
Do tempo da “arte das musas” aos dias de hoje, o som passou a ser ruído. Acreditamos que ficamos bem acompanhados e remetemos o silêncio para o vazio.
Terão sido os sons da natureza que inspiraram os primeiros sinais de música durante a pré-história. Na antiga Grécia, significava a “arte das musas” – musiké téchne, expressão que deu origem ao termo música, a sucessão de sons e silêncios, organizados ao longo de um determinado tempo. Uma combinação de elementos sonoros captados pela audição, que inclui variações de timbre, intensidade, ritmos, melodias e harmonias.
Da mera imitação rudimentar de sons até à complexidade de uma orquestra, passaram-se milhares de anos e verificou-se um longo processo de evolução intimamente ligado à evolução do Homem. Os séculos XX e XXI cunharam períodos de revolução na música.
Do aparecimento da rádio até ao surgimento contínuo de novas tecnologias de registar, reproduzir e distribuir, temos assistido a verdadeiras explosões de múltiplas e variadas tendências e géneros. Foi ainda em prol da inovação e criatividade e do enriquecimento sonoro que surgiu a música electrónica, criada na Alemanha da década de 1950, responsável pela introdução de curiosas sonoridades manipuladas através de outros instrumentos ou objectos, incorporados e explorados numa dimensão jamais imaginada.
Ao longo do século XX, surgem ainda variadíssimos estilos e géneros musicais como o Jazz, o Rock and Roll, o Heavy Metal, Disco, New Age, Pop Music, Reggae, Techno, House Music, Funk, Hip Hop e a Lounge Music, numa infindável raia que tornou o universo musical do nosso tempo no mais rico e variado da história da música.
Novos suportes e tecnologias avançaram a uma velocidade estonteante, do Walkman ao Spotify, passando pelo Discman e leitores de mp3, a música passou a estar sempre presente, tornou-se parte constante do nosso dia-a-dia, uma companhia que acaba por se transformar numa extensão do nosso corpo.
Não há dúvida que o som produz uma sensação física, psicológica e emocional na maioria de nós. A música activa as emoções e a nossa memória afectiva. Hoje sabemos que o som interage no corpo e com a mente humana e interfere no funcionamento do organismo. Mas, também sabemos que escutar está muito para além do simples ouvir e captar os sentidos dos sons.
O facto de hoje ser praticamente impossível estar longe da música será mesmo algo positivo? Será que a música de fundo, tão em voga, não se está a juntar ao som e ao ruído quotidiano invadindo as nossas vidas de forma desastrosa? Seguramente que sim!
O ruído está a aumentar, principalmente nas cidades, reflexo da nossa civilização cada vez mais sujeita a um ruído ininterrupto muitas vezes “disfarçado” de música. Invade-nos constantemente e priva-nos de algo tão importante como a própria música – o silêncio. A música, neste contexto, transformou-se em ruído e devasta em permanência as nossas vidas, destituindo e remetendo para a inexistência o silêncio, os sons da natureza e a nossa voz interior.
Deixamos que o som se transforme em ruído e o que nos poderia fazer sentir bem, acaba por ser causa de stress, distúrbios de sono, irritabilidade e até mesmo causa de risco acrescido de doenças cardiovasculares, já para não falar nos consequentes problemas auditivos, cada vez mais frequentes em jovens e crianças.
Será que vamos conseguir sair deste caos sonoro em que vivemos diariamente e que coloca em risco a nossa saúde? Será que vamos conseguir proteger-nos da “doença do ruído”? Talvez tenhamos de voltar às origens e inspirar-nos nos sons da natureza. Voltar a ouvir a chuva, o soprar dos ventos e das tempestades, deixarmo-nos embalar no rolar das ondas, no grasnar das gaivotas, no chilrear dos pássaros e no cantar dos grilos e das cigarras. Talvez tenhamos de voltar a saber ouvir o ritmo e o som cíclico das máquinas do nosso quotidiano, do barulho do teclado do computador, do rato a deslizar na secretária.
Ouvir o som dos passos e identificar quem é a cada ritmo. Voltar a ouvir o som dos talheres no prato e perceber se o ruído é excessivo ou equilibrado. Reaprender a escolher volumes e tentar fazer tudo com menos ruído. No fundo, e por paradoxo que pareça, trabalhar e apurar a audição.
Filipa Taipina
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Por vontade da autora, o texto não cumpre as regras do Novo Acordo Ortográfico
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Gostei muito! Grata!
Também eu trabalho com som tornando o cenário noticioso menos ruidoso.
Cumpts,
Mafalda Ramos
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