Um nódulo é sempre cancro? As mamas pequenas estão protegidas? Ou a pílula é um fator de risco? Ainda há vários mitos à volta de um problema que é de saúde pública e que marca a vida da mulher

 Está declarado que é um problema de saúde pública, mas ainda não caíram todos os mitos criados à volta do tema cancro da mama. Começa pela própria palavra, optando-se facilmente por nomear “aquilo”, em substituição da palavra cancro. Este não é um assunto só para Elas, mas é, essencialmente, um assunto Delas, porque o cancro da mama continua a marcar a vida de quem nasce mulher. A relação que se cria entre os estrogénios e as células neoplásicas tem permitido que o cancro da mama continue a afetar a vida de milhares de mulheres todos os anos.

Ainda não existe uma varinha de condão e não tem sido possível conseguido diagnosticar precocemente todos os cancros da mama. Se é verdade que o cancro da mama nem sempre é igual, além de ter diversas formas e diferentes velocidades de crescimento, também é verdade que as estratégias de prevenção primária ainda não foram estabelecidas. É o diagnóstico numa fase muito precoce ou, até, antes da malignização que pode fazer a diferença e este é um caso em que as novas tecnologias acrescentam as certezas necessárias. Na prevenção, a mamografia digital continua a ser o exame de eleição e, acoplada à tomossíntese, fornece maior sensibilidade e especificidade, conducentes a uma maior acuidade diagnóstica, diminuindo a necessidade de exames mais invasivos.

É o diagnóstico precoce que oferece a cura do cancro da mama em mais de 90% dos casos. É neste capítulo que a informação também assume um papel capital mas, para que tenha um efeito positivo, ainda é necessário deixar cair alguns mitos sobre o cancro da mama feminina. Mitos, que de geração em geração, quase assumem o lugar de verdades, quando na generalidade já foram desmentidos por evidências ou estudos científicos.

A população portuguesa ainda não está suficientemente informada e é frequente responsabilizar um traumatismo da mama ao desenvolvimento de um cancro, o que não é verdade. Em paralelo, ainda existe a ideia quase generalizada de que um cancro da mama passa, necessariamente, pelo aparecimento de um nódulo ou caroço, o que também não é verdade. Tal como é errada a ideia de que são fatores protetores dormir de soutien, substituir a mamografia e ecografia por um auto exame ou amamentar durante um tempo muito prolongado.

De sublinhar que o cancro também não escolhe as mamas pelo tamanho e não se instala mais facilmente em seios grandes ou pequenos, não existindo qualquer estudo científico que demonstrem a veracidade deste mito. Junte-se ainda a necessidade de desmistificar a ideia de que a pílula, a terapêutica hormonal de substituição ou os implantes mamários são sempre fatores de risco para o cancro da mama, porque não é verdade, ao mesmo tempo que deve reter a ideia de que a mastalgia ou dor na mama, continua a não ter qualquer relação direta com o aparecimento de tumores da mama, muito embora os cremes progestativo que algumas mulheres usam para um eventual alívio dessa dor ou tensão mamária, já possam acarretar mais riscos do que benefício.

Há ainda quem culpe o stress, nomeadamente profissional, pelo aparecimento do cancro da mama. Neste caso, a ciência ainda não desmistificou tudo. Se, por um lado, o stress diminui as defesas e a imunidade, também é verdade que não existem evidências científicas que nos permitam responsabilizar o stress pelo aparecimento ou desenvolvimento de cancro da mama…

Diversos estudos científicos têm demonstrado e comprovado alguns fatores de risco. As evidências demonstram que a obesidade na pós-menopausa é um significativo fator de risco para o cancro de mama, tal como a maior ingestão de bebidas alcoólicas destiladas e, ainda, a ausência de exercício físico, a que se pode juntar o facto de ter nascido mulher de raça caucasiana.

O risco pode também estar acrescido quando alguém na família direta já teve um cancro da mama, particularmente em idade jovem, cancro bilateral ou o familiar ser do sexo masculino. Neste caso, são os fatores hereditário e genético que atuam, podendo este risco ser determinado numa Consulta de Tumores Hereditários e de Genética Clínica. Foi por essa razão que a atriz Angelina Jolie tomou a decisão de se submeter a uma dupla mastectomia. Em Portugal, é também esta uma das soluções que os especialistas sugerem em casos de alto risco ou sempre que a genética tem certezas muito próximas da realidade.

Esta é uma decisão que terá de ser tomada individualmente e por pessoa maior de idade. Amanhã, 11 mulheres portuguesas vão receber a informação de que têm cancro da mama e quatro vão falecer desta mesma doença. É assim todos os dias. As estatísticas continuam a ter números demasiado elevados. Destes, mais de 90% podem ter cura, se detetados precocemente. Ainda não é isso que acontece.

 

Margarida Figueiredo Dias

(médica ginecologista)

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