Já é possível afirmar que os problemas masculinos estão presentes em aproximadamente 50% dos casais estéreis. As evidências têm vindo a demonstrar um declínio na qualidade dos espermatozoides e a explicação parece estar nos estilos de vida. A obesidade, o tabaco, o álcool e a idade alteram a fertilidade “deles”

A incapacidade de um casal, sexualmente ativo, sem a utilização de métodos contracetivos, obter uma gravidez dentro de doze meses, é o que se designa por infertilidade. É um fenómeno universal que atinge aproximadamente 9% da população em idade reprodutiva, independente dos fatores socioeconómicos ou culturais. Aplicando esse dado à população global, verifica-se que aproximadamente 700 milhões de pessoas podem ter problemas relacionados com a fertilidade.

As técnicas de procriação medicamente assistida têm vindo a ser aprimoradas ao longo dos anos e criam a possibilidade de ajudar a maioria dos casais inférteis a realizarem o sonho de terem filhos biológicos, porém menos de 50% dos tratamentos resultam em gravidez. O fator principal para determinar o sucesso de um tratamento de reprodução assistida é a qualidade dos gâmetas e dos embriões.

A análise espermática, também conhecida como espermograma, feita como rotina em praticamente todos os laboratórios de procriação medicamente assistida, analisa alguns parâmetros importantes e essenciais na avaliação da fertilidade de um indivíduo do sexo masculino, que ajudam a elucidar muitos casos de infertilidade conjugal.

Essa análise pode ser muito útil, tanto na clínica como em pesquisas feitas no esperma humano, para a investigação da fertilidade masculina, assim como a monitorização da espermatogénese durante a regulação da fertilidade masculina.

O fator masculino tem grande importância e impacto na fertilidade conjugal, sendo a causa de 30% dos casais inférteis, ao mesmo tempo que, em outros 20% dos casais, existem ambos os fatores masculino e feminino; consequentemente, pode-se dizer que problemas masculinos estão presentes em aproximadamente

50% dos casais inférteis. Evidências apontam para um declínio acentuado na qualidade espermática nos últimos 35 anos, fazendo aumentar o interesse em estudar os fatores ambientais e estilos de vida com potencial de prejudicar a fertilidade masculina.

O efeito de alguns estilos de vida, principalmente obesidade, consumo de álcool e tabagismo, são deletérios para o esperma. Alguns estudos sugerem que homens com índice de massa corporal (relação entre peso e altura) elevado podem apresentar disfunção eréctil, decréscimo da produção de androgénios e redução da qualidade espermática, assim como diminuição da integridade do DNA espermático.

A obesidade causa um aumento nos níveis de agentes oxidantes, e estes, por sua vez, estão associados a danos em biomoléculas celulares. Segundo alguns estudos científicos, a Europa ainda é o Continente com mais fumadores em todo o mundo, tornando o tabagismo um alvo importante de estudo neste contexto. O homem fumador apresenta uma redução da qualidade espermática (menor concentração de espermatozoides e uma percentagem de morfologias espermáticas anormais elevada), acompanhada pela diminuição do volume ejaculado.

Anomalias ultraestruturais, maioritariamente alterações no flagelo e microtúbulos do axonema, assim como alterações nos processos de capacitação e reação acrossômica, já foram relatadas em fumadores crónicos. As toxinas presentes no cigarro podem ainda alterar a atividade mitocondrial e a estrutura da cromatina espermática, afetando negativamente a fertilização, tanto in vivo quanto in vitro.

O consumo de álcool, tanto agudo quanto crónico, pode alterar os níveis de testosterona secretada, o padrão da espermatogénese e o volume das células de Leydig, assim como tornar definitivas as modificações epigenéticas (mudanças genéticas herdáveis que não alteram sequência de DNA) provocadas nos pais. O álcool tem um efeito negativo na integridade do DNA do espermatozoide.

O aumento da esperança média de vida ao longo do último século faz surgir questões relativas à redução da fertilidade com o avanço da idade. A influência da idade na qualidade do espermatozoide é uma questão que continua a ser discutida e estudada. A idade paterna avançada está diretamente associada à diminuição das formas morfologicamente normais e motilidade espermáticas, assim como ao aumento de danos no DNA.

Resumindo e concluindo, é possível afirmar que os estilos de vida têm influência direta na qualidade espermática, por isso é importante que seja feito um estudo personalizado de cada indivíduo, com intuito de sempre aprimorar a perceção das possíveis causas da infertilidade masculina e melhorar o tratamento dos casais inférteis que se submetem às técnicas de reprodução medicamente assistida.

Mariana Agatão (Embriologista)

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