Entre o dizer ao fazer vai uma distância que acaba por se traduzir em vazio e ineficácia. A recomendação e/ou prescrição do exercício físico é bem-intencionada e está justificada cientificamente. Mas, não basta mandar mexer o corpo, há outros fatores a ter em conta, é preciso construir pontes.
Falar de exercício físico continua, muitas vezes, a ser sinónimo de recomendações vagas: “tem que se mexer mais”; “vá ao ginásio”; “caminhe todos os dias”…, que, embora sejam bem-intencionadas, não deixam de ser orientações generalistas que pecam por não ser individualizadas.
A prescrição de exercício é também muitas vezes equiparada à prescrição de um mero medicamento, como se bastasse definir um tipo de exercício, a intensidade, a frequência e a quantidade de exercício adequados para obter os melhores resultados. Na verdade, a prática do exercício não se limita apenas ao movimento do corpo e, atualmente, deve ter em consideração muitos outros fatores, que se prendem com o contexto laboral, socioeconómico e familiar de cada um, bem como o estado geral de saúde (ou de doença). É precisamente neste contexto que surge a prescrição de exercício físico, enquanto ferramenta clínica estruturada e, integrada na consulta de Medicina Desportiva e do Exercício.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a realização de 150 a 300 minutos semanal de atividade aeróbia de intensidade moderada, ou 75 a 150 minutos de intensidade vigorosa, idealmente complementados com treino de força, envolvendo os principais grupos musculares, pelo menos duas vezes por semana.
Para além disso, recomenda a inclusão de trabalho de flexibilidade e de controlo neuromuscular, que é particularmente relevante na prevenção de quedas, na melhoria da mobilidade e na otimização da qualidade de movimento ao longo da vida. Estas orientações têm uma base científica sólida e são amplamente aplicáveis à população em geral. No entanto, pela sua natureza generalista, devem ser encaradas como um ponto de partida, e não como uma prescrição fechada.
Adaptação individual/melhor adesão
O primeiro passo na prescrição médica de exercício é a avaliação do estado global de saúde do participante, identificando situações clínicas que constituam uma contraindicação para a prática do exercício, ou que possam vir a ser agravadas pelo mesmo. Desta forma, é possível orientar de forma segura qual o tipo de exercício que deve ser praticado, mantendo o foco na adaptação individual a cada um, e na progressão de cargas e de objetivos específicos.
Fatores que devem ser tidos em conta na prescrição de exercício incluem (mas não se limitam a) história clínica completa, antecedentes desportivos, nível atual de atividade física, composição corporal, capacidade cardiorrespiratória e neuromuscular, presença de dor ou lesão, qualidade do sono, níveis de stress e objetivos pessoais. Em muitos casos, a avaliação inicial pode ser complementada por exames complementares de diagnóstico específicos.
Dentro dos componentes do treino essenciais a uma correta prescrição de exercício incluem-se o treino aeróbio, treino de força, treino de mobilidade ou flexibilidade, e treino de equilíbrio ou controlo motor. Todos estes componentes devem ser incluídos na prescrição, mas podem ser ajustados de forma dinâmica ao longo do tempo, conforme a progressão de cada um.
Outros componentes, igualmente importantes mas tidos muitas vezes como acessórios, incluem as estratégias de recuperação e de nutrição. Em determinados contextos, como na dor crónica ou em populações mais sedentárias, o foco inicial pode ser simplesmente restaurar a capacidade de movimento e a confiança no corpo.
Com a identificação de situações clínicas específicas é possível adequar a prescrição a cada indivíduo e programar o treino para metas concretas que sejam conducentes aos objetivos principais de cada um.
O mesmo diagnóstico/exercícios diferentes
Nem sempre um determinado diagnóstico é sinónimo de uma prescrição semelhante entre indivíduos. Por exemplo, duas pessoas com a mesma situação clínica, como hipertensão arterial ou excesso de peso, podem receber recomendações completamente diferentes, dependendo da sua condição física, limitações e contexto de vida. Até mesmo o tipo de exercício que cada um prefere e a experiência prévia com exercício ou desporto deve ser tida em conta, uma vez que a escolha de um exercício de que não gostamos é muitas vezes o suficiente para não conseguirmos cumprir o plano. Esta individualização é o que torna o exercício numa intervenção eficaz, segura, e exequível.
O acompanhamento médico neste processo possibilita ainda a integração de vários profissionais de saúde (médicos de outras especialidades, fisiologistas, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos) numa abordagem multidisciplinar.
Apesar dos benefícios para a saúde serem amplamente reconhecidos, a adesão ao exercício continua a ser um dos maiores desafios. Saber o que fazer nem sempre se traduz em conseguir fazê-lo de forma consistente. É por isso que a prescrição de exercício não se pode limitar à elaboração e simples execução de um plano técnico, mas também deve incluir estratégias de motivação, definição de objetivos realistas, acompanhamento e adaptação contínua. O contexto de vida da pessoa, as suas rotinas, preferências e barreiras são elementos centrais neste processo.
Em conclusão, a prescrição de exercício representa uma ponte entre a medicina e o movimento. Utiliza uma abordagem que reconhece o exercício como uma verdadeira intervenção terapêutica, com tipo, dose, indicação, contraindicações e monitorização contínua do seu efeito. Além de promover a prática de exercício, procura garantir que essa prática é eficaz, segura e sustentável ao longo do tempo.
Num mundo cada vez mais tecnológico com elevada prevalência de sedentarismo e de doenças crónicas, a individualização do exercício deveria ser uma exigência de cada indivíduo e do nosso sistema de saúde. A Medicina Desportiva e do Exercício pode ajudar a proporcionar isso mesmo, transformando o exercício numa ferramenta ajustada a cada um.
Diana Ferreira
(Médica de Medicina Desportiva e do Exercício; OM n.º 50136)
Eficaz em 26 doenças crónicas
A literatura científica atual demonstra que a prática de exercício físico é eficaz na prevenção e tratamento de mais de 26 doenças crónicas, pelo que é desejável para todas as pessoas de qualquer grupo etário.
A nível cardiovascular, contribui para a redução da pressão arterial, melhoria do perfil lipídico e aumento da capacidade funcional ou VO2max. No metabolismo, desempenha um papel central na regulação da glicémia, diminuição da resistência à insulina e na prevenção e tratamento da diabetes tipo 2.
A nível músculo-esquelético, promove a manutenção da massa muscular, densidade óssea e boa função articular. Para além disso, os seus efeitos estendem-se ao sistema nervoso, com benefícios na saúde mental, na cognição e na qualidade do sono.

Tabela 1. Doenças crónicas para as quais o exercício físico tem um papel relevante na prevenção ou tratamento,adaptado de Pedersen, B.K. and Saltin, B. (2015), Exercise as medicine – evidence for prescribing exercise as therapy in 26 different chronic diseases. Scand J Med Sci Sports, 25: 1-72. https://doi.org/10.1111/sms.12581

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