necessária para preencher a imagem, mas que nos deixa “cegos” durante 0,1 segundos, ou seja o espaço temporal em que – sem darmos conta – não recebemos informação visual. Contudo, o cérebro não deixa esses espaços em branco e preenche esses momentos com imagens criadas por ele. Na prática, nunca perdemos a sensação de movimento contínuo e de visão.

Válida é também a ideia de que a imagem que estamos a captar e que o cérebro interpreta e descodifica, não será o presente, mas sim o futuro. Ou seja, a informação que os olhos captam não é processada no imediato. A imagem terá de ser transformada em energia e enviada ao cérebro, via nervo ótico, um processo que por muito rápido que seja, acaba por demorar frações de segundo. Não nos apercebemos de todo este processo que existe por detrás da visão, precisamente porque o cérebro assume o comando e preenche os “espaços vazios”. Neste espaço de tempo, ou seja, nestas frações de segundo, o cérebro vai usar vários tipos de pensamento, rápido, intuitivo e sentimental, mas também recorre à memória e às experiências que já vivenciámos.

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