Não. É uma questão de sobrevivência e começa por ser importante para o desenvolvimento da criança. Todos precisam de carinhos, mimos e abraços. Mais tarde, na adolescência, é esta valência da sexualidade que irá condicionar a vida emocional futura. Pode ser um beijo, um piscar de olhos, uma palmada no ombro ou apenas um sorriso. São os afetos que nos ligam aos outros.

Os afetos, sentimentos e emoções são caraterísticas da espécie humana, mas só lhes começámos a dar o devido valor no início do século XX. São particularidades que nos distinguem e a sua procura inicia-se desde muito cedo. Para a criança em desenvolvimento é um questão de sobrevivência, tão importante quanto a alimentação e os cuidados de higiene. Todos procuramos carinhos, mimos e
abraços e esta é uma valência da sexualidade que, para o bem e para o mal, irá condicionar a nossa vida emocional futura.

Sob um regime ditatorial, com o lema “Deus, Pátria e Família”, seria de esperar a aliança entre Estado e Igreja. O ideal feminino da Virgem Maria continuou a ser divulgado, quer através da construção do Santuário de Fátima, quer através da distribuição de imagens divinas. Na época, a Virgem Maria seria para as mulheres portuguesas o ideal feminino e de maternidade – “marianismo” – num contexto de uma simbologia que recusa a relação sexual e os afetos.

A educação era reprimida, mas os discursos eram diferentes, para raparigas e rapazes. Existia o discurso proibitivo da sexualidade para ambos antes do casamento mas, aos rapazes eram permitidos outros recursos, como o da prostituição. A sexualidade nas raparigas era desvalorizada e considerava-se mesmo que se a mulher sentisse desejo ou prazer durante o ato sexual estaria a cometer um pecado ou, no extremo, também poderia ser considerada doente. Apenas lhe era permitido procriar. Tudo o resto era negado.

O fim da censura mudou costumes e atitudes. O código da família foi alterado. A educação sexual passou a ser debatida e a sexualidade discutida. O afeto pode manifestar-se através de modificações fisiológicas e podem ter diferentes formas, um sorriso, um aperto de mão, um abraço, um “toque”, etc..

Na adolescência, uma relação vivida com intensidade afetiva e relacional servirá como um pilar de sustentação da identidade daquele adolescente e os relacionamentos amorosos que o adolescente vaiexperienciando surgem também como forma de equilíbrio entre a construção da intimidade e da identidade. Será uma espécie de ensaio para a vida adulta e uma forma de o indivíduo aprender a relacionar-se e a testar as suas capacidades.

Hoje, sabe-se que a sexualidade nunca deve ser desprovida de afetos. A consumação do ato sexual, desassociado de algum sentimento, que não só o de obter prazer sexual, leva à solidão e à falta de propósito ou objetivo que se espera daquela relação. Para construir a sua sexualidade, qualquer pessoa vai necessitar, inevitavelmente, de descobrir amor e afetos. É esta descoberta pessoal que vai influenciar a sua sexualidade. Desprovida de afetos, a sexualidade é negativa e dificulta a construção da identidade do jovem adolescente.

Inês Madeira
(enfermeira)

 

Para ler o artigo na íntegra consulte a Revista Olhares

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