Moscas, aranhas e mosquitos nos olhos não fazem parte do imaginário de algumas mentes. As sensações existem e, na grande maioria das vezes, traduzem-se apenas em incómodo e desconforto

Já sentiu ardor, “picadelas”, desconforto ocular ou a sensação de ter areias nos olhos? São queixas muito frequentes nas consultas de oftalmologia, apesar de, na grande maioria dos casos, a situação não ser grave, pode ser muito incomodativa.

As pálpebras funcionam como uma espécie de “limpa para-brisas”, distribuindo o filme lacrimal (que resulta de secreções produzidas pelas glândulas lacrimais, células caliciformes e pelas glândulas de Meibomius) pela córnea e conjuntiva. Qualquer desequilíbrio nesta harmonia causa o chamado “olho seco”. Para percebermos porque isto acontece, é bom ficar a saber que a lágrima é uma mistura formada por água (98%), cloreto de sódio, enzimas como lisozima, lípidos e complexos imunológicos. E este fluido lacrimal tem várias funções: humedecer o epitélio corneano e da conjuntiva, tornar a córnea uma superfície ótica lisa e regular, e inibir o crescimento de micro-organismos na córnea e conjuntiva, através das enzimas e do “efeito de lavagem”.

O filme lacrimal – revestimento ocular formado pela lágrima – é composto por 3 camadas. A mais exterior, a camada lipídica, impede a evaporação da lágrima. A camada intermédia, aquosa e maior, cria uma superfície lisa e regular, e favorece a oxigenação do epitélio corneano. A camada mais interna é formada pela mucina e é responsável pela “aderência” uniforme do filme lacrimal à córnea.

Defeitos na qualidade (por evaporação excessiva) e/ou quantidade (hiposecreção) da lágrima podem causar alterações na superfície ocular que, para além do desconforto ocular, podem originar oscilações visuais temporárias e até mesmo alterações estruturais corneanas.

Na maioria das situações, os sintomas são temporários e podem ser despoletados pelo ar condicionado, temperaturas altas, ambientes secos, vento e fumo. Períodos mais prolongados em atividades que privilegiam a visão de perto ou o uso de computador também podem desencadear uma sensação de ardor, areias nos olhos, vermelhidão e “olhos pesados”, porque esquecemos de acionar o “limpa para-brisas”, piscando o olho. Mas, também podem surgir casos associados a alterações hormonais, à toma de fármacos (anti-histamínicos, b-bloqueadores, diuréticos, antidepressivos…) e a doenças sistémicas (diabetes, doenças autoimunes…).

A utilização de lágrimas artificiais, também designadas lágrimas de hidratação ou de conforto, acabam por resolver a maioria das situações e podem ser usadas tantas vezes quantas as necessárias. Existem vários produtos no mercado, com características diferentes, nomeadamente na concentração de ácido hialurónico, presença ou não de conservantes, em frascos ou uni doses, com durabilidade diferente após abertura e ainda com inúmeras variações de preço. O número de aplicações por dia deve ser ajustado à intensidade dos sintomas: maior o desconforto, menor deverão ser os intervalos entre administrações, até porque o uso frequente não origina dependência.

Paralelamente, também existem géis de hidratação que duram mais tempo na superfície ocular. Neste caso, a sua aplicação pode turvar ligeiramente a visão, mas por norma costumam ser bem tolerados.

O uso de anti-inflamatórios, corticóides, imunomodeladores e soro autólogo devem ser usados em situações em que não há alívio com as lágrimas artificiais e existem sinais de queratite importante.


E o que fazer às aranhas e mosquitos?

Já viu “teias” ou “mosquitos” que tentou afastar com as mãos por pensar que eram cabelos ou mosquitos verdadeiros e não resultou? E depois apercebeu-se que flutuam no campo visual? E que muitas vezes desaparecem e depois surgem novamente? Não, não são sinais de que enlouqueceu… Apesar de algumas pessoas ficarem seriamente transtornadas quando se apercebem das mesmas.

A sensação e descrição são verdadeiras. O interior dos nossos olhos é preenchido por um gel translúcido, chamado vítreo, constituído principalmente por água e com uma concentração muito baixa de ácido hialurónico e de fibras de colagénio. O vítreo vai-se tornando mais liquefeito e algumas das fibras desorganizam-se e passam a tornar-se percetíveis pelos olhos mais atentos. Veem-se mais quando há mais luminosidade, e quando os contrastes são maiores (paredes e papéis brancos). São mais frequentes em olhos míopes e em idades mais avançadas, mas podem surgir em qualquer pessoa sem patologias e até em jovens.

A grande maioria dessas alterações vítreas, também conhecidas por “moscas volantes” ou “floaters”, não tem qualquer significado patológico. São somente irritantes e incomodativas quando surgem na visão central e atrapalham o trabalho no computador ou “dançam” durante uma leitura.

O que fazer? Pode tentar mover os olhos noutra direção e por vezes consegue desviá-las do eixo visual… E porque é que há dias em que nem as vê? As “moscas volantes” só são percetíveis quando passam no eixo visual. Podem, por isso, passar grande parte do dia sem serem notadas. Também está comprovado que o nosso cérebro se adapta às mesmas e que passa a ignorá-las. Muitos são os casos em que as pessoas referem deixar de as ver…

Fica assim explicado porque não se propõem tratamentos para estas “moscas”, a não ser que sejam tão densas que o doente perca significativamente a qualidade visual. A cirurgia do vítreo (vitrectomia) deverá ser reservada para casos muito específicos, face aos riscos associados, como rasgaduras e buracos acidentais na retina, que possam aumentar o risco de descolamento.

Por isso, se vir “moscas”, encare-as como novas “companhias”, aborrecidas e quase sempre inofensivas. Quanto mais depressa entender a sua pouca importância, mais depressa aprenderá a ignorá-las…


Mas…Há “moscas volantes” perigosas? Como as diferenciar?

Sim. Na grande maioria das situações as “moscas volantes” têm pouco significado patológico, principalmente se forem em pequena quantidade e sem outras queixas associadas. No entanto, o aparecimento abrupto de múltiplas condensações, como se fosse uma chuva de pontos/fios negros, que turvam a visão, e que podem ou não ser acompanhados de luzes como relâmpagos, são sinais de alarme.

Estes sinais resultam de trações vítreas na retina periférica, que resultam em rasgaduras, com libertação de células pigmentadas da retina. Se essas ruturas envolverem vasos sanguíneos, as “moscas” não correspondem a fibras desorganizadas, mas sim a células sanguíneas.

Como o quadro clínico é muito mais aparatoso, o doente deve ser observado em situação de urgência. Isto porque, a existência de rasgaduras na retina possibilita a passagem de vítreo por essas “aberturas” podendo causar descolamento da retina. 

Ana Sofia Travassos
(Médica Oftalmologista)

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