Embora a possibilidade de conceber seja, aparentemente, uma característica comum a qualquer pessoa, a infertilidade é um tema muito longínquo na história e os seus relatos remontam a escritos tão antigos como a própria Bíblia

Durante muitos anos o casal existia unicamente com o objetivo e a obrigação de ter filhos, para perpetuar o nome da família. Quando tal não acontecia, a falha era imputada à mulher, que era descriminada socialmente e catalogada como imperfeita. Hoje, já não é assim. Contudo, o desejo de ter um filho continua a constituir uma realidade fundamental da vida de uma grande parte das pessoas e, quando alguém decide que é o momento de concretizar esse desejo, normalmente, não imagina que pode confrontar-se com a questão da infertilidade.

A incapacidade de ter filhos é um obstáculo ao desenvolvimento normal do projeto de parentalidade e implica um grande grau de sofrimento psicológico e social.  Atualmente, já existe uma ampla gama de respostas terapêuticas para a infertilidade, que resultam numa esperança para os casais inférteis, mas não podemos deixar de valorizar a necessidade de adaptação a essas novas formas de conceção. Para grande número dos casais inférteis, a situação é de tal modo dramática que se dispõem a inúmeros esforços na tentativa de a resolver, transportando uma área de vida, que é do âmbito do absoluto privado, para uma área que partilham com vários técnicos de saúde, sujeitando-se a uma exposição “pública” considerável.

As dificuldades ligadas à infertilidade vão produzir uma vasta gama de efeitos do ponto de vista emocional. São muito comuns as descrições de medo, ansiedade, tristeza (por vezes profunda), raiva, frustração, vergonha…, sendo que esta é uma realidade que se pode tornar mais penosa à medida que decorrem os múltiplos procedimentos técnicos que, embora completamente necessários para a definição correta do diagnóstico e do tratamento, podem ser realidades vividas como muito invasoras. Como consequência, podem desenvolver-se situações muito fragilizadoras da vida e do bem-estar do casal, tanto na área individual, como a nível conjugal, profissional e social mais abrangente.

Se considerarmos a definição da Organização Mundial de Saúde que nos diz que saúde “é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, não se reduzindo a mera ausência de doença ou enfermidade”, percebemos facilmente que se olhe para a infertilidade como um grave problema de saúde, já que aumenta muito significativamente o sofrimento psicológico e social.

Embora não seja possível distinguir qual a causa de maior sofrimento, se a ausência do bebé que se deseja, se os sentimentos de fracasso e a angústia que invadem as pessoas, a infertilidade é sentida e vivida como um acontecimento traumático para a maioria dos casais, sendo muitas vezes descrita como a situação mais difícil do seu ciclo de vida.
Ana Beatriz Condinho
(psicóloga clínica)

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