O papel do terapeuta da fala

O implante coclear devolve a capacidade de ouvir a quem nasce surdo.

Depois é preciso ensinar a criança a ouvir, estimulando-a para o som, maximizando as capacidades da prótese computadorizada

Terá de haver um trabalho específico de terapia da fala para que um implante coclear possa dar o rendimento máximo. O trabalho começa antes da cirurgia e envolve uma equipa multidisciplinar, que terá de fazer uma avaliação global da criança e só terminará muito depois da intervenção cirúrgica, quando estiveram criados os estímulos, treino e processo de habilitação auditiva.

Com a cirurgia, a criança com surdez severa a profunda, recupera as funções técnicas que a impedem de captar e decifrar os sinais necessários à audição. O implante coclear, uma espécie de prótese computadorizada, substitui as funções do ouvido e fornece impulsos elétricos que serão transformados em sons. O dispositivo eletrónico tem uma parte interna, que é introduzida por um processo cirúrgico no interior da cóclea e que tem a missão de enviar os sinais eletroacústicos que vão estimular o nervo auditivo. Por outro lado, a parte externa desta prótese computadorizada é constituída por um microfone que capta o som e o transmite a um processador da fala, que descodifica e interpreta os estímulos auditivos recebidos, e ainda um transmissor externo que faz chegar os estímulos sonoros à parte interna do implante, através de um íman.

Tecnicamente, o implante proporciona as condições para captar e traduzir o que é audível, contudo, para quem nunca ouviu, o máximo rendimento desta prótese, só poderá ser obtido com a ajuda da terapia da fala. Após a cirurgia de implante coclear e da ativação dos componentes externos do implante, é necessário realizar um trabalho de estimulação auditiva, que é feito por etapas e que passam pela deteção, discriminação, identificação, reconhecimento e compreensão do que se ouve.

Para que os sons comecem a despertar a atenção da criança é necessário um treino específico, que é feito através do condicionamento ao som. Ou seja, após o estímulo sonoro, a criança deve executar determinada tarefa (como um encaixe ou uma construção). Este treino de deteção/consciência para o som será apenas o início da aprendizagem auditiva.

Com o tempo, as tarefas de discriminação levam a criança a comparar dois estímulos auditivos e a conseguir determinar se são iguais ou diferentes. A realização deste tipo de tarefas implica que a criança já tenha adquirido os conceitos de igual e de diferente, caso contrário, não podem ser usados nesta fase de aprendizagem.

Nas tarefas de identificação, a criança ainda deverá conseguir reconhecer auditivamente um item, dentro de uma série fechada de alternativas. Será necessário o reconhecimento de um item verbal, tendo como ajuda o conhecimento do contexto.

Nesta etapa, a criança não tem presente os estímulos que vão ser produzidos, mas sabe qual o tema que irá ser abordado. Por fim, ainda se deve trabalhar a compreensão auditiva, estimulando-se a capacidade da criança para processar a informação que recebe do implante coclear, para que consiga construir o significado das palavras e descodificar as mensagens. A compreensão auditiva é fundamental para que a criança utilize a via auditiva como a via primordial para o desenvolvimento da linguagem. Vários estudos têm demonstrado que, em situações de surdez congénita, o implante coclear promove um acesso mais efetivo à linguagem oral e compreensão da fala.

No pós-implante coclear, a terapia da fala desempenha um papel fundamental, na medida em que procura proporcionar um conjunto de estímulos que permite desenvolver adequadamente as capacidades auditivas, linguísticas e comunicativas das crianças.

Daniela Castanheira Ramos

(Terapeuta da Fala)

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