Não, ninguém está suficientemente preparado para uma doença neuro degenerativa e muito menos quando é complexa e se sabe tão pouco. Mas é isto que tem vindo a acontecer. Praticamente de 20 em 20 anos o número de diagnósticos duplica

A doença de Parkinson, tal como a doença de Alzheimer, são doenças neuro- degenerativas. Quer isto dizer que, por um mecanismo não completamente esclarecido, grupos seletivos de neurónios e em áreas específicas do nosso cérebro, iniciam um processo progressivo de falência, que leva à sua morte. E este processo de disfunção neuronal começa silenciosamente muitos anos antes de se tornar visível, muito anos antes de se traduzir num sintoma. No caso da doença de Parkinson são os neurónios dopaminérgicos (que produzem dopamina) que entram em falência, de tal forma que, quando as primeiras manifestações clínicas ocorrem, já se perderam cerca de dois terços desses grupos de células.

A doença de Parkinson foi descrita pela primeira vez em 1817, pelo médico londrino James Parkinson que, com notável espírito de observação, identificou e depois descreveu os principais sinais clínicos que a caracterizam, e que ainda hoje são o pilar em que assenta o diagnóstico da doença. Justifica-se porque a doença ficaria conhecida pelo seu nome.

James Parkinson, meticuloso e perspicaz clínico, observou detalhadamente algumas pessoas com quem se cruzava nas ruas. Reparou que apresentavam de comum uma marcada lentificação nos movimentos, o que interferia com o modo como se moviam e caminhavam, que tinham uma tendência para inclinar o tronco para a frente e que um movimento tremórico rítmico presente nos membros superiores fazia com que estes abanassem involuntariamente – o que o levou a batizar essa nova entidade de ‘The Shaking Palsy’ (paralisia agitante). Até então, a doença não tinha sido identificada e por isso não tinha obtido um lugar na classificação dos nosologistas, como ele próprio afirmou.

Passaram mais de 200 anos sobre esta brilhante narrativa inicial e imenso conhecimento foi adquirido e acumulado sobre a doença. No entanto, não o suficiente para se ter encontrado uma cura ou mesmo um processo de travar a sua inexorável progressão. Mas sabemos que, se era rara há dois séculos atrás quando Parkinson a descreveu, na Londres do início da revolução industrial, neste espaço de tempo, a doença está a sofrer um brutal incremento nos tempos atuais e a sua prevalência aumentou. Pior. Aumentou muito mais do que qualquer outra doença neurológica.

Sabemos que as doenças neurológicas na sua globalidade são agora a principal causa de incapacidade pelo mundo e, destas, a que mais está a aumentar é a doença de Parkinson. Os relatórios do domínio público (amplamente divulgados pelos serviços de saúde de vários países), referentes à carga global das doenças (Global Burden of Disease) revelaram que, entre 1990 e o ano de 2015, o número de pessoas afetadas com doença de Parkinson duplicou em todo o mundo e estão diagnosticados mais de 6 milhões de doentes.

Como sabemos que a longevidade está a aumentar, e estas doenças também estão ligadas ao envelhecimento, projeta-se uma nova duplicação deste número para o ano 2040. Este crescimento exponencial fez com que alguns cientistas a considerassem uma verdadeira `’pandemia´ conceito só utilizado para doenças que se propagam como as infecto-contagiosas. Pretendem assim demonstrar a sua preocupação pelo enorme crescimento e expansão da doença em todas as regiões do mundo.

E porque isto acontece? Não temos certezas. Mas sabemos que sendo uma doença complexa resulta da interação de fatores genéticos (que conferem risco acrescido para a desenvolver) e ambientais. O dramático aumento da sua prevalência parece estar ligado às modificações decorrentes da industrialização da civilização. Imensos produtos ambientais são reconhecidamente tóxicos, nomeadamente para o sistema nervoso central e alguns grupos celulares que, por serem muito ativos, são também mais vulneráveis. Existem evidências que associam os pesticidas, os solventes químicos e os metais pesados à toxicidade que, afetando os neurónios produtores de dopamina levam à doença de Parkinson. No entanto, apesar de legislação existente em muitos países a interditá-los, todos sabemos que estes ainda são comercializadas e utilizados, encontrando-se amplamente difundidos.

Os países que sofreram uma rápida industrialização nos últimos anos, viram a prevalência da doença de Parkinson aumentar. E, por exemplo, sabemos que nos últimos dez anos o número de doentes diagnosticados com doença de Parkinson duplicou na China. Ao mesmo tempo, as transformações dos hábitos alimentares e do estilo de vida das populações parecem ligadas ao acréscimo da doença, e daí o alerta que a comunidade científica vem fazendo para tentar prevenir e combater o que batizaram de ´ pandemia´, impedindo assim que seja inevitável.

Neste momento existem muitas armas terapêuticas que ajudam a controlar os principais sintomas da doença. Estão disponíveis fármacos eficazes e temos outras alternativas para os estádios mais avançados de doença, como a cirurgia de estimulação cerebral profunda, hoje bem implementada e que trouxe benefício comprovado na qualidade de vida dos doentes.

Dispomos de adequadas estratégias para tratar os sintomas de uma doença que é progressiva. No entanto, em simultâneo com o investimento que fazemos em todas as formas de abordagem terapêutica e na sua investigação, é necessário o mesmo esforço para incentivar a modificação do estilo de vida. Incentivar a prática de exercício físico diário, modificar os hábitos alimentares limitando a alimentação ultra processada, mas também combater o sedentarismo e o stress , tudo propósitos simples e essenciais a implementar como medidas que podem ser preventivas da doença.

Cristina Januário
(Médica Neurologista)

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