Devia ser um brinde à saúde, mas não, é uma preocupação. Como médico e como cidadão. Não é de hoje este meu desassossego, que tem vindo a crescer pelo que vejo, pelo que ouço e pelo que sinto. Vou cingir-me ao que sinto, porque o que vejo e o que ouço está ao abrigo do sigilo médico. E o que sinto não é uma mera suspeita, é a minha opinião.

O Dia Mundial da Saúde, que amanhã se assinala, é por certo um momento para pensar no que é isso da saúde e qual a saúde que todos temos, versus a saúde que queremos. Porque, apesar de pequeno, o país continua a debitar muitos dados estatísticos, sem se perceber que os números que ali estão e que formam os belos gráficos, referem-se a pessoas, que somos todos nós, os portugueses. É este punhado de gente que decora as exímias folhas de excel, que uns e outros exibem, conforme as circunstâncias, interesses e vontades. São também estes mesmos portugueses que ainda andam a aprender a viver em liberdade, assimilando pouco a pouco o que são direitos e o que são deveres.

Parece-me óbvio que é um dever cada um de nós zelar pela sua boa saúde, tal como é um direito ter um acesso digno e imediato à saúde. Um acesso com regras claras, que separe o público do privado, e que não misture tudo num grande saco com a sigla PPP (Parcerias Público-Privadas), um acesso em que um qualquer cidadão possa escolher onde e por quem quer ser tratado, um acesso digno, responsável e onde não se adiem cirurgias porque faltam camas…

E o que é isto de ser bem tratado? A ética diz-me que a simpatia não pode substituir a competência, mas, por vezes, é mais fácil ser simpático do que competente. Quando falta informação e/ou cultura em saúde a confusão acontece. É conveniente que assim seja, porque a competência exige tempo, responsabilidade, investimento e, claro, uma mentalidade própria.

Crédulo, o cidadão acredita que a sua saúde (ou a falta dela) estará sempre em primeiro lugar. Acredita que ninguém coloca a contabilidade pessoal ou a estatística do serviço acima de qualquer outro valor. Acredita ainda em mais. Crê que todos estão empenhados e/ou motivados para encontrar a melhor solução para o seu caso clínico específico. É assim mesmo? Pergunto?

O Dia Mundial da Saúde é um bom dia para pensar nas respostas a esta pergunta…

Deixo uma sugestão, a Diabetes. Tem um dos mais antigos programas nacionais de saúde pública. O Programa Nacional de Controle da Diabetes começou na década de 70. Mas, em 2013, as estatísticas diziam que tínhamos uma prevalência de 13%, o dobro da EU. O número de amputações (pernas e pés) também aumentou e o número de doentes com retinopatia diabética nem é conhecido. Esses mesmos números dizem ainda que todos os dias morrem 13 pessoas com diabetes. Em dez anos, o número de mortes quase que duplicou. É esta mesma doença que está a afetar um milhão de portugueses, a que se juntam mais dois milhões em situação de pré-diabéticos. Os números não são meus, pertencem ao Observatório Nacional da Diabetes.

O que andamos a fazer à saúde?

António Travassos

(médico oftalmologista)

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